Entrevista

“Não quero chegar a uma sombra do que fui, vegetar”

O psiquiatra Júlio Machado Vaz garante que não tem medo de morrer, mas sim de “estragar” o fim da sua vida. Defensor da despenalização da eutanásia, o médico diz que o que o assusta é a ideia de "sobreviver" a si próprio.

Móveis, sentado
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FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Há quase 80 anos, o médico de Freud cumpriu o que lhe prometera muitos anos antes, antes de o pai da psicanálise descobrir que sofria de cancro. Deu-lhe morfina e ele "adormeceu calmamente", deu-lhe nova dose de noite e ele não voltou a acordar, recorda Júlio Machado Vaz, que assina um dos depoimentos do livro Morrer com Dignidade A Decisão de Cada Um, que esta quarta-feira é lançado em Lisboa. O psiquiatra que deu aulas de Antropologia Médica explica que o que o assusta é a ideia de sobreviver a si mesmo, de estar vivo mas não ter uma vida. Aos que alegam que primeiro é preciso cobrir o país com uma boa rede de cuidados paliativos, retorque que a eutanásia e os cuidados paliativos são dois trajectos que não se excluem. "A morte é o fim da vida, quero-a tão digna como tentei viver a [vida] que a ela conduziu. Estas questões não podem ser resolvidas pelos cuidados paliativos", diz.

Recentemente, num encontro sobre morte assistida, recordou que Freud foi eutanasiado. Foi mesmo assim?
Freud tinha um cancro no palato e foi sujeito a várias intervenções cirúrgicas ao longo de 14 anos. Inicialmente a gravidade da situação foi-lhe escondida, o que levou ao fim da relação profissional com o seu médico, Felix Deutsch. Na primeira conversa com Max Schur, que o seguiria até ao fim da vida, perguntou: “Se e quando achar que o meu sofrimento não faz sentido, ajuda-me a pôr-lhe fim?”. Max Schur respondeu que sim, como conta no livro que escreveu anos depois [La Mort dans la Vie de Freud]. Perto do fim, em 1939, Freud notou que, para além das dores, algo para ele mais insuportável surgira: a dificuldade em praticar a psicanálise, a sua lucidez esvaía-se. Chamou Schur e disse-lhe: “Lembra-se da conversa que tivemos? Vai cumprir o prometido?” E Schur respondeu que sim. Freud não resistiu a uma pequena manipulação e pediu-lhe para informar Anna, sua filha, que respeitou a decisão. Schur deu-lhe uma injecção e ele adormeceu calmamente. Administrou uma nova dose mais tarde e Freud já não voltou a acordar.

Os médicos que são contra a eutanásia alegam que uma coisa é a sedação, cuja intenção é aliviar as dores, outra coisa a eutanásia.  É uma questão de intenção?
Mas eu não tenho nada contra isso. No caso de Freud, a intenção de Schur foi cumprir o prometido, Freud não lhe pedira para lidar com a dor física, mas para terminar uma vida que para ele já não fazia sentido. Minha mãe, no fim, foi sedada e jamais pagarei essa dívida para com os meus colegas do São João; adormeceu. Morreu em paz. Meu pai não teve tanta sorte, o que me marcou, mas sobre isso não desejo falar. Se alguém precisava de cuidados paliativos era ele…

A situação agora é diferente, temos cuidados paliativos, apesar de a cobertura do país ser ainda muito insuficiente. Mas poucas pessoas falam sobre a morte hoje, tornou-se um tabu.
É uma questão cultural: a morte mudou completamente. Antigamente, sob muitos aspectos, era considerada parte da vida. Ariès [Phillippe Ariés, Sobre a História da Morte no Ocidente] escreve que, quando se aproximava a morte, era frequente que se abrisse a porta de casa para quem quisesse se ir despedir, muitas pessoas morriam rodeadas por familiares, amigos, criados, animais de estimação. Hoje, em termos narcísicos, para a Medicina a morte é vista como uma derrota, o que leva, sobretudo no caso dos mais novos, à armadilha do encarniçamento terapêutico, mesmo sem intenção. Também passei por algo do género: há 40 anos, quando vim da Suíça, fazia urgências à peça e uma vez no hospital de Gaia o meu chefe de equipa teve a gentileza de me pôr a mão no ombro e dizer: “Júlio, vamos tomar um café”. Eu estava a fazer massagem cardíaca a alguém e não conseguia parar, na esperança já utópica de a reanimar. É preciso admitir as nossas limitações, saber quando aceitar os factos e não nos sentirmos “derrotados” pela morte no corpo de outra pessoa.

Mas as pessoas que estão do lado oposto ao seu argumentam que a prioridade é cobrir o país com uma rede de cuidados paliativos. Não concorda?
Se estivéssemos numa situação em que, ou se legislava sobre cuidados paliativos para dar uma cobertura decente a este país, ou se legislava sobre eutanásia, eu não demorava dez segundos a responder: primeiro, cuidados paliativos. Acontece que os dois trajectos não se excluem. Tenho um filho psicólogo a trabalhar em cuidados paliativos e sei bem que não só não temos a cobertura de que precisamos como os profissionais estão sobrecarregadíssimos. Mas sejamos claros: diz-se que, se tivermos uma boa cobertura de cuidados paliativos, ninguém pedirá uma morte medicamente assistida. Não é verdade, as razões invocadas não são do domínio dos cuidados paliativos: dignidade, controlo sobre o próprio futuro, etc… Sabemos, por exemplo, que há pessoas com autorização para desencadear o processo – lembro-me de um artigo sobre um dos Estados norte-americanos – e que o não chegam a fazer. Mas declaram-se pacificadas pelo sentimento de controlo sobre a sua vida. 

