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MIGUEL MANSO

Antonio Muñoz Molina

“Mais do que um mistério, é uma evidência: não era preciso uma conspiração para matar King”

Parece meio doido, mas tem algumas coisas em comum com James Earl Ray, o assassino de Martin Luther King. Os dois fugiram para Lisboa, os dois sentiram-se impostores, os dois sabem de medo, de solidão e de fantasmas. Deste cruzamento improvável, nasceu o último livro do escritor.

Trinta anos depois de O Inverno em Lisboa, o espanhol Antonio Muñoz Molina regressa à capital portuguesa com o livro Como a Sombra Que Passa, para mergulhar na misteriosa visita a Lisboa do assassino de Martin Luther King, líder do movimento de direitos civis norte-americano e Nobel da Paz.

Cinquenta anos depois do crime, continua a ser um mistério a razão que levou James Earl Ray, um branco pobre, marginal e ladrão de meia-tigela que nunca tinha saído dos EUA, a escolher Portugal para se esconder da polícia. Ray matou King em Memphis, Tennessee, a 4 de Abril de 1968, e a 8 de Maio já aterrava no aeroporto da Portela com uma identidade falsa. Foi com surpresa que percebeu que fora montada uma operação de “caça ao homem” à escala mundial e que mais de três mil agentes do FBI seguiam pistas em diferentes continentes.

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Em 1968, depois de James Earl Ray ter sido detido em Londres, a Life enviou um fotógrafo a Lisboa para seguir o rasto do assassino: o seu quarto no Hotel Portugal, a prostituta Maria com quem dormiu, a camareira...
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Sabemos hoje que nenhuma apontava na direcção de Lisboa. Sabemos também que Ray queria estar na sombra e que o centro do velho império português oferecia esse conforto. Quando foi detido no aeroporto de Londres, depois de passar nove dias no Hotel Portugal — que ainda funciona na Rua João das Regras, no centro histórico da cidade —, disse à polícia que viera a Lisboa porque queria ir ter com um irmão que era mercenário em Angola.

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Stephen F. Somerstein/Getty Images

Os que acreditam que Ray não era um lobo-solitário mas o peão de uma conspiração governamental para matar o reverendo negro acrescentam um ponto: a vinda a Lisboa não foi nem um capricho, nem um acaso; Ray tinha gente à sua espera. “Raoul”, o “latino” que o contratara para o crime, chamava-se na verdade Raul e era um emigrante português que trabalhara numa fábrica de armas antes de sair de Portugal.

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Ray matou King em Memphis, Tennessee, a 4 de Abril de 1968, e a 8 de Maio já aterrava no aeroporto da Portela com uma identidade falsa Bettmann Archive

A escolha de Lisboa “é um mistério total e, provavelmente, também um mistério banal”, diz Molina, que emergiu dos quatro anos de estudo exaustivo das fontes (oficiais, livros de História e reportagens) sem acreditar em teorias da conspiração, nem sequer na existência de Raoul/Raul, independentemente da grafia. “Este cretino matou King porque era fácil”, diz nesta conversa na livraria da Fábrica Braço de Prata, a mesma onde, nos anos 1950, quando aqui se fazia material de guerra, trabalhava o “Raul” que a família King acredita ser cúmplice do crime.

Quando era um jovem escritor e se sentia, como Ray, “um pouco impostor”, também Molina fugiu para Lisboa. Como a Sombra Que Passa são por isso três viagens que, entre a ficção e (muitos) factos, contam os passos de Ray e de Molina pela cidade.

O livro foi finalista do prémio Man Booker deste ano, mas em Portugal foi editado pela Ponto de Fuga, pequena editora com quatro anos de vida. A razão é simples e, tal como na fuga de Ray, inclui coincidências e acasos. Enquanto pesquisava para o livro, o escritor, que hoje vive entre Madrid e Lisboa, leu no semanário Sol uma reportagem de Vladimiro Nunes, que em 2007 entrevistou alguns dos portugueses com quem Ray se cruzou em Lisboa, os mesmos que o New York Times e a Life entrevistaram e fotografaram em 1968, após a prisão. Os factos que Molina aí descobriu foram tão úteis para o seu romance que só fazia sentido publicá-lo na editora que Vladimiro Nunes, o autor da reportagem, acabara de fundar.

