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Aldeia de Algoso Amanda Ribeiro
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No PINTA é possível passear com burros mirandeses Amanda Ribeiro
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António Pires a limpar as folhas secas Amanda Ribeiro
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Castelo de Algoso Nelson Garrido
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Rosa Delgado a fazer um escrinho Amanda Ribeiro

Reportagem

Vimioso, uma porta escancarada para a nossa natureza

Num só dia é possível passear com burros mirandeses junto ao rio, refrescar as ideias numas termas, conhecer o artesanato local, caminhar pela história de Portugal e gozar de um repasto transmontano. Aqui não é preciso escolher.

Alfredo, Garbanzo e Aragão estão a postos. Ajeitam-se as albardas e os alforges coloridos, guardam-se as garrafas de água, preparam-se os caminhantes para o que aí vem: um passeio, (muito bem) acompanhado pelos três burros mirandeses, ao longo do rio Angueira, um dos cursos que atravessam Vimioso, em pleno Nordeste Transmontano. Entretanto, junto à água, uma figura aproxima-se, vinda da outra margem. Pé ante pé, de pedra em pedra, tem uma vara na mão e gestos precisos. Ocupa-se de uma minuciosa tarefa como se fosse dele, e de mais ninguém. O que faz, descobrimos à sua chegada até nós. Guarda-fiscal reformado, António Pires pastoreia por ali as suas cinco vacas — já teve mais, agora é só “para passar o tempo”. Deixou-as por momentos e, enquanto atravessa o rio, aproveita para limpar as folhas secas que se acumulam entre as pedras da passagem. “Para a corrente passar e para não cheirar mal”, explica, finda a missão, vara na mão e sorriso no ar. Sem saber, sumariza-nos assim a orgulhosa relação que os vimiosenses têm com a sua natureza, com o seu território, com as suas tradições. E que se revela a par e passo, passo a passo.

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Carolina Martins é uma das monitoras da AEPGA que acompanha o percurso

Assim começa o percurso pedestre, que se for feito por inteiro leva o visitante pelas aldeias de São Joanico, Serapicos e Angueira, sempre com o rio por perto, ao longo de 22 quilómetros (não há que temer, o grau de dificuldade é fácil). Descobre-se o esplendor do verde do bosque, vêem-se pontes medievais e moinhos de água, cheiram-se rosas-de-lobo e medronheiros, com sorte até se distinguem lontras e guarda-rios, corços e libélulas. Não há que enganar: estamos no recém-inaugurado PINTA – Parque Ibérico de Natureza, Turismo e Aventura, um anfitrião por excelência da biodiversidade de um concelho que tem mais de 40% do território na Rede Natura 2000. E aqui Alfredo, Garbanzo e Aragão surgem como os mais charmosos e meigos mestres de cerimónia. Carolina Martins, uma das monitoras da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) que acompanha o percurso, vai-nos dando conta da suas manhas. O primeiro, nota-se à distância, é o mais enérgico, ao contrário do último, o maior, mas também o mais pacífico. Já o Garbanzo é o mais influenciável: ou imita o Alfredo ou copia o Aragão. Hoje está sereno, já sabemos o que escolheu. “Para mim, a melhor coisa dos burros é que, apesar de estarmos diariamente com eles, apesar de estarem habituados à presença humana, a personalidade deles mantém-se bem vincada”, diz a jovem de 27 anos, preparando-se para desfiar outras características do animal. A saber: pesam em média 300 quilos, mas o ideal é que suportem até um terço do próprio peso; não gostam de água, banho é só mesmo quando tem de ser; vêem mal para baixo, tampas de saneamento ou passadeiras fazem-lhes muita confusão. E sim, como ajuíza o ditado, são teimosos: se, por exemplo, encontram uma poça de água e não conseguem distinguir o fundo, dificilmente arriscam. “Se não quiser andar, senta-se ou anda para trás”, evidencia. “A teimosia é sinal de inteligência.”

