Portugal é um país "exemplar" na luta contra o VIH

Na Europa, 58% dos doentes identificados com a doença não estão em tratamento. Secretário de Estado fala em "dia histórico" na luta contra o VIH.

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"Portugal tem feito um percurso exemplar na prevenção, detecção, tratamento e cuidados dos doentes com VIH", afirmou Masoud Dara, da OMS Guilherme Marques

Portugal está entre o restrito grupo de países europeus com mais pessoas com VIH diagnosticadas e com mais doentes em tratamento que deixaram de transmitir a infecção, revelou nesta quinta-feira um responsável da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em entrevista à agência Lusa, o coordenador do Programa de Doenças Transmissíveis da OMS, Masoud Dara, saudou a evolução registada nos últimos anos no combate à sida. "Portugal tem feito um percurso exemplar na prevenção, detecção, tratamento e cuidados dos doentes com VIH", afirmou Masoud Dara, sublinhando que o país atingiu praticamente todos os objectivos estabelecidos no programa das Nações Unidas para o VIH/sida - ONUSIDA, conhecido como 90/90/90.

O programa pretende que, até 2020, 90% das pessoas com VIH/sida estejam diagnosticadas, que 90% dos diagnosticados estejam em tratamento e que 90% dos que estão em tratamento atinjam uma carga viral indetectável ao ponto de ser impossível transmitir a infecção.

Portugal já atingiu dois dos objectivos — a identificação das pessoas infectadas — e conseguiu que 90% dos doentes em tratamento atingissem uma carga muito indetectável, acrescentou, por seu turno, o secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo. "Exemplar" é o adjectivo escolhido por Masoud Dara, que coloca assim Portugal ao lado de países como a Dinamarca, a Islândia, a Suécia, a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, que já alcançaram a meta dos 90-90-90.

No entanto, a média dos 53 países europeus que participam no programa revelam uma situação preocupante: apenas 69% de doentes estão identificados, a maioria não está em tratamento (58%) e apenas 36% de doentes que estão em tratamento deixaram de ser uma ameaça na transmissão do vírus, segundo dados avançados à Lusa pelo responsável.

Masoud Dara aponta a situação vivida nos países da Europa de Leste como a principal razão para estas percentagens tão baixas, já que naquela região do globo a sida continua a ser um assunto tabu. "Em 2016, havia 160 mil novos infectados na Europa, dos quais 80% viviam em países de Leste", lamentou, explicando que naquela região o número de novos doentes continua a aumentar, em parte por falta de prevenção e limitado acesso a tratamentos. Resultado: No Leste, estão diagnosticados apenas 63% dos doentes, só um em cada quatro (28%) está em tratamento e 88% dos doentes em tratamento continuam a ser um perigo em termos de transmissão do vírus.

"Dia Histórico" na luta contra o VIH, diz secretário de Estado da Saúde

Face a ter alcançado dois dos três objectivos do programa das Nações Unidas 90-90-90, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, considera que se trata de um "dia histórico".

Portugal tinha até 2020 para conseguir atingir aqueles dois objectivos definidos pelo programa das Nações Unidas."Hoje é um dia histórico em que Portugal alcançou dois dos três" objectivos estabelecidos pela OMS, afirmou Fernando Araújo em entrevista à agência Lusa, a propósito da divulgação dos mais recentes dados sobre esta doença.

Com a identificação dos doentes, será mais fácil para os serviços de saúde conseguirem encaminhar as pessoas para os tratamentos, explicou. Ter 90% dos doentes diagnosticados em tratamento é precisamente o objectivo do programa que falta a Portugal, mas Fernando Araújo acredita que tal poderá acontecer ainda este ano.

É que os dados agora revelados dizem respeito a 2016, altura em que havia já 87% dos doentes diagnosticados e Fernando Araújo lembra que foi precisamente nesse ano que se começou a generalizar o uso da terapêutica anti-retroviral para todos os infectados. "A nossa expectativa é que, eventualmente, em 2017 ou em 2018 podemos vir seguramente a atingir este 90 e ser um dos países mais avançados nesta área", afirmou. Portugal surge como um caso de sucesso, até porque começou o programa com números assustadores: "Partimos com uma base desfavorável e temos vindo ao longo dos anos a construir respostas adequadas para atingir esses objectivos."

Nos finais dos anos 1980 e inícios dos anos 1990, Portugal era um dos países europeus onde surgiam mais novos casos de infecção, uma realidade que veio a diminuir ano após ano. Nos últimos anos, equipas do Ministério da Saúde fizeram uma recolha de dados a nível nacional, tendo voltado a notificar todos os casos para perceber o que se passava. No final, perceberam que muitos tinham morrido, outros estavam hospitalizados, outros tinham regressado, explicou o governante.