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Miguel Manso

Escolheram lançar o livro na Fábrica Braço de Prata porque “Raul”, o suposto cúmplice português da conspiração para matar Martin Luther King, trabalhou nesta fábrica antes de emigrar para os EUA?
Ai sim?! Não. Eu não sabia disso.

Uma coincidência incrível.
Para uma mente conspirativa, essa coincidência não seria aceitável!

William Pepper, advogado da família de King, explica que, como “Raul” trabalhava nesta fábrica de material de guerra, tinha uma relação com o mundo das armas que o levou ao submundo do crime nos EUA, e que a razão da vinda de Ray para Lisboa seria encontrar-se com os amigos desse “Raul”, que o iriam ajudar a ir para África.
Se Ray tivesse amigos em Lisboa, teria estado melhor do que esteve, teria vivido melhor. Ele não tinha amigos, não tinha ninguém. E essa ideia de que o “Raul” tinha contactos no mundo das armas... É preciso um português com contactos no mundo das armas para arranjar uma arma nos EUA, um país onde toda a gente tem armas?

Descreve a solidão de Ray em Lisboa como “tão definitiva como a de um animal ou a de uma estátua”. Como chegou a essa imagem?
Imagine uma pessoa que passou mais de metade da sua vida na prisão, que nunca esteve em nenhum sítio interessante e que de repente se vê em Lisboa. Como será essa solidão? Não entende uma palavra, não entende a comida, não entende as ruas, a topografia, não entende uma cidade histórica, vem de um mundo em que não existe História. Como é o mundo através dos seus olhos?

Pôs Ray a ver Lisboa com um “filtro James Bond”.
Ray tinha poucas referências e nos livros do James Bond os agentes e os espiões, quando chegam a uma cidade, já sabem tudo sobre ela. Os livros que lia eram fantasias machistas baratas, com homens espertos que dominam todas as armas e seduzem todas as mulheres. Tento imaginar-me sozinho e perdido numa cidade sem ter qualquer referência. Como será essa sensação? Ele não veio fazer turismo, não foi ver o Mosteiro dos Jerónimos...

Quando começou a escrever este livro já sabia o que ia acontecer?
Não. Tive de começar a escrever para saber. O impulso de escrever um livro não se torna real até haver um ponto de partida muito forte.

Neste caso, qual foi?
Ray em Lisboa. Este homem sozinho em Lisboa. A partir daí, rapidamente comecei a recordar a minha própria vida e a forma como cheguei aqui.

Que livro é este: ficção com tese histórica, livro de viagens, autobiografia?
É um romance. Tenho uma ideia generosa do romance: pode abarcar tudo isso. Acima de tudo, é ficção. Porque a ficção não tem limites, ao contrário da não-ficção. Há partes que são de não-ficção, mas grande parte é ficção. O último capítulo, por exemplo, é contado a partir do ponto de vista de Martin Luther King. Começa quatro minutos antes do disparo. King sai à varanda numa bonita tarde de Memphis e invento o que vai na sua cabeça. Sei muitas coisas: sei que tinha dois dólares no bolso, que tinha um cigarro apagado na mão, sei que creme de barbear usava. Mas não posso saber o que ia na sua cabeça. Por isso, é um romance. Há outro momento em que me ponho na cabeça de Ray, que é quando ele está em Lisboa. Essas são as minhas partes de ficção. Há uma coisa que sabemos: foi aqui em Lisboa que ele viu a famosa capa da Life que o mostra em menino. Em Maio de 1968, quando ele estava aqui em Lisboa e já era procurado, a Life encontrou e publicou uma fotografia dos seus tempos de escola, em que se vêem 30 crianças pobres e em que, com uma seta, está assinalado um menino na segunda fila. É James Earl Ray. É uma capa impressionante, que saiu na semana em que ele estava em Lisboa. Sei que estava sempre a perguntar aos empregados do hotel onde podia comprar jornais e revistas ingleses e americanos, pelo que estou seguro de que a viu aqui. Tenho esse dado, mas não sei quando a viu ou como a viu ou o que pensou. Que sentiu ele ao ver a sua fotografia de menino na capa de uma revista? Isso é o que tento imaginar e é por isso que este livro é um romance.

