Um festival no querido mês de Agosto

Chegado à quinta edição, o Filmes do Homem insiste em criar um vínculo com uma região de fronteira e marcada pela emigração. Mas a população de Melgaço mostra-se ainda alheada desta oportunidade de ver cinema para além daquele que regista as suas histórias.

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O Museu de Cinema de Melgaço mostra actualmente uma exposição dedicada à actriz italiana Anna Magnani Adriano Miranda
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Festival Filmes do Homem aposta na ligação aos temas locais, da emigração e da fronteira Adriano Miranda
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A Casa da Cultura ostra a exposição Pedra e Pele, de João Gigante Adriano Miranda

Ao fundo, a torre iluminada do castelo medieval, um dos mais antigos do país (a sua construção remonta ao reinado de D. Afonso Henriques), juntamente com as ruas estreitas engalanadas com pendões coloridos, faz o cenário perfeito para um tempo de festa. Frente aos paços do concelho, um palco acolhe um festival internacional de folclore; num pequeno largo, um jovem toca concertina; na esplanada da Praça da República, crianças correm e famílias conversam sob uma temperatura nocturna de perto de 30 graus…

O que faz um festival de cinema numa terra como Melgaço, que no seu “querido mês de Agosto” quase triplica a população e recupera a animação das décadas anteriores ao fenómeno da emigração?

O que faz um festival de cinema numa vila que não tem cinema – o edifício do velho Pelicano continua em ruínas –, mas tem um improvável museu de cinema, cortesia de Jean Loup Passek (1936-2016), o historiador e coleccionador francês que doou o seu acervo à terra que também adoptou como sua?

O que faz um festival de cinema num lugar onde as pessoas, apesar de terem sempre muitas histórias para contar, e de gostarem de se ver no grande ecrã, já não vão ao cinema, preferindo ficar em casa a ver a televisão ou a navegar na Internet?

O festival Filmes do Homem teima em remar contra este estado de coisas e, chegado já à quinta edição, que terminou este domingo, insiste em colocar Melgaço no mapa cultural do país, mesmo se decorre num lugar longínquo no Alto Minho, quase no fim do mundo.

Álvaro Domingues, geógrafo e um filho da terra, protesta contra a designação “fim do mundo”, e socorre-se mesmo de Manoel de Oliveira, que aí rodou, com Marcello Mastroianni, a longa-metragem Viagem ao Princípio do Mundo (1997). “É curiosa a facilidade com que se usa essa expressão, sempre na perspectiva de que aquilo que não se passa em Lisboa ou no Porto é ‘no fim do mundo’”, nota. Mas reconhece que as coisas começam a mudar um pouco por todo o país. “Desde há alguns anos, por vontade de programadores, curadores e também de autarcas e de determinados públicos, tudo pode acontecer algures.” O festival de cinema de Melgaço é um desses casos, entroncando nessa “história muito bonita e também muito radical” de alguém que, vindo da cosmopolita Paris, decidiu doar a sua colecção a esta terra.

O Museu Jean Loup Passek, inaugurado em 2005, é, de facto, o suporte deste festival, cujo lançamento foi ideia do presidente da Câmara de Melgaço. Há cinco anos, Manoel Batista Pombal desafiou Carlos Viana, professor, cineasta amador e programador da associação Ao Norte, de Viana do Castelo, a criar o Filmes do Mundo. Desde o início, o nome do coleccionador francês foi atribuído à secção competitiva do festival, que elegeu o documentário e a identidade e a memória desta terra de fronteira como um dos seus elementos estruturantes. Os outros são um programa de residências, Plano Frontal, que, com coordenação do cineasta Pedro Sena Nunes, anualmente convoca recém-licenciados em Cinema e em Fotografia para a realização de residências, filmes e projectos junto da população local.

O terceiro pilar, Fora de Campo, é um curso de Verão que, este ano, homenageou o cineasta-etnógrafo francês Jean Rouch.

Dos filmes ao vinho Alvarinho

Filmes do Homem tem um pouco de tudo: além dos filmes, com sessões entre a Casa da Cultura e ecrãs montados nas freguesias dos dois lados do rio Minho (com extensão à Galiza, portanto), tem exposições, debates, workshops, edição de livros, visitas guiadas… E é um convite à descoberta de uma terra que não é só paisagem e vinho Alvarinho.

Nesta edição, contou com 192 participantes (números da organização), vindos de vários lugares do país e de vários países do mundo. Mas a população local ainda o frequenta pouco. Não é o caso de Rui Táboas, reformado de 67 anos, e de Rafaela Gonçalves, uma jovem de 27, que são espectadores assíduos do festival. O primeiro deixou-se conquistar quando, em 2015, foi o protagonista de um dos filmes do Plano Frontal, A Revolução no Caminho. Táboas contava aí a sua aventura de militar que participou no 25 de Abril, em Lisboa, surgindo em fotografias históricas da Revolução dos Cravos. “Passei a vir aqui todos os anos, para ver os documentários e rever esta gente; ficou uma amizade entre nós”, conta Rui Táboas, que vive em Penso, e foi emigrante em França durante 38 anos – trabalhou nas obras e foi taxista, entre outras profissões.

Este habitante vê nas produções do festival algo de “bom para Melgaço, porque, mais tarde, a juventude vai poder descobrir coisas que não sabia que eram possíveis; os filmes feitos aqui ficam para memória futura”, diz. Mas está consciente de que a população adere pouco, e ele próprio, fora do festival, não vai ao cinema. “É como tudo: chegou a televisão e a Internet, e agora é mais cómodo ficar em casa.”