Escrinhos até à Lua

Passear na companhia destes animais é uma das muitas coisas que se podem fazer no parque, onde a AEPGA dirige o Centro de Actividades Lúdico-Pedagógicas do Burro de Miranda (aos três peregrinos juntam-se ainda Ipiranga e Hortelão, que tanto podem ser companheiros de caminhada, como protagonistas de sessões terapêuticas e didácticas). Mas a oferta do PINTA não se fica por aqui. Quem quiser, pode sair para o terreno para caçar, identificar (e devolver) borboletas, fazer um piquenique num lameiro com um cesto recheado de produtos regionais, vinho e até uma manta ou, quem sabe, aprender tradições. E que tal começar a fazer escrinhos?

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Um escrinho

Desta feita, encontramos Rosa e Aníbal Delgado com uma pequena plateia de aprendizes de olhos pregados nas mãos dela. Daquela trabalhosa dança a dez dedos está sair aos poucos um cesto. Estamos a ver nascer um escrinho. Feitos com palha de centeio e casca de silva, estes cestos únicos, originais da aldeia de Vilar Seco, eram utilizados no passado para guardar cereais, sementes, farinha. Com o tempo, o saber foi-se perdendo, até que, há 12 anos, Aníbal candidatou-se à junta de freguesia da sua terra, determinado em não deixar a arte morrer. “Quase fiquei pela promessa”, confessa. Promoveram-se cursos, poucos quiseram aprender; ficou a sua esposa, “talvez por teimosia” dele, que assim se fez artesã há cerca de seis anos, para “não deixar perder a tradição”. É a única formadora; mais sabem fazê-los, mas não “têm vagar”, produzem “só em casa”. “Isto é só uma brincadeira, só me dá prejuízo”, diz ele, alisando vigorosamente uma silva na perna com uma navalha. Por causa da artrite reumatóide, os dedos fogem-lhe, não pode fazê-la serpentear pela palha, deixa-o para Rosa.

“Dá muito trabalho, ninguém quer aprender”, admite a sexagenária, que, por sua vez, à custa do labor, já sofreu uma tendinite no ombro. Hoje, já não se fazem tanto os verdadeiros escrinhos, mas aplica-se a mesma técnica para peças mais pequenas, como fruteiras, cestas, até máscaras e crucifixos. “Olha”, graceja Aníbal, apontando para o aprendiz João Rodrigues, “este já te tira a profissão”. E é vê-lo, a princípio incerto, depois mais confiante, a embrenhar as mãos naquele rodopio de palha e silvas. Veterinário, de 35 anos, veio a esta oficina gratuita para “matar uma curiosidade antiga”. Durante oito anos, viveu em Vilar Seco, onde chegou a experimentar fazer um escrinho; treze anos depois, viu neste encontro uma nova oportunidade para voltar a tentar.

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Rosa Delgado ensina a fazer escrinhos

“Agora”, auspicia, “o próximo passo é criar peças de design, fazer coisas contemporâneas a partir da tradição, acompanhar os tempos”. Não ele, que não tem tempo. Outros. Talvez assim, com outros cestos, Vilar Seco chegue finalmente ao espaço. Conta Aníbal que reza a lenda que os habitantes, conhecidos como escrinheiros, tentaram chegar à Lua (ou a um queijo?) antes dos americanos, amontoando escrinhos numa torre até ao céu. Quando lhes faltava apenas um para atingir a meta, aperceberam-se de que não havia mais. Até que o cabo de polícia, “homem de muita sabedoria”, teve uma “ideia genial”: retirar-se-ia um escrinho da base, colocar-se-ia no cimo. Dito e feito, ruína (e risada) geral.

“Ficaram a seco: nem queijo, nem Lua.”

