Opinião

PQP e Pedro Queiroz Pereira

PQP era um homem da produção, dos poucos que arrisca em ter novos bens, melhores ordenados para os seus colaboradores, inovação de referência, sem algum dia questionar os impostos que, por justo, o “atacavam”. Portugal já tem poucos destes. E é por isso que lhe devemos imenso respeito nesta despedida temporária.

De surpresa, neste tempo em que esperamos que nada nos atormente, conhecemos a morte de Pedro Queiroz Pereira. Foi um choque. Porque Pedro Queiroz Pereira, nas suas seis décadas de vida, nos marcou interiormente mesmo sem termos vivido com ele qualquer intimidade.

Queiroz Pereira foi PQP nos tempos em que Vila Real era uma das capitais do desporto automóvel num país fechado e num território ardente de novidades. Nunca entendi como é que ele se conseguia desenvencilhar do volante, porque o seu corpo nunca o haveria de habilitar para a condução ergonómica, mas a verdade é que tudo lhe saia bem, tudo se afirmava perfeito.

Os seus carros eram especiais pela beleza, mas também pela inovação, eram o que de mais relevante haveria de marcar a moda, mesmo que alguns dos apetrechos se não destinassem a mais do que a impressionar.

PQP sentava-se nas cadeiras de lona do Hotel Tocaio e assumia a roda com uma liderança natural, impenetrável e afável, saudável de espírito mesmo que, por alguns dias, não parecesse saudável de corpo. Era assim o PQP nessa terra de além Marão, que nesses dias se fazia grande e próxima de poderes que existiam mas que de tão longe pareciam inacessíveis.

Esse Queiroz Pereira era o da minha juventude. Com distância, porque o “menino da Bila”, como o Dr. Zézé Rebelo chamava aos atrevidos crianços desse tempo, que só assinalava o staff (essa palavra de hoje) em que uma parte das corridas assentava.

O outro PQP, já Pedro Queiroz Pereira, foi o quem vim a conhecer quando as funções governativas me chamaram. Dizia, nessa altura, o primeiro-ministro, que Queiroz Pereira era o último grande industrial português, o único que do Estado só queria que lhe “retirassem a burocracia da frente”.

Um dia, no final de um pequeno-almoço organizado por uma associação empresarial, ainda eu na Administração Interna, Queiroz Pereira, conhecedor de pormenores, abeira-se e pergunta-me da razão de ser de, em Portugal, não ser possível a circulação de tratores com rodados de uma determinada dimensão. Nada sabia eu do assunto, ninguém me havia posto ao corrente. A burocracia havia travado PQP, mas PQP não se havia quedado e o assunto foi tão rápido resolvido que ele não haveria de o esquecer no tempo posterior.

Os seus investimentos na indústria papeleira, que acompanhei com cuidado, são (ao contrário de outros) de uma atenção extrema às questões ambientais; receberam o melhor da engenheira portuguesa e garantiram inovação, a custo zero, que hoje se afirma internacionalmente. Poderia PQP ter recebido fundos de vários lados para estes objetivos não centrais do projeto? Claro quem sim! Outros o fariam.

Quando em 2009 se preparou um novo Código Florestal, de má memória e que haveria de se ficar pelas gavetas do poder, PQP haveria de assinalar as divergências. Fazia-o com a frontalidade que, para os mais desatentos, poderia parecer deselegância. Mas não era. E esse foi o último dos seus tempos na sua leitura do futuro enquanto me fiz governante.

Em novembro de 2009, já fora do governo e de regresso ao universo da energia, recebo um telefonema de José Honório, administrador da Semapa, endereçando um convite para que eu pudesse aconselhar o grupo numa leitura para 2017 (novo QCA) sobre os baldios. Sabia PQP que esse convite era o limite em que não se colocava em causa a ética devida ao exercício das funções públicas, mesmo não havendo ilegalidade nesse desempenho. Compreendi bem o convite que me fazia. Na inauguração da nova fábrica de Setúbal eu havia de despender a minha posição sobre o futuro dos territórios de propriedade coletiva, coisa que haveria de o despertar. Foram cinco meses de leitura sobre o país de um futuro que só haveria de existir sete anos depois.

A Semapa é, por estes dias, um aglomerado industrial português que se deve a Pedro Queiroz Pereira. Também se lhe deve a leitura nobre que fez do estado do setor financeiro português em meados desta década. PQP era um homem da produção, dos poucos que arrisca em ter novos bens, melhores ordenados para os seus colaboradores, inovação de referência, sem algum dia questionar os impostos que, por justo, o “atacavam”. Portugal já tem poucos destes. E é por isso que lhe devemos imenso respeito nesta despedida temporária.

Deputado do Partido Socialista