China tenta frente comum com a UE contra os EUA

Formar alianças parece difícil para a Europa, colocada entre a nova política proteccionista dos EUA e o seu principal adversário comercial dos últimos anos.

Austrália, Daigou
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Reuters/FABRIZIO BENSCH

Num cenário em que Donald Trump e os Estados Unidos lançaram uma onda proteccionista nos mercados internacionais, a China está a tentar junto da União Europeia encontrar um aliado na guerra comercial que se adivinha. A Europa, contudo, hesita, mostrando que ainda desconfia do país que mais motivos de queixa dava, num passado recente, pelas suas práticas comerciais.

De acordo com a agência Reuters, que apresenta como fonte da informação vários responsáveis políticos europeus, as autoridades chinesas estão, nos trabalhos de preparação da cimeira China-UE agendada para os dias 16 e 17 de Julho, a fazer esforços diplomáticos para que possa ficar definida uma aliança clara entre os dois blocos contra as medidas aplicadas e a aplicar pela administração norte-americana.

Pequim terá mesmo oferecido uma melhoria das condições comerciais aplicada à UE e procura que, por um lado, a China e a UE assinem um comunicado conjunto bastante agressivo contra os EUA e que, por outro lado, as acções a desencadear contra os EUA na Organização Mundial do Comércio sejam feitas em parceria.

Os responsáveis políticos da UE citados para Reuters, contudo, dizem que uma parceria deste tipo não foi aceite e que o máximo que irá sair da cimeira é a confirmação pelos dois blocos do seu compromisso com o sistema comercial multilateral.

A aparente recusa europeia em ter a China como aliada na guerra comercial com os EUA resulta do facto de, até à entrada em cena de Donald Trump, ser precisamente com a China que a UE mantinha os principais conflitos a nível comercial. Os governos europeus sempre fizeram à China críticas semelhantes às que agora são feitas por Trump, nomeadamente o facto de a China manter os seus mercados fechados ao comércio e investimento externo e de baixar artificialmente os preços de alguns dos seus produtos para conquistar quotas de mercado. Foi por causa das divergências em relação a estas questões que as cimeiras China-UE dos últimos dois anos acabaram sem um comunicado conjunto.

“Nós concordamos com quase todas as queixas que os EUA fazem contra a China, o problema é que não concordamos com a forma como os EUA estão a lidar com isso”, afirmou um dos responsáveis da UE citados pela Reuters.

Os líderes europeus tentaram, no momento em que Trump começou a passar à prática as políticas proteccionistas prometidas nas eleições, que os EUA se centrassem em medidas contra a China em aliança com a UE. No entanto, quando o presidente norte-americano decidiu avançar com o aumento de taxas também sobre o alumínio e o aço europeus, tornou-se claro que isso não seria possível.

Pelo contrário, aquilo a que se tem assistido nas últimas semanas é a um apontar de baterias à Europa por parte de Donald Trump, especialmente através de sucessivas ameaças de imposição de taxas mais elevadas às importações de automóveis provenientes da UE.

De qualquer modo, uma coisa parece cada vez mais certa: com várias medidas de subidas de taxas alfandegárias realizadas, agendadas ou ameaçadas em Washington, Bruxelas, Pequim e outras capitais mundiais para os próximos dias, a economia mundial prepara-se para entrar num cenário de guerra comercial de grandes dimensões.

Depois do aumento de taxas sobre o aço e o alumínio, os EUA vão concretizar a 6 de Julho a aplicação de medidas restritivas sobre vários produtos tecnológicos chineses e ameaçam agora a Europa com a subida de 5% para 20% das taxas alfandegárias sobre as importações de veículos automóveis. Em contrapartida, contra os produtos dos EUA, a China deverá na sexta-feira anunciar taxas sobre 34 mil milhões de dólares de importações dos EUA. A Europa deixou clara a ameaça de novas taxas sobre bens no valor de 290 milhões de dólares caso os EUA penalizem a sua indústria automóvel e o Canadá, na semana passada, agravou as taxas aplicadas em bens no valor de 126 mil milhões de dólares.