A parte autobiográfica é toda verdadeira?
Sim.

Apesar de conhecer tantos factos, começa o livro com um sonho.
Tinha de começar por algum lado! Queria contar a forma como esta história começou a surgir na minha imaginação e na minha vida. Além da história, queria contar o processo da minha obsessão para a encontrar e descobrir. E esse sonho é uma prova dessa obsessão. Um sonho de perseguição, um sonho de medo.

O sonho foi real?
Sim. A dimensão autobiográfica está muito misturada com a outra. Uma coisa que está relacionada comigo é saber o que faz com que alguém sinta tanto interesse por uma personagem destas. Porque me seduz? O que é que a sua história tem que ver comigo?

Tem que ver com o facto de também ter fugido para Lisboa?
Não sei exactamente e não me posso comparar a ele... mas há um paralelismo.

Um escritor que vem para Lisboa à procura de uma ideia para um livro e o assassino de Martin Luther King que vem para Lisboa a seguir ao crime. É um paralelismo insólito: muitas outras pessoas vieram para Lisboa antes, durante e depois.
Claro! O que me interessa é perceber por que razão isso tem uma ressonância tão grande em mim. Ray é uma pessoa terrível e é um marginal, mas há coisas em que nós, seres humanos, nos parecemos muito. O instinto de medo, a sensação de que nos pode acontecer algo de mau, de que temos de nos esconder, é uma coisa que muitas pessoas sentem muitas vezes na vida. Se uma pessoa tiver essa propensão, é-lhe mais fácil interessar-se por quem vive assim.

Quando veio a Lisboa nos anos 1980, vivia com medo?
Sim. O medo é um fenómeno psicológico comum. As pessoas têm medo de muitas coisas e muitas vezes vivem angustiadas. Não é preciso sermos perseguidos pelo FBI para sentirmos angústia. Eu talvez tenha uma certa atracção por esse tipo de histórias e de pessoas. É como quando vemos alguém a ser perseguido num filme, sentimos logo algum tipo de identificação com essa pessoa.

O que trouxe Ray a Lisboa?
Pensa que daqui consegue seguir para as colónias, fazer-se mercenário na Guerra Colonial e conseguir chegar à Rodésia ou à África do Sul.

Ele chegou a pedir um visto para Angola no Ministério do Ultramar?
Sim, chegou a pedir autorização para embarcar num barco sueco que ia para Angola. Só que esse visto demorava duas semanas para ser emitido e o barco partia daí a dois dias. Acabou por desistir.

É verdade que um dos irmãos de Ray era mercenário em Angola?
Isso não é verdade. Os seus irmãos não serviam nem para mercenários! Eram um desastre. Ele disse isso à polícia em Londres, que ia ter com o irmão, mas não era verdade.

Como resolver a perplexidade de compreender o que leva este homem a matar o Nobel da Paz, o “Gandhi da América”, e a seguir vir para Lisboa?
Ray não sabia o quão importante era Martin Luther King. Não tinha noção da ressonância negativa do seu assassínio. Sabia quem ele era, mas a sua imaginação estava cheia de preconceitos, era uma imaginação estreita. Tinha visto que muitos assassínios de negros não eram castigados e ficou surpreendido com a dimensão da operação de “caça ao homem” contra ele. Creio que a sua vontade era simplesmente “dar o salto” para África. Aliás, quando voltou a Londres, foi detido no aeroporto ao tentar embarcar para Bruxelas, que na altura era um dos principais centros de contratação de mercenários. Não sei como obteve essa informação, mas devia saber que, tal como Bruxelas, Lisboa era uma cidade onde se contratava gente para ir para a Guerra Colonial “matar pretos”, como eles diziam. Muito antes do assassínio, Ray já tinha dito a um amigo que queria ir para o Congo matar pretos. Era um típico racista do Sul dos EUA.