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Vencer o isolamento

Depois de um processo de dez anos, o PINTA foi finalmente inaugurado em Maio e é como uma “jóia da coroa” de Vimioso. Não é fácil ser um concelho do interior (“mas como se pode falar de interior num país que dista 200 quilómetros de largura?”, questiona, retórico, o presidente da câmara Jorge Fidalgo). As debilidades são várias. Pertencente ao distrito de Bragança, é um município essencialmente rural e isolado. “Chegar cá é o maior problema”, lamenta o autarca, que aguarda com expectativa a luz verde para a ansiada estrada de ligação à A4, que vai para Bragança. O ensino secundário não existe, o que obriga as famílias a sair, e outros serviços públicos foram deslocados. Nos últimos anos, a autarquia tem assim apostado em três grandes frentes. Por um lado, tenta promover a qualidade de vida dos residentes: entre outras coisas, há incentivos à natalidade, infantários gratuitos, aulas de karaté, danças de salão e zumba para toda a população grátis e um programa de aquisição de terrenos a um cêntimo o metro quadrado com moradias com projecto aprovado para fixar jovens casais — em 30 lotes, apenas um não está ocupado. Por outro lado, tenta atrair o investimento, também através da venda de terrenos a um cêntimo na zona industrial — a unidade de transformação da carne mirandesa, por exemplo, está aqui. “A ideia é fixar, fixar os jovens e, se possível, poder atrair algum investimento para criar postos de trabalho”, explica o autarca, natural da aldeia de Algoso.

O turismo surge como a derradeira cabeça da tríade, o que motivou a criação da marca Vales de Vimioso, cuja menina dos olhos é o PINTA. E que vales são estes? Os dos rios Maçãs, Sabor e também o Angueira, que ziguezagueiam pelo território de 482 quilómetros quadrados. Aqueles que se adivinham, bucólicos, do topo do Castelo de Algoso, construído algures no século XII numa posição privilegiada para vigiar Leão. Mal se percebe onde começa a montanha e acaba a fortaleza, rodeada de águias e abutres. “Portugal”, repete Jorge Fidalgo, “nasceu por aqui”. É um dos ex-líbris do património do concelho e, também, do coração dos locais: muitos, dizem-nos, namoraram entre estas ruínas, outros colhiam cravos selvagens. Aconselha-se é precaução na subida, sobretudo a quem sofrer de vertigens.

Depois de uma vista de cortar a respiração, que tal mudar de ares? Ter a cabeça em água, até à última gota? As Termas do Vimioso estão cá para nos tratarem da saúde. Responsabilidade das águas sulfurosas da Terronha, localizadas junto à margem direita do rio Angueira, cujas propriedades terapêuticas a nível de doenças respiratórias, reumáticas e músculo-esqueléticas são reconhecidas (falta concluir o estudo dermatológico). “Esta água”, conta o responsável Francisco Brucó, “tem três mil anos”. A época termal dura de 1 de Maio a 30 de Novembro, mas a área de bem-estar está aberta todo o ano. “Queremos ser as termas de referência de Trás-os-Montes”, ambiciona o ex-comandante dos bombeiros. “Mas não queremos torná-las VIP. Queremos que sirvam as pessoas da terra e também para vem quem do Porto e Lisboa e tem a cabeça do tamanho de um melão com tanto stress.” Nada que um duche massagem tipo Vichy e umas boas massagens não resolvam.

O tecido de Vimioso também se faz de pequenas associações de jovens que se têm estabelecido no concelho. Entidades que, na opinião de Jorge Fidalgo, têm “feito um trabalho extraordinário na atracção de turistas e na divulgação do que de melhor o concelho tem em termos ambientais e paisagísticos”. “Acarinhámo-las muito, dando-lhes as condições para trabalharem aqui”, conclui o autarca. A AEPGA é uma delas, mas não está sozinha. A Palombar está por perto, instalou o seu Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais na antiga escola primária de Uva — é nesta aldeia, aliás, que tem início um percurso pedestre até ao Castelo de Algoso (há ainda no concelho um terceiro trilho que percorre as ladeiras do rio Sabor).

Palombar significa pombal, em mirandês. O que já dá uma pista para a missão desta associação, criada há 18 anos: conservar o património rural e construído, nomeadamente os pombais tradicionais, estruturas que se dedica a recuperar e revitalizar. Ali, na aldeia, a paisagem denuncia a sua passagem. Há pequenas manchas brancas com telhado em forma de ferradura a pintar as encostas um pouco por todo o lado e, por vezes, em contraste, um ou outro edifício semelhante em ruínas. Até agora, já foram reabilitados 37 pombais em Uva, devem faltar ainda uns dez. Mas “não é fácil”, explica Américo Guedes. Quase todos são privados, é preciso haver um acordo com o proprietário, sendo que a associação só recupera e explora os pombais. E começa a ser cada vez mais difícil encontrar quem trabalhe a pedra de forma tradicional.

