O Triângulo da Ciência em Portugal

O Estado deverá abrir os cordões à bolsa, nem que seja para estimular as empresas a contratar mais doutorados e realizar, assim, o sonho do ministro Manuel Heitor.

 “Nem me passa pela cabeça tentar persuadir um aluno meu para tirar um doutoramento hoje em dia!", diz o amigo Vítor, professor da Universidade de Lisboa, com ar indignado de quem está a defender o último reduto da ética do assalto da imoralidade. Este desabafo foi proferido num contexto em que foi, recentemente, notícia o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, no qual se alertava para o facto de a taxa de pessoas com doutoramento concluído em Portugal continuar baixa, quando comparada com a de outros países europeus. Ouvir o Vítor a falar do doutoramento como se de um embuste se tratasse poderia causar perplexidade. Mas o panorama científico português parece dar-lhe razão.

Atualmente em Portugal, e de forma simplificada, a investigação científica é desenvolvida à volta de um triângulo formado pelas universidades, os laboratórios (associados, do Estado, colaborativos e outros) e as empresas. As universidades são, ao mesmo tempo, instituições de ensino e investigação, acolhendo, para além dos seus docentes de carreira, alunos de doutoramento e investigadores doutorados, com vínculos notoriamente precários ligados às suas unidades de investigação e desenvolvimento (I&D). Os Laboratórios Associados são instituições (públicas ou privadas) de investigação científica fundamental e aplicada, que surgiram como extensão natural das unidades de I&D, de forma a permitir maior estabilidade orçamental e de recursos humanos, mais profissionalização da investigação, e melhor capacidade de resposta às empresas. Já os Laboratórios do Estado são, de uma forma geral, instituições criadas para a investigação mais aplicada, com o propósito de desenvolver e divulgar conhecimento de apoio às políticas do Governo e à prestação de serviços às empresas. Ainda em fase embrionária, de forma a aproximar as universidades das empresas, o Governo criou os Laboratórios Colaborativos, constituídos obrigatoriamente por, pelo menos, uma empresa e uma unidade de I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Temos, portanto, um autêntico Triângulo da Ciência, organizado com um conjunto de instituições desenhadas para criar, transferir e aplicar ciência, desde as universidades até às empresas.

O encanto geométrico desta construção desvanece, no entanto, à medida que a estudamos melhor. Longe de ser equilátero e oferecer, assim, uma área generosa para acolher os novos doutorados que as universidades formam em números cada vez mais altos, o Triângulo da Ciência em Portugal é disforme, estando o seu centro de massa muito próximo das universidades. Mesmo no auge da crise, em 2012, 67% dos doutores recém-formados, com suficiente sorte para não ficarem desempregados, permaneceram nas universidades (principalmente como bolseiros de pós-doutoramento), sendo que apenas 9% ingressaram nos laboratórios e 8% nas empresas. De notar que a taxa de inserção nas empresas era de apenas 3%, em 2003. Para comparação, nos Estados Unidos da América (EUA), em 2015, 45% dos doutorados trabalhavam nas universidades, 7% nos laboratórios e 40% nas empresas. A grande diferença reside, portanto, na impermeabilidade das empresas portuguesas a profissionais com doutoramento, sendo que levará, provavelmente, muitas décadas para chegarmos a níveis de empregabilidade remotamente comparáveis aos dos EUA.

Mas é apenas quando se olha para lá do horizonte das percentagens que a perspetiva do Vítor se confirma. O número de doutorados ativos em Portugal ronda os 51 mil, 17 mil dos quais são investigadores (na sua esmagadora maioria precários) e 34 mil são docentes. Considerando que a carreira profissional pós-doutoral dura entre 35 e 40 anos, resulta que a permeabilidade do Triângulo da Ciência a doutorados recém-formados fica bem abaixo de 1500 novos profissionais por ano. Finalmente, o horror vem do saber que as universidades formam anualmente o dobro deste número – 3000 novos doutorados!

O que se vai passar com a outra metade? O ministro Manuel Heitor diz que as empresas “têm de empregar mais e melhor”, de forma a valorizar o papel dos doutorados ao serviço da inovação tecnológica. Um discurso que reflete o louvável desejo de afastar o centro de massa do Triângulo da Ciência das universidades, mas que peca por utópico, como demonstra o débil aumento da capacidade de absorção das empresas entre 2003 e 2012. Portanto, na situação portuguesa, só pode ser o Estado, seja através das universidades, seja através dos laboratórios, a assumir a absorção dos doutorados que formou! E, para isso, o Estado deverá abrir os cordões à bolsa, nem que seja para estimular as empresas a contratar mais doutorados e realizar, assim, o sonho do ministro Manuel Heitor. Felizmente, há margem argumentativa para isso, pois o investimento de Portugal em I&D chega apenas a 62% da média da União Europeia (1,28% do PIB face a 2,05%).

Se não se comprometer com investimento adicional, o Estado tem o dever ético que o Vítor assumiu: reduzir o número de bolsas de doutoramento para metade, mesmo que isso ponha em causa os recordes de publicações dos quais tanto nos regozijamos, e suportar as consequências políticas do seu fracasso. Enganar os jovens cientistas, com promessas de uma carreira que nem chegará a começar, não pode ser opção!

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico