Vírus do ébola voltou à República Democrática do Congo

Um novo surto de ébola foi declarado na zona oriental da República Democrática do Congo. Equipa internacional já está na área afectada.

Vírus do ébola
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Vírus do ébola CDC

Dias depois de um surto de ébola que matou 33 pessoas no Noroeste da República Democrática do Congo ter sido declarado como terminado, o Ministério da Saúde congolês anunciou esta quarta-feira que foram detectados quatro novos casos na zona oriental do país, dois deles de profissionais de saúde.

Sem informar quando, o ministério afirmou em comunicado que 20 pessoas já morreram de febres hemorrágicas em Mangina e nos arredores, uma localidade densamente povoada a cerca de 30 quilómetros da cidade de Beni e a 100 quilómetros da fronteira do Uganda. Mangina faz parte da província de Kivu do Norte.

Das seis pessoas que mostraram sinais de febre e que ainda continuam vivas, quatro foram então confirmadas com a infecção pelo vírus do ébola. Julien Paluku , governador da província, tem feito vários tweets sobre a situação. “Urgente!!! Urgente!!!  Vírus do ébola confirmado na província de Kivu do Norte”, escreveu. 

“A maioria dos casos aconteceu na segunda metade de Julho… Quando as equipas médicas da província analisaram de novo … notaram que os casos poderiam ser consistentes com ébola que começou ainda em Maio, mas ainda é cedo para o dizer”, disse Peter Salama, director adjunto para a prontidão e resposta a emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), acrescentando que os casos estão espalhados por dezenas de quilómetros.

Uma delegação internacional já chegou esta quinta-feira a Beni. A equipa – que tem o apoio das Nações Unidas, do Banco Mundial, da OMS e do Ministério da Saúde da República Democrática do Congo – instalou um laboratório móvel e um centro de coordenação.

Contudo, esta é uma região onde há grandes problemas de segurança, o que pode complicar os esforços para controlar o vírus. Cerca de 1000 civis foram mortos por grupos armados e militares do Governo nas proximidades de Beni desde 2014. Em toda a província há mais de um milhão de pessoas deslocadas.

“Esta é uma zona de conflito activa. A maior barreira será chegar com segurança à população afectada”, considera em comunicado Peter Salama. Já Jeremy Konyndyk, do Centro para o Desenvolvimento Global, uma organização sem fins lucrativos, realça que os outros surtos recentes do ébola aconteceram em áreas relativamente seguras e estáveis. “Kivu do Norte é outra situação, o que me deixa um pouco nervoso”, afirmou.

Além disso, esta área tem um comércio intenso com os países vizinhos Ruanda e Uganda, o que aumenta o risco de o vírus se espalhar internacionalmente. Julie Hall, responsável pela equipa da Federação Internacional da Cruz Vermelha, disse que a resposta ao ébola em Kivu do Norte deverá ser uma operação “altamente complexa”.

O Ministério da Saúde congolês informa que não há indícios que liguem este surto com o último, que começou em Abril e ocorreu a mais de 2500 quilómetros de distância de Mangina, no Noroeste do país.

Morcegos e fluidos corporais

Este é o 10.º surto de ébola neste país do Centro de África, desde que o vírus foi descoberto perto do rio Ébola, no Norte do país. Isto é mais do dobro do em que em qualquer outro país.

Pensa-se que o vírus do ébola se dissemine a grandes distâncias por morcegos e que pode surgir em carne de animais vendida em mercados ao longo da República Democrática do Congo. Uma vez presente nos humanos, o vírus causa febre, vómitos, diarreia e hemorragias e espalha-se directamente através do contacto entre fluidos corporais. Uma epidemia no Oeste de África, nomeadamente na Serra Leoa, Libéria e Guiné -Conacri, matou, pelo menos, 11.300 pessoas e infectou cerca de 28.000 entre 2013 e 2016.

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Equipa internacional a chegar à área afectada Samuel Mambo/Reuters

As autoridades sanitárias congolesas e internacionais conseguiram responder rapidamente ao último surto de Abril, que incluiu a utilização de uma vacina experimental produzida pela empresa farmacêutica Merck, uma das várias vacinas em desenvolvimento contra o vírus do ébola. Mas esta vacina foi criada para ser usada contra a estirpe Zaire do vírus e não houve a confirmação de que esta estirpe estivesse presente no último surto. 

A OMS já alertou que poderá não ser possível utilizar a vacina no novo surto. As autoridades não confirmaram ainda qual é a estirpe específica do ébola que causa este surto, mas Peter Salama afirmou que poderá ser a do Zaire, do Sudão ou do Bundibugyo. Se for a estirpe do Zaire, a vacina usada no último surto poderá ser uma opção. Se não for, a situação será mais complexa e “poderá não haver qualquer opção de vacina”, afirmou à agência Reuters.

Além da vacina, os factores-chave no controlo do anterior surto terão sido o rastreio de potenciais doentes e a velocidade da resposta. A OMS afirmou que o facto de já ter uma equipa e equipamento no sítio poderá ser uma vantagem na luta contra o novo surto.

“O ébola é uma ameaça constante na República Democrática do Congo”, disse ainda Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS. “Iremos lutar contra este [surto] tal como fizemos no último.”