ONG propõe resposta ibérica contra incêndios que todos os anos assolam a península

Delegações portuguesa e espanhola da World Wildlife Fund pedem uma resposta ibérica à “nova geração de incêndios”. E alertam: “Ou gerimos as florestas e o território, ou enfrentaremos grandes incêndios com sérias consequências ambientais, sociais e económicas”.

Larch, florestas de abetos
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Paulo Pimenta

O fatídico repete-se. Ano após ano o centro e norte de Portugal, Galiza, Astúrias, Zamora, Cantábria e Leão ardem. Foi assim em 1991, 1995, 1998, 2000, 2003, 2005, 2006, 2012, 2015. Novidade foi 2017 em que os grandes incêndios aconteceram fora da época considerada de alto risco. Foram “explosivos e extremos”, tiraram a vida a 120 pessoas (116 em Portugal, 4 em Espanha) e feriram centenas. Sabendo que o noroeste ibérico arde todos os anos e de forma cada vez mais perigosa, as delegações ibéricas da Organização Não-Governamental (ONG) World Wildlife Fund (WWF) propõem um plano de acção coordenado entre Espanha e Portugal para resolver as causas estruturais do território.

O porquê disto acontecer é a pergunta de partida da proposta de estratégia ibérica para a prevenção de incêndios da WWF Espanha e da Associação Natureza Portugal/WWF Portugal, apresentada nesta quinta-feira, em Lisboa. Seguiram-se outras: porque ocorre, de tempos a tempos, a tempestade de fogo perfeita? Porque têm os incêndios rurais um impacto cada vez maior na população? A resposta é a confirmação de uma anunciada “nova geração de incêndios”, fruto das alterações climáticas que acentuam os riscos das regiões já de si cocktails perfeitos para a existência de grandes fogos.

O diagnóstico está feito: “Os efeitos cumulativos do aquecimento global, o despovoamento rural e abandono dos usos da terra, a falta de gestão florestal, o modelo de planeamento urbano caótico e uma cultura de fogo errada e profundamente enraizada” são particularmente relevantes nesta faixa noroeste. E os resultados estão à vista: num ranking dos 100 municípios espanhóis com mais incêndios, 94 estão localizados na Galiza e nas Astúrias; em Portugal, no ano passado, “dos 16.981 pedidos de auxílio registados até 31 de Outubro, 94% ocorreram a norte do Tejo”, diz o relatório O barril de pólvora do noroeste, no qual a WWF apresenta a proposta.

O que acontece é que ano após ano os incêndios nesta faixa de território demonstram como o risco é colectivo. Ainda assim “cada pessoa continua a decidir individualmente o que faz em sua parcela”. Por isso, a WWF propõe que os dois países articulem um planeamento conjunto da paisagem onde existam espaços demarcados para uso florestal, agrícola e silvopastoris e “que garanta a rentabilidade a todos os proprietários”. Não excluindo que as queimadas circunscritas podem ser uma ferramenta útil para o fazer.

Fundamental é também conhecer as áreas de alto risco. Identificá-las, caracterizá-las, mapeá-las com critérios comuns nos dois lados da fronteira. Esse conhecimento deve detalhar "onde há plantações florestais, fundamentalmente as de eucalipto e pinho, em que estado estão, o seu uso, gestão e cargas de combustível, bem como quem os possui", identifica o relatório. Sabendo isto, as "administrações galega e portuguesa devem intervir nos repovoamentos abandonados" e delimitar as áreas destinadas ao cultivo intensivo de pinho e eucalipto.

Este é um dos pontos onde a WWF desfaz um mito: o de que a "culpa é do eucalipto". Garante que a inflamabilidade de uma massa florestal não depende da espécie, mas da forma como é ou não gerida. Isto é, "uma plantação de eucaliptos [ou pinheiros] em produção não é tão inflamável quanto uma plantação abandonada". Por isso, há que acusar a ausência de políticas para um planeamento paisagístico coerente, que faz com que na Galiza, por exemplo, o abandono das plantações de eucalipto ronde os 40%.

Agrupamento e formação de proprietários

Esta estratégia ibérica deve promover ainda um programa de incentivo às plantação de folhosas (castanheiros, carvalhos, nogueiras ou cerejeiras), criar políticas eficazes de desenvolvimento rural, oferecer alternativas ao uso indiscriminado do fogo na agricultura e estimular o agrupamento de proprietários e a sua formação técnica. Neste ponto o relatório nota que a criação de Zonas de Intervenção Florestal em Portugal “visou responder a este desafio, mas o seu funcionamento tem estado longe do ideal”.

Não vendo necessidade de endurecer as penas para incendiários, a WWF pede o aumento da investigação e efectiva aplicação das sanções e sentenças para acabar com a "sensação de impunidade actual". Hoje, segundo dados da organização não-governamental, apenas 9% dos responsáveis por incêndios em Espanha são identificados e uma percentagem muito pequena condenada. Em 2016, em Portugal, apenas meia centena cumpria pena.

Já aos moradores cabe “assumir a responsabilidade que acarreta viver na floresta”, ter planos de autoprotecção e saber como agir em caso de incêndio. “A experiência demonstra que a improvisação piora a situação e traz mais perigos”, alerta a WWF.

As alterações no clima não só desfizeram aquilo que era conhecido como a época de incêndios – o que ficou evidente no ano passado quando 50% dos grandes incêndios aconteceram em Outubro e cerca de 10% em Abril – como mudaram o comportamento do fogo. “A combinação de ondas de calor de longa duração, seca acumulada, baixa humidade do ar e ventos muito fortes, juntamente com grandes quantidades de biomassa acumulada geram incêndios catastróficos”, diz o relatório. Perante isto, os modelos actualmente usados para prever o comportamento do fogo terão que ser actualizados, destaca.

Então se o clima do futuro está assim previsto, “é urgente adaptarmo-nos a ele”, dizem as delegações ibéricas da WWF. “Ou gerimos as florestas e o território, ou enfrentaremos grandes incêndios com sérias consequências ambientais, sociais e económicas”, avisam.