Ainda que a sua actividade seja cada vez mais alargada, a Palombar actua sobretudo no Nordeste Transmontano, onde, estima, existem três mil pombais; 500 já terão sido recuperados. Porquê fazê-lo? Porque são uma “forma de conservação da natureza”, já que atraem espécies que se alimentam de pombos, como a águia-de-Bonelli, ameaçada em Portugal, ou a coruja-das-torres. Porque constituem um “património arquitectónico e cultural” riquíssimo. Os pombais surgiram, no passado, para ajudar na alimentação (os “borrachos” sempre eram uma proteína extra em comunidades marcadamente pobres) e na fertilização dos campos (o “pombinho”, o estrume das aves, servia de adubo). A sua preservação ajuda assim a contar a história.

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A Associação Aldeia fez um levantamento de toda a etnobotânica da região

Divulgar o património também é o que move a associação Aldeia, sediada em Vimioso, mas com um Centro de Educação, Interpretação e Formação Ambiental na antiga escola primária de Vila Chã da Ribeira que agora visitamos. Aldeia é, na verdade, um acrónimo para Acção, Liberdade, Desenvolvimento, Educação, Investigação e Ambiente, e é isso que eles gostam de fazer. Apresenta o presidente João Nunes: “É um grupo de amigos que desenvolve actividades para promover conhecimentos e tradições.” Sejam saídas de campo para ver borboletas, como para acompanhar pastores. Sejam workshops de cogumelos e plantas comestíveis ou acções de sensibilização sobre a relação entre as pessoas e o lobo. “É uma nova perspectiva de viver as tradições no século XX”, diz o responsável pela associação, criada há 15 anos. Um dos últimos grandes projectos foi, por exemplo, um levantamento de toda a etnobotânica da Terra Fria Transmontana, bem como dos seus processos tradicionais. O resultado está num livro e nas várias peças, e sementes, que se apresentam pela sala.

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Sopa da segada

E, claro, Vimioso, como orgulhoso município transmontano, é sinónimo de boa comida. Já o dissemos: a carne mirandesa sai daqui, por isso experimentar a típica posta é quase obrigatório, bem como tomar o gosto do cordeiro e, claro, de 1001 fumeiros. Edite Domingues nasceu com mão para a cozinha. Aprendeu a cozinhar como outras tantas netas: a olhar para a avó. “Mal acordava, a primeira coisa que fazia era aquecer o pote”, diz a mirandesa, a viver em Vimioso desde que se casou. Hoje, o galo feito naquele pesado pote de ferro continua a ser um dos seus pratos preferidos — sabe-lhe à avó. Outras iguarias saem-lhe das mãos com o mesmo conforto familiar: a robusta sopa da segada (com calda de fumeiro, orelha, pernil, chouriço, pão, massa e grão-de-bico), os rojões, os cogumelos frescos, os peixes de rio.

Não é o que costuma servir no café-pizzaria Pires, o estabelecimento que explora no centro da vila. Mas por lá tente experimentar o pastel de amêndoa, um segredo de família guardado a sete chaves pelo menos desde 1918, e que agora começa a dar os primeiros passos fora do livro de receitas. Já agora, uma curiosidade. Ali ao lado está a majestosa Igreja Matriz de Vimioso, construída em finais do século XVI, inícios do século XVII por iniciativa de uma família abastada local que a financiou com uma condição: tinham de conseguir assistir à missa sem saírem de casa, da varanda. Assim foi. A igreja foi feita com um sui generis declive, com a porta voltada para o solar dos mecenas, até hoje.

Para terminar, fica ainda um aviso. Não espere que, em todas estas andanças, lhe perguntem o nome quando der de caras com uma porta. Manias de bom, e hospitaleiro, anfitrião. “Aqui”, assegura Jorge Fidalgo, “quando se bate à porta não se pergunta quem é. Diz-se logo entre!”. Faça o teste.

A Fugas viajou a convite do projecto Vales de Vimioso