Ele conseguiu dar algum passo nesse sentido em Lisboa?
Parece que uma delegação não oficial da Rodésia ou da África do Sul lhe deu um contacto, mas estou convencido de que não conseguiu muita informação em Lisboa.

No livro, fala da oposição entre a “tensão secreta do impostor” e o “conforto da pertença”. Isso também é autobiográfico?
Sim. Temos grande dificuldade em colocarmo-nos na cabeça de um impostor. Cada um de nós tem o seu nome, o seu número de passaporte... Se nos perguntarem o nome, respondemos sem hesitação. Este homem usava um nome falso, teve de “aprender” o seu nome. É difícil ter um nome falso, ele próprio admite isso nas suas declarações. Precisava de encontrar um nome falso que fosse fácil de lembrar, mas que não fosse demasiado comum para não se enganar. Se decidisse chamar-se Peter Smith, iria esquecer-se rapidamente. Imagine-se a tensão de uma pessoa que tem de estar sempre a dizer um nome que não é o seu, que tem de estar sempre a inventar vidas que não são a sua. Ele contava uma história diferente de vida a cada pessoa que encontrava. Dizia que era da marinha mercante, dizia que era muitas outras coisas. E a minha pergunta é: como é a vida interior de alguém que tem de estar sempre a mentir? Foi isso que me atraiu mais nele.

Esta personagem é o herói desta história?
Ray não é um herói, é uma personagem. Um herói é outra coisa. O herói é Martin Luther King. A minha perspectiva aqui é saber como vive uma pessoa que tem de estar continuamente a fingir.

Que peso teve a sua experiência de se sentir “impostor”?
Senti isso muitas vezes na minha vida. Pode ser-se impostor de muitas maneiras. Eu sentia-me impostor quando ia para a faculdade, porque vinha de uma classe trabalhadora e muitas das pessoas com quem me relacionava eram de classes superiores. Eu sentia a diferença que nos separava. Ou quando trabalhava na câmara municipal de Granada: se um artista entrasse lá, ver-me-ia simplesmente como um burocrata, por muito que, no meu interior, eu já fosse um escritor. Isso não interessava a ninguém, nesse momento só eu o sabia.

Precisou de ser escritor a tempo inteiro para deixar de se sentir impostor?
Em parte. Muitas pessoas vivem de uma determinada maneira, mas por dentro sentem outra coisa. Tal como as pessoas que estão numa relação e traem o companheiro.

Escreve que o herói d’O Grande Gatsby [F. Scott Fitzgerald] só existe porque há um narrador que o observa. Traz-nos essa referência para nos dizer o quê sobre o seu processo de escrita?
Na não-ficção não há ponto de vista. Geralmente, limitamo-nos a relatar os factos. Mas no romance tudo depende do ponto de vista. Imagine que o Dom Quixote era contado a partir do ponto de vista do próprio Dom Quixote. Seria uma história  diferente. Gatsby é uma personagem quase lendária, misteriosa, e é visto a partir de fora, do ponto de vista de alguém que não o conhece bem.

Como é que andar pela Rua dos Fanqueiros, na Baixa de Lisboa, “à procura de um fantasma”, como escreve, o ajudou a encontrar a sua história?
Pensar que aquela pessoa foi tão real como eu, que andou por estas mesmas ruas, que viu a mesma Praça da Figueira que vejo, que esteve aqui uns dias, mas que já não existe. Até certo ponto, todas as pessoas são fantasmas. Essa ideia atraiu-me. Nesse dia, enquanto caminhava, achava que ia encontrar o seu hotel. Tinha lido comentários sobre o Hotel Portugal no Trip Advisor, mas eram anteriores à renovação. Quando lá cheguei, só vi as obras, estava fechado. Foi uma pena. Uma das coisas que se liam na Internet era algo que também se atribuía ao Ray, que eram queixas de que os quartos eram bons mas que se ouvia muito o barulho do metro.

