Entre mitos e invasões, com 250 anos, a “casa mais estreita do Porto” abre-se portas

Está escondida entre duas igrejas, foi morada fixa e temporária de capelães, artistas e sacristães e palco de reuniões secretas durante as Invasões Francesas, Guerras Liberais e do Cerco do Porto. Muitos já a conhecem, mas haverá quem por lá passe todos os dias e nunca tenha reparado que é um edifício que até aos anos 1980 foi habitado.

Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

Um passo largo chega para medir a fachada daquela que é conhecida como a casa mais estreita do Porto. Vamos admitir que possam existir outras, mas esta será, ainda que desconhecida de muitos, a mais célebre de todas as habitações esguias da cidade ou do país, como há quem afirme. Está em zona de passagem diária de uma multidão, no centro da cidade, onde dificilmente algum portuense nunca terá passado ou para onde nunca terá olhado. Também é conhecida como “casa escondida”. Percebe-se porquê. A camuflagem granítica e os edifícios adjacentes cumprem o serviço de lhe tirar o protagonismo. 

Construída há 250 anos, já serviu de residência fixa e noutros períodos foi morada temporária de artistas que passaram pela cidade em trabalho que de certa forma está directamente ligado com o enquadramento onde o edifício se insere. Desde a década de oitenta do século passado que não vive lá ninguém. Só há poucos meses é que, após dois séculos e meio, abriu pela primeira vez ao público. 

Quem a conhece estará familiarizado com a descrição e possivelmente com a história em torno da sua existência. Talvez desconheça a realidade por detrás de alguns mitos associados à mesma. Para quem nunca ouviu falar dela lançamos algumas pistas. 

Está edificada muito próximo da Praça de Parada Leitão, vulgarmente conhecida por Leões, onde está a reitoria da Universidade do Porto e o mítico café Piolho. Terá sido ali, naquele ponto de encontro, que muitos terão tentado responder à pergunta: “Sabes qual é a casa mais estreita do Porto?”.

Alguns estariam a olhar para ela. Pois é do outro lado da rua, entalada entre a igreja dos Carmelitas e a do Carmo, atrás de um gradeamento e de uma porta verde que está a entrada para os três andares da “casa mais estreita” da cidade.

Reza a lenda que foi construída para separar as duas igrejas. A diocese não permitiria que se tocassem. Mais à frente vamos perceber que não passa de um mito urbano. Ali moraram capelães, artistas e sacristães. Serviu também de lugar secreto para reuniões mais recatadas durante as Invasões Francesas (1807-1811), as Guerras Liberais (1828-1835), o Cerco do Porto (1832-1833) e após a proclamação da República (1910), na sequência da perseguição encetada às Ordens religiosas.

Ajuda-nos na reconstituição desta história o provedor da Ordem do Carmo, Rui Barbosa, desde 2016 à frente da instituição responsável pela construção deste edifício, no mesmo ano em que a igreja também conhecida como Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo foi edificada. As obras iniciaram-se em 1756 e terminaram em 1768, quando foi inaugurada. 

Já não vive lá ninguém, mas no dia em que lá fomos eram muitos os que a visitavam. Desde Abril, está inserida no circuito turístico da Ordem Terceira do Carmo. Fazem também parte deste roteiro a igreja, as catacumbas e a sacristia. 

São três pisos, com três aposentos: um quarto, uma sala de estar, e uma sala comum com cozinha. Todas as divisões estão mobiladas com mobiliário de época, embora nenhuma destas peças estivesse originalmente na casa. Nos corredores estão expostos quadros com os retratos de antigos provedores. 

Surpreendentemente, no interior, há mais espaço do que a fachada esguia pode desvendar. O percurso da escadaria é estreito, mas as divisões, numa zona mais interior, alargam numa espécie de funil. 

Durante a nossa visita há uma visitante que aborda o provedor. Garante ter conhecido o último sacristão que ali morou até aos anos 1980. “Há sobretudo pessoas com mais idade que ainda se lembram que aqui vivia um zelador da igreja”, conta o responsável pela Ordem.

