Opinião

Ainda sobre José Manuel Tengarrinha

É dos contributos de vários pontos de vista sobre os acontecimentos que se obtém uma visão mais aproximada do que se passou.

O desaparecimento recente de José Manuel Tengarrinha vem mais uma vez realçar que as obras de certos vultos da academia em Portugal, que tiveram também passagem pela política em sectores progressistas, tendem a ser esquecidas em detrimento das de outros que, embora banais e repetitivas, estiveram do lado mais conservador e até reacionário da política em momentos cruciais da nossa história. A edição em 2013 da monumental Nova História da Imprensa Portuguesa de José Tengarrinha é uma prova disso. São mil páginas sobre a imprensa portuguesa desde as origens, que remontam à criação dos caracteres por Gutenberg no século XV, passando pelas “folhas informativas” durante o movimento da Restauração portuguesa de 1640, até à fundação do Diário de Notícias em 1865, que marca o começo da industrialização da imprensa em Portugal. São páginas que constituem também, necessariamente, um estudo detalhado da história política portuguesa do século XIX. De que falou Luís Reis Torgal no seu artigo de homenagem de 5 de Julho passado neste jornal. Deste modo, aproveito para acrescentar algo mais sobre o MDP/CDE, de que Tengarrinha foi um dos principais dinamizadores depois do 25 de Abril. Porque é dos contributos de vários pontos de vista sobre os acontecimentos que se obtém uma visão mais aproximada do que se passou.

Em dois artigos recentes falei da minha experiência no PREC e da “campanha eleitoral” para a Assembleia Nacional do Estado Novo em Outubro de 1973. Não vivi a “Primavera Marcelista”, pois encontrava-me numa comissão militar em Moçambique que durou de Maio de 1968 a Setembro de 1970. Durante esses dois anos e quatro meses não vim a Portugal. Não conheci portanto a CEUD, que ao lado da CDE concorreu às eleições da Assembleia Nacional em 1969. Ao que julgo saber, no que terá sido o primeiro acto eleitoral em que a Oposição Democrática apareceu distribuída em dois agrupamentos políticos. Mas em Outubro de 1973 seria somente a CDE que se apresentaria às eleições, incluindo comunistas, socialistas, monárquicos, católicos progressistas e democratas independentes.

Lembro-me que os socialistas Arons de Carvalho e Pedro Coelho, este já desaparecido, participaram na campanha. Na altura, o jornal República foi o que seguiu mais directamente os acontecimentos, na medida em que a Censura Prévia do regime deixava publicar algo mais durante esse mês de “campanha eleitoral”. Foi assim que foi dado conhecimento, com fotografias a comprovar, que em muitos pontos do país em que a CDE se apresentava, um graduado da PSP ou do exército, geralmente um capitão, também se encontrava no palco e quando os oradores discursavam desligava a instalação sonora assim que se começava a falar da guerra do ultramar, como era designada na altura.

Ora, tendo eu ido viver para a Costa de Caparica poucos meses depois de chegar de Moçambique em finais de 1970, participei nos comícios de Almada – Incrível Almadense e Academia (antigas instalações) –, Cova da Piedade – SFUAP –, tudo associações centenárias, e Barreiro, num antigo teatro que hoje se encontra desactivado. Foi na Incrível que se ouviu pela primeira vez o disco do Avante Camarada, cantado pela bela voz da Luísa Basto, e na SFUAP apareceu quase no final do comício José Afonso, a quem muitos pediram para cantar como se se tratasse de um recital. Mas ele, na sua conhecida modéstia, só aceitou cantar o Grândola, Vila Morena em conjunto com o público.

Nestes comícios não se viu qualquer autoridade no palco e falou-se livremente da guerra do ultramar, tendo alguns oradores salientado que o MPLA, o PAIGC e a Frelimo eram aliados do povo português na sua luta contra o regime colonial-fascista. A sede da CDE em Almada funcionava numa garagem junto a um dos primeiros supermercados Pão-de-Açúcar que abriu em Portugal, no Centro-Sul. E só foi fechada em Fevereiro de 1974. Poucas semanas depois do 25 de Abril abriu na Costa de Caparica uma sede do MDP/CDE, na qual comecei a passar e a participar no que se chamava de “sessões de esclarecimento”. Em que se falava nos primórdios da Oposição Democrática, no MUD e MUNAF, que tinham surgido depois do derrube do nazi-fascismo, no final da Segunda Guerra Mundial, e originado o MDP/CDE.

Na Costa, com apenas cinco mil habitantes fora da época de Verão, havia uma miséria extrema, numa população maioritariamente de pescadores, mas também de camponeses das chamadas Terras da Costa. Os salários eram miseráveis e as famílias numerosas. Muitas viviam em barracas, como na Fonte da Telha, onde não havia electricidade nem saneamento, e onde fomos uma vez falar com os pescadores à luz do petromax. Foi ali também que na noite de 11 de Março de 1975, no ainda em curso golpe do general Spínola, vimos estacionada uma esquadra da NATO, tendo-nos apressado a comunicar a “descoberta” à Base Naval do Alfeite, de onde nos disseram que já sabiam.

Antes, no rescaldo do 28 de Setembro de 1974, fizemos uma sessão de esclarecimento no INATEL, em S. António da Caparica, onde estavam alojados vários refugiados políticos das ditaduras da América Latina, Chile, Brasil, Argentina, Uruguai. Que foram muito críticos pela maneira como se tinha respondido ao golpe do 28 de Setembro, nomeadamente nas barricadas onde muitos militantes desarmados vistoriavam viaturas com indivíduos armados que vinham participar na manifestação em favor de Spínola.

É um pouco depois destes acontecimentos, em Dezembro de 1974, que se dá o Congresso do MDP/CDE de que Reis Torgal fala e em que não participou, segundo afirma. Mas eu participei. E porque se dá o Congresso? O Movimento Democrático Português, depois do 25 de Abril, continuou aberto aos outros partidos e até constava que filiados no PPD participavam nele. Mas eu pessoalmente nunca vi nenhum. O que se passou foi que o Partido Socialista no Governo Provisório fez pressão para que a lei eleitoral determinasse que apenas partidos, e não movimentos, pudessem participar nas eleições para a Assembleia Constituinte. Não que o MDP estivesse especialmente interessado em passar a partido. Ainda não há muito tempo, numa conferência em que encontrei o José Manuel Tengarrinha, falei com ele sobre isso.

O Congresso do MDP realizou-se no salão nobre do Instituto Superior Técnico e durou quase todo o dia. Havia mais de mil delegados de todos os pontos do país. E foram feitas dezenas de intervenções. O MDP, em muitos lugares, era a única força política existente, como por exemplo onde eu vivia. Por isso, seria um desperdício não se apresentar às eleições por não ser um partido. Razão para a sua metamorfose. O voto a favor no Congresso foi quase por unanimidade. Só houve um voto contra de alguém que estava muito perto de mim. José Manuel Tengarrinha apareceu depois da votação para vir tomar conta do partido. Nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, nalguns locais onde o MDP estava implantado, como na Caparica, os resultados foram uma decepção!