Quem nunca fica em casa é Rafaela, que herdou a cinefilia da mãe e cujo avô “foi a salto para França”. Razões suficientes para se interessar por um festival com a temática do Filmes do Homem e que considera “um privilégio” para a terra. Acredita que ele terá futuro, apesar do alheamento da população local. “Às vezes as pessoas inibem-se em vir, porque acham que os filmes são muito difíceis e abordam temas delicados”, diz a jovem, que trabalha no Porto na criação de conteúdos para os media – e que na edição deste ano tinha gostado particularmente do filme iraniano The Season of Warm Breezes, de Hosseini Rigi, que receberia um dos prémios.

Aposta na escola e na educação

“Melgaço tem uma população flutuante, extremamente envelhecida e que não tem hábitos de ver cinema, que muitas vezes acha que não é para si”, nota Álvaro Domingues, que este ano comissariou o projecto Quem somos os que aqui estamos?, e para quem a alteração deste estado de coisas passa pela educação. “Este é um fosso difícil de ultrapassar e a única hipótese é ter um projecto contínuo na escola”, diz o professor da Universidade do Porto. E esse é um caminho que está já a ser preparado. No próximo ano lectivo, os alunos da escola local vão ter contacto com as linguagens do cinema e vão mesmo produzir um documentário.

Em simultâneo, o museu de cinema, dirigido por Bernard Despomadères, parece finalmente poder vir a contar com um programa de serviço educativo, apoiado pela autarquia, que dinamize junto dos mais jovens as potencialidades de um espólio que, além do acervo de fotografias e cartazes – a exposição agora inaugurada recorda a grande actriz do cinema italiano Anna Magnani –, permite contar a pré-história do cinema até ao cinematógrafo dos irmãos Lumière.

Foi já com este objectivo que, na edição do ano passado, Patrícia Nogueira, da direcção do festival, lançou o projecto Kino Meeting, um encontro internacional de literacia de cinema que, este ano, reuniu representantes de cinematecas e cineclubes vindos de Berlim, Barcelona, Madrid e de uma sala de cinema de Ljubljana, na Eslovénia – o Kinodvor –, além de portugueses do Cinanima (Espinho), da Casa-Museu de Vilar (Lousada) e do Cineclube de Faro.

“Estamos a fazer todos os esforços para evitar que o festival seja um alien na terra, e temos de ir à conquista dos espectadores”, diz Patrícia Nogueira, para quem o serviço educativo ligado ao museu e a ligação à escola são fundamentais.

Este ano, o Kino Meeting incluiu um workshop dirigido por Abi Feijó (Casa-Museu de Vilar) sobre iluminação em cinema de animação. Uma das participantes, Graça Lobo (Cineclube de Faro), explicou ao PÚBLICO que o grupo estava a criar uma pequena animação, de quatro sequências, contando a lenda local da “Inês Negra”, história de uma “escaramuça” entre mulheres a seguir à crise 1383-85, contada por Fernão Lopes. A “Inês Negra”, que venceu a luta, representava o interesse de D. João I, que assim conquistou o castelo às forças do rei de Castela. “É uma história interessante, que faz uma inversão de valores no que toca à raça e ao lugar da mulher, e é uma experiência que se pode muito facilmente reproduzir nas escolas”, diz Graça Lobo, que esteve no lançamento do Plano Nacional de Cinema.

Quem também esteve desta vez em Melgaço foi Rui Simões, a apresentar, em competição, a longa-metragem A Casa (2017), um documentário sobre a Casa dos Estudantes do Império, no tempo do Estado Novo, e que começou por ser feito para a televisão. “Tive um público de luxo para o filme, que não é fácil e aborda um tema complexo, e que deu também um bom debate”, disse o realizador, confessando ser a primeira vez que se deslocava ao festival, onde “não é fácil chegar”. “É um festival com uma personalidade muito forte, e que está a fazer o seu caminho”, acrescentou.

O quinto Filmes do Homem encerrou com uma sessão ao ar livre, com duzentas pessoas num recinto da Torre do Castelo praticamente cheio, e a exibição de Todos os Sonhos do Mundo (2017), da francesa luso-descendente Laurence Ferreira Barbosa. Estreado em Lisboa em Outubro do ano passado, e também em Paris, “o filme não correu muito bem” nessa altura. A realizadora diz que não houve condições para o grande trabalho de comunicação que era necessário. Mas, ainda antes da sessão em Melgaço, mostrou-se agradada com a possibilidade de exibir a sua longa-metragem de ficção num festival de cinema documental. “É verdade que há um lado documental no meu filme, em que a maioria dos actores são portugueses ou luso-descendentes, sem experiência de interpretação.”

Todos os Sonhos do Mundo foi, de resto, rodado junto de comunidades emigrantes em Vitry-sur-Seine, a sul de Paris, e em Alturas do Barroso, em Boticas. Uma realidade, afinal, bem próxima da da população de Melgaço – tanto daquela que enche a vila neste “querido mês de Agosto”, como da que aí permanece nos restantes meses do ano.

Notícia corrigida: a ideia da criação do festival partiu do presidente da Câmara de Melgaço, Manoel Batista Pombal, e não de Carlos Viana.

O PÚBLICO esteve em Melgaço a convite do festival Filmes do Mundo