Desfazer mitos

Explica-nos que não existia nenhuma missiva da diocese local que impedisse que as duas igrejas dividissem a mesma parede. Também não existia qualquer animosidade entre a Ordem do Carmo e a vizinha, dos Carmelitas, pelo contrário. 

Foi a Ordem dos Carmelitas que cedeu aquele terreno para que a igreja do Carmo pudesse ser construída e também a responsável pela sua formação. Existem três tipos de ordens. As primeiras são as masculinas, as segundas são as femininas e as terceiras eram formadas por leigos que queriam ver estendidos os benefícios espirituais das ordens religiosas às suas. Estas propunham-se a ser o ramo de cariz mais ligado à acção social, que teria de ser realizada de forma concertada com a Ordem que lhes permitiu a formação. Para que pudessem ser reconhecidas como tal teriam de obter uma licença e aprovação de uma ordem religiosa. Neste caso foram os Carmelitas que permitiram a formação da do Carmo. 

As terceiras eram compostas sobretudo por uma burguesia média ou endinheirada que tinham meios financeiros que as religiosas não tinham, o que lhes permitia levar avante acções sociais que não eram possíveis de realizar pelas anteriores.

Quando a igreja do Carmo é construída, no terreno contíguo, já lá estava a dos Carmelitas desde 1628. Não são construídas encostadas uma a outra apenas por existir uma contrariedade que o impedia. As capelas interiores, nas traseiras da mais antiga, formavam saliências que impossibilitavam a construção da do Carmo paredes meias com a dos Carmelitas. Obrigatoriamente teria de se guardar um espaço entre elas que se tornava mais visível na parte frontal. 

Entende por isso a Ordem do Carmo “tapar o buraco” deixado por esse constrangimento. Por uma questão prática e estética edifica-se ali a casa, ainda sem qualquer propósito definido. Nasce assim, como nos conta o actual provedor, “a casa mais estreita do Porto”. 

Serviu numa fase inicial para residência dos capelães e mais tarde para o efeito já referido anteriormente. Os artistas que por lá passaram temporariamente são os responsáveis por alguns trabalhos em talha dourada e pinturas do interior da igreja.

O agradecimento dos invasores franceses

Dos períodos conturbados vividos na cidade, o provedor conta-nos uma história passada durante as Invasões Francesas. Durante a Segunda Invasão, comandada pelo marechal Soult, a igreja e o mosteiro dos Carmelitas, onde agora está o quartel da GNR, foram ocupados pelas tropas invasoras. Os frades, com receio das represálias, fugiram dali. 

Da Ordem do Carmo ninguém debandou. E foi na casa construída entre as duas igrejas que em reunião secreta se negociou que os soldados franceses feridos seriam tratados no hospital desta Ordem, inaugurado em 1801. Recentemente, após ter encerrado em 2012, foi vendido em 2016 a um privado que no ano seguinte anunciou que ali será construído um hotel de cinco estrelas.

A ordem do Carmo foi poupada, ao contrário do que aconteceu com os Carmelitas nada foi pilhado. Mais tarde um oficial francês, como comprova uma acta do arquivo da Ordem, escreveu uma carta de agradecimento pela forma como foram tratados no Carmo.

Circuito em expansão

Desde que as portas do circuito abriram em Abril já passaram pela casa, igreja, sacristia e catacumbas, onde está exposto o espólio de pratas, que até então estava “fechado a sete chaves”, pessoas de 60 nacionalidades. De acordo com o assessor da Mesa Administrativa, Frederico Marchand, no mês passado contaram cerca de 4 mil visitas e neste mês já ultrapassaram “largamente” esse número, superando todas as expectativas iniciais.

Esta considera ser uma forma de tornar acessíveis sectores menos conhecidos da Ordem, numa zona de grande fluxo de turistas, além da igreja que sempre esteve de portas abertas, que é também motivo de atracção pelo painel de azulejos na lateral exterior, desenhado por Silvestre Silvestri e pintado por Carlos Branco em 1912.

Este trabalho de divulgação não está acabado, nem o circuito está fechado: “Brevemente teremos mais áreas que farão parte do roteiro e que agora estão em obras”.