Mas os que são contra falam em "rampa deslizante" e dão o exemplo da Holanda e da Bélgica, onde há cada vez mais casos de eutanásia e alguns têm sido questionados.
Há coisas que me preocupam. [Foi noticiado no início deste ano na Bélgica o caso de uma mulher com demência e com doença de Parkinson em que não terá havido consentimento expresso, e o médico alegou que foi uma sedação terminal]. Isto é completamente inaceitável e  prejudicial para quem defende a eutanásia. Avançou-se um argumento terrível: se o médico não tivesse reportado o facto, ninguém tinha sabido. O controlo tem de ser “feroz” e prévio, as devidas punições não devolvem a vida a ninguém. Mas também não nos vamos iludir. Com o aborto passou-se a mesma coisa: era feito, mas não se sabia. Na eutanásia, também há pessoas que pedem, o médico ajuda e ninguém sabe. Com bons cuidados paliativos temos pelo menos uma certeza: ninguém vai pedir ajuda para morrer por sofrimento físico, a Medicina avançou muito. Diferentes são as questões que têm a ver com o conceito, necessariamente subjectivo, de uma vida digna. Num depoimento que fiz recentemente, disse: “Não me apetece mesmo nada sobreviver a mim próprio”.  Por que não posso ter o direito e a possibilidade de controlar como e quando termino a minha vida? A morte é o fim da vida, quero-a tão digna como tentei viver a que a ela conduziu. Estas questões não podem ser resolvidas pelos cuidados paliativos. Por exemplo, em caso de demência, se no dia em que deixar de reconhecer os meus filhos achar que estou vivo, mas já não tenho uma vida como a entendo, que não sou eu, alguém me poderá querer mal? Discordar sim, decidir por mim acho arrogante.

Mas os projectos de lei que vão ser discutidos no Parlamento na próxima semana não prevêem esses casos…
Eu sei, mas a mim não me chocaria aceitar a declaração de uma pessoa que, em absoluta lucidez, estabeleceu uma fronteira. Mas tem razão, não está em cima da mesa.

Tem dito que a sua posição foi influenciada pela forma como os seus pais morreram. O que aconteceu?
Minha mãe pediu-me para a ajudar a morrer, ainda consciente, tinha eu 60 anos. Foi a única coisa que lhe recusei numa vida inteira. E tenho a certeza que, se houver qualquer algo depois da vida, ela me puxará as orelhas. E depois perdoará. Gostava de acreditar nisso, sou um agnóstico ambicioso, é o que é!

Como imagina que será a sua morte?
Eu não quereria que os meus filhos passassem pelo que passei, sofrendo eu de Alzheimer. Mas não tenho uma resposta a preto e branco. Suponhamos que me era diagnosticado Alzheimer e dizia: “Quando chegar a tal ponto não continuo, não quero ser uma sombra do que fui; vegetar”. E se eles discordassem? Quem me garante que não cederia pelo amor que lhes tenho? Não aceito é que me digam, como já fizeram num debate: “mas a sua vida tem valor para a sociedade”. Sim, toda a vida merece respeito e solidariedade, mas sem esquecer a vontade do próprio.

Há pessoas que dizem que isto não passa de um tema modernaço.
Então e Freud? E os romanos e os gregos? A morte, e o modo de morrer, são temas que sempre nos acompanharam.

Acha que os médicos têm que ficar de fora desta equação, como muitos colegas seus reclamam?
Fomos formados para curar, para a doença aguda, mas cada vez há mais pessoas que têm, sobretudo, de ser cuidadas. Classicamente, os médicos não são formados para cuidar. E, no entanto, os médicos de família – e os outros – estão soterrados por casos de pessoas sofrendo de doenças crónicas. Por que passámos a falar de Medicina centrada no doente? E escrevemos livros e artigos sobre a mudança de paradigma? A Medicina tem sido demasiado centrada no médico e não no doente. A última alteração do Juramento de Hipócrates sublinha, aliás, a importância fundamental da maior autonomia do doente e da sua participação no processo terapêutico.

Em Portugal, se a despenalização da morte assistida for aprovada, haverá muitas pessoas a pedir ajuda para morrer?
Não, os pedidos serão excepcionais. Sabe o que preferia para mim? Que um colega me explicasse tudo e eu tomasse uma decisão. Se fosse a de partir, decidiria como me despedir das pessoas amadas e depois iria, não à minha vida, mas ao seu fim, à minha morte. Desejavelmente em paz. A morte assistida é o último degrau da autonomia do doente, respeitando religiosamente o direito à objecção de consciência, como é óbvio.

Também já disse que não acredita que os projectos de lei para a despenalização da morte assistida passem no Parlamento. Por que se envolveu então neste combate, se antecipa que o vai perder?
Por um dever de consciência, desconfio que perdi mais votações do que ganhei ao longo da vida. Pouco importa, preciso de poder olhar o espelho. Assumi uma posição num tema que diz respeito a todos. E perante o qual venho observando uma diferença no discurso das pessoas – não falam do medo da morte, mas do receio do trajecto final que a ela conduz. Também eu estava convencido, quando era novo, que tinha medo de morrer. Não é isso. Tenho medo de “estragar” o fim da minha vida.

Não tem mesmo medo de morrer?
Nenhum. Mas se fosse amanhã, teria pena, continuo a gostar muito de viver.