O “timoneiro da morte assistida” que sonhava com a saúde acessível a todos

As últimas batalhas de João Semedo resumiram o que defendeu toda a vida: um serviço de saúde acessível a todos, que respeitasse a autonomia de cada um. “Mais do que um garante do direito à saúde", o SNS que idealizada era "indispensável para a correcção de todas desigualdades".

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daniel rocha

À pergunta que há-de ter ouvido mais do que uma vez – se era um médico que faz política ou um político que exerce medicina – João Semedo respondeu ao PÚBLICO em 2016: “Sou médico de profissão e para mim a política nunca foi nem é uma profissão”. Muito pouco do que fez terá alguma vez sido alheio à saúde. Ajudou a fundar uma clínica e um sindicato, dirigiu um hospital. Na vida política, uniu vozes em defesa do acesso a “uma morte digna” e fincou esforços para “salvar” o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Com António Arnaut, travou aí uma das suas últimas lutas. Vencido só pelo cancro aos 67 anos.

“Não conheço nada que se tenha imposto ao mundo velho sem combate, luta, persistência. O velho reage sempre ao novo e o novo não tem outra alternativa se não batalhar”, disse no ano passado. Toda a vida o fez em defesa daquilo que acreditava serem os direitos dos utentes de um serviço público. Esteve na linha da frente, entre outros, da criação do testamento vital, do estatuto do dador de sangue, da prescrição de genéricos, da criação de limites aos tempos de espera – aquela que via como uma das mais importantes decisões legislativas.

As suas últimas batalhas resumiram o que defendeu toda a vida: um serviço de saúde acessível a todos, que respeitasse a autonomia de cada um. Em 2017, lançou-se com António Arnaut na defesa do regresso a um SNS gratuito, exclusivamente nas mãos do Estado. No livro “Salvar o SNS”, o histórico socialista e o antigo dirigente do Bloco clamavam pelo fim da “promiscuidade” entre o público e o privado reflectido numa nova lei de bases da Saúde. Lançaram o debate e, no ano em que ambos desapareceram, viram ser criada uma comissão para a rever.

“Esse livro é o maior legado que ele podia deixar”, acredita Júlio Machado Vaz. “Temos uma obrigação, que não nos pode escapar, de nos continuarmos a bater por esse Serviço Nacional de Saúde que ele sonhou”, diz o psiquiatra e amigo, com quem Semedo trabalhou no “velhinho Goelas de Pau”, o nome de fundação do Hospital Joaquim Urbano (integrado no Santo António desde 2016).

João Semedo esteve à frente desta unidade especializada em doenças pulmonares e infecciosas do Porto entre 2000 e 2006 – aqueles que terão sido os anos da sua vida profissional em que se sentiu mais realizado, disse na publicação esquerda.net. Esteve no cargo, que deixaria para ser deputado, “com peculiar empenho e sentido de responsabilidade”, recorda a Administração Regional de Saúde do Norte.

Antes disso, tinha aberto em 1994, com 24 outros médicos e através da sociedade Clissano, a Clínica Médica e Cirúrgica da Prelada, onde foi director clínico. Saiu para voltar ao hospital público.

Um SNS "construtor de coesão social"

Nos últimos meses, foi o “timoneiro do movimento pela morte assistida”, como o descreve o neurologista Bruno Maia, que Semedo chamou para assinar um dos depoimentos do livro Morrer com Dignidade A Decisão de Cada Um, lançado em Maio. “Pela primeira vez em Portugal discutiu-se a morte assistida com profundidade e quase se aprovou a eutanásia e isso deve-se muito à liderança de João Semedo”, afirma. O autor da proposta do Bloco não viu este “projecto democrático e humanista que não obriga ninguém, mas também não impede ninguém” ser aprovado no Parlamento. Mas acreditava ser “uma questão de tempo”.

O médico uniu consensos em diferentes esferas em torno desta causa. Saberia que a “luta não é cega e tem ouvidos bem grandes”, como sobre ele escreveu Daniel Oliveira, no Expresso.

Neste assunto, "como em todos, foi um lutador muito esclarecido e com atitudes de liderança indiscutíveis”, sublinha Francisco George, que privou com Semedo “desde as lutas estudantis durante os governos de Salazar e Caetano” até às “intensas conversas sobre o final de vida”. Por isso, o antigo Director-Geral da Saúde espera que “os seus princípios sejam defendidos por todos os que têm como certa a importância do Estado Social na perspectiva de desenvolvimento de Portugal”.

Maria Antónia Almeida Santos, deputada do PS e vice-presidente da Comissão de Saúde, via em João Semedo um exemplo praticamente único de um “homem que transferiu o que sabia de medicina para a política”. “Ele personificou o humanismo e podemos aprender com ele como isso é tão essencial em política como na saúde”, afirma.

O legado do médico e político não poderá ser dissociado da nova lei de bases da Saúde, garante quem lidera esta revisão, Maria de Belém Roseira. Pois há “uma concordância total e absoluta” quanto àquele que deve ser o papel do serviço público: “Mais do que um garante do direito à saúde, é um construtor de coesão social e é uma entidade indispensável para a correcção de todas desigualdades. Tal como o João o idealizava.”