Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: Tutti Frutti

Se fosse uma operação de marketing, poderia ser vendida como “um novo conceito para uma nova mistura”: laranjas (PSD) e rosas (PS). “Militantes felizes”, plagiando o slogan de uma marca de leite dos Açores.

Não vamos falar de gelados nem de sumos, mas na verdade foi assim que conhecemos, lá atrás no tempo, a expressão italiana “tutti frutti”. Saborosa até. Significado: “Constituído por ou aromatizado com diversos frutos.” Não contávamos associar, tantos anos depois, a algo sujo e feio.

Título de quarta-feira: “Buscas ao PS e PSD por suspeitas de corrupção e tráfico de influência”. Ficou ali a saber-se que, “sob investigação, estão suspeitas de corrupção em ajustes directos das autarquias a militantes socialistas e sociais-democratas”. Noticiou-se ainda que a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa tinha realizado cerca de 70 buscas e que a operação era coordenada pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária e pelo Ministério Público, de seu nome Operação Tutti Frutti.

Se fosse uma operação de marketing, poderia ser vendida como “um novo conceito para uma nova mistura”: laranjas (PSD) e rosas (PS). E com “ingredientes” de várias proveniências: Lisboa, Vila Nova de Famalicão, Santa Maria da Feira, Esposende e Ponta Delgada. “Militantes felizes”, plagiando o slogan de uma marca de leite dos Açores.

Há muita gente a trabalhar na Tutti Frutti: cerca de 200 inspectores de vários departamentos da PJ, três juízes de instrução e 12 magistrados do Ministério Público. “Haja polícias e magistrados para tudo isto. E tudo, sublinhe-se, em quatro anos. É um autêntico terramoto político, financeiro e judicial”, escreveu João Miguel Tavares.

Mais operações hão-de surgir, pois a corrupção parece imparável, assim como a imaginação da Polícia Judiciária para as nomear.

O que gostávamos mesmo era que conseguissem apanhar “todos sem excepção”. Em italiano, tutti quanti.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO