O que dizem os conselheiros a Rio? Que mantenha a rota

Luís Montenegro, uma das vozes mais críticas da actual liderança, desafiou o líder a mudar de estratégia. Rio já disse que não é preciso e à sua volta não falta quem pense o mesmo.

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Quem está com Rio pede ao líder que não se desvie do rumo Daniel Rocha

Com três eleições no horizonte, será que Rio vai aproveitar as férias para um balanço crítico da sua liderança e fazer eventuais ajustamentos? Ou vai seguir o trilho que delineou, indiferente às críticas? O mais provável é a segunda hipótese. O PÚBLICO falou com algumas figuras do partido para saber como avaliam estes cinco meses de liderança de Rui Rio e que sugestões lhe dariam para o novo ciclo que se aproxima. Álvaro Almeida, Arlindo Cunha e António Tavares são três vozes que Rio escuta habitualmente e aquilo que dizem aqui também não desagradará ao líder, por não ter implícito qualquer apontar de erro. Quando muito, pedem-lhe para acrescentar novos temas à agenda do PSD.

À frente do PSD desde meados de Fevereiro, Rui Rio faz agora uma pausa para ir a banhos. Mas ao contrário da maioria das principais figuras da vida política, que continuam a privilegiar o sul do país, o líder social-democrata volta a escolher o Cabedelo, em Viana do Castelo, para descansar na companhia da família e se preparar para os difíceis combates eleitorais de 2019. Há muitos anos que Rui Rio tem no Cabedelo a sua praia predilecta e os seus hábitos não se alteraram pelo facto de ter sido eleito presidente dos sociais-democratas.

Rio vai estar com um pé no Cabedelo e outro em Ponte de Lima, terra natal do seu grande amigo António Carvalho Martins. A amizade entre os dois é antiga e reforçou-se a partir do momento em que o actual líder do PSD e o antigo governador civil de Viana do Castelo assumiram responsabilidades na secretaria-geral do partido, no consulado de Marcelo Rebelo de Sousa.

Eleito com uma margem pouco folgada para a presidência do PSD, Rio demorou a descolar. As primeiras semanas do mandato gastou-as a resolver várias polémicas que se sucederam envolvendo algumas das pessoas que escolheu para o seu núcleo duro, como Elina Fraga, Salvador Malheiro e Feliciano Barreiras Duarte. A relação de proximidade com o Governo de António Costa desencadeou um coro de críticas no interior do partido e Rio chegou a ser acusado de desperdiçar oportunidades de fazer oposição.

No congresso de Lisboa onde foi entronizado líder do partido, Luís Montenegro subiu ao palco para marcar as cartas. “Conhecem a minha convicção e a minha determinação; se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém. Sou totalmente livre. Desta vez decidi não, se algum dia entender dizer sim, já sabem, eu não vou pedir licença a ninguém”, afirmou, levantando o congresso.

Aos poucos, Rio foi vencendo alguns obstáculos e começou a afirmar-se. Criou o Conselho Estratégico Nacional (CNE) do PSD, uma espécie de Governo-sombra, assinou dois acordos com António Costa, sobre fundos comunitários e descentralização, e foi para o terreno, dando prioridade à saúde e à justiça. Há dois meses apresentou um pacote de medidas de apoio à natalidade a que deu o nome de “uma política para a infância”. Mas as sondagens não dão o PSD a crescer.

Há dias, numa entrevista à SIC Notícias, Luís Montenegro acusou o líder do PSD de ser responsável pelo clima de derrota antecipada que tomou o partido e desafiou-o a “arrepiar caminho”, para "acabar com a ideia de que a vitória do PS nas próximas legislativas é uma inevitabilidade”. E ontem, em entrevista ao Expresso, foi a vez de Pedro Duarte se assumir como candidato numa futura disputa pela liderança interna do partido.

Rio é alvo de marcação cerrada, mantém-se na mira dos detractores e não admira, por isso, a primeira reacção de Álvaro Almeida ao pedido para partilhar os conselhos que tem para o líder: “As sugestões faço-as pessoalmente e em privado”, começa por dizer o vereador do PSD na Câmara do Porto, elogiando a liderança do ex-autarca da cidade. “Aquilo que vejo é um PSD a afirmar-se junto do eleitorado, independentemente do que dizem as sondagens”, resume. “Estamos na direcção certa”, reforça o economista, coordenador do CEN para as Finanças Públicas, com a convicção de que o partido “estará em boas condições de chegar às eleições legislativas e lutar pela vitória”.

Antes de avançar com qualquer sugestão, Arlindo Cunha, antigo ministro de Cavaco Silva e Durão Barroso, trata de dizer que Rui Rio está a fazer o que tem de ser feito e garante que quando chegar a hora de explicar as propostas que tem para o país as “pessoas vão entendê-las e vão descobrir as qualidades de quem as apresentou”. Insurgindo-se contra o populismo, que diz estar na base do “descrédito da política”, o coordenador do CEN para a Agricultura, Alimentação e Florestas deixa uma sugestão ao líder do PSD: “Não se desvie do caminho que está a fazer e continue a colocar em primeiro lugar os interesses do país à frente dos interesses do partido.” Para Arlindo Cunha, “esta máxima de Rui Rio, que foi também a máxima de Francisco Sá Carneiro, parece que causa um grande escândalo no aparelho do partido”.

António Tavares, porta-voz do CEN para a área da Solidariedade e Sociedade de Bem-Estar, aplaude os acordos que o partido fez com o Governo em matéria de descentralização e fundos comunitários – “são duas matérias importantes para o país” – e sugere a Rio que traga temas novos para a agenda política.

O também provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto destaca o empenho do presidente do partido em tentar condicionar a agenda política mas, observa, “isso às vezes não chega, sobretudo quando se tem pela frente um primeiro-ministro com sorte”. “António Costa tem tido vários suplementos de alma: os fogos na Grécia e o caso Ricardo Robles, que servem para desviar as atenções do Governo", exemplifica.

Reclamando “políticas públicas que vão para além dos ciclos de governação”, António Tavares agita a bandeira das alterações climáticas para dizer que o partido tem de trazer para a agenda política este tema. E deixa uma nota de esperança: “Rui Rio é um líder resiliente. Que se saiba, não há maiorias absolutas à vista.”