Não lhe interessava escrever um livro que não incluísse ficção?
Poderia ter sido interessante, mas a história de Ray em Lisboa não fornece material suficiente para escrever um livro que não fosse de ficção. Só se fosse pequenino...! Escrevo muito para jornais. Pode fazer-se grande literatura nos jornais, e eu gosto muito de não-ficção, mas neste caso senti que não era a ferramenta adequada para mim.

Porque é que é importante ir aos lugares, como fazem os jornalistas, para escrever ficção?
Para conseguir imaginar um sítio, tenho de o visitar. Aconteceu-me o mesmo quando escrevi O Inverno em Lisboa, precisava de vir cá. Quando comecei a escrever este livro, estava a viver em Nova Iorque, mas senti uma necessidade absoluta de ir a Memphis. Não podia ficar-me pela informação de que dispunha e pelas imagens e documentários que se encontram no Google, precisava de ir lá fisicamente. Foi quando lá cheguei que me dei conta de que Martin Luther King também tinha de ser uma personagem do livro. Quando estive no Motel Lorraine e vi pela janela a pensão em frente e, mais atrás, o brilho do rio Mississípi... Era um quarto com uma luz extraordinária. Esses detalhes foram informações fundamentais para mim.

Faz sempre esse trabalho de repórter quando está a trabalhar num livro?
Muitas vezes. Preciso muito do contacto com a realidade.

Logo no início do livro, diz que “é espantoso o quanto se pode saber acerca de uma pessoa sobre a qual, no fundo, nada se sabe, porque ele não disse o mais importante”. O que é que James Earl Ray nunca disse?
Nunca disse quem o ajudou a seguir Martin Luther King naqueles meses antes do assassínio e, claro, nunca disse que o matou. Sabemos que admitiu o crime ao fazer o acordo que lhe permitiu não ir a julgamento, mas realmente não sabemos o que havia dentro dele, o que é que o fez sair tão subitamente de Los Angeles e fazer aquele percurso de regresso ao Sul dos EUA, passando por Birmingham, Memphis, Atlanta... Por que razão o faz? Porque regressa tão subitamente? Tinha estado escondido no México e de repente faz todo esse percurso pelos EUA e começa a seguir Luther King. O que tinha na cabeça? Não sabemos.

Sabemos que, três dias após ter confessado, passou os 30 anos seguintes a dizer que não assassinara Luther King e que caíra numa armadilha.
Sim, ele disse isso — e essa é uma coisa que pode ser discutida —, mas também sempre disse muitas mentiras. Sempre mentiu muito sobre o seu comportamento e as suas acções, pelo que a verdade é que não sabemos. Não sabemos porque foi a Londres, não sabemos porque veio a Lisboa... Sabemos que não teria grande coisa preparada porque vivia miseravelmente. Tinha algum dinheiro no início da fuga, provavelmente resultado de um roubo no Canadá. Mas quando chega a Lisboa, tem muito pouco dinheiro. E quando volta a Londres está tão desesperado que tem de fazer dois roubos, um deles fracassado: tenta roubar a joalharia de um casal de idosos, mas a senhora apanhou-o e não o deixou levar nada! Acaba por roubar a agência de um banco, de onde levou uma pequena quantia. Então fica-se a pensar: como é que uma pessoa com tão poucos apoios podia fazer parte de uma grande conspiração? Não acredito nisso. Estamos a falar de um homem que comprou uma câmara de filmar porque queria ser realizador de filmes pornográficos. Ou seja, é um mistério total. Provavelmente, é também um mistério banal. Um mistério parece-nos sempre importante.

Não tem qualquer dúvida de que Ray matou Luther King?
De acordo com a informação que existe, não tenho qualquer dúvida. Há a possibilidade de que tenha tido algum tipo de ajuda, isso acho possível.

Ajuda do Governo, como diz a família King?
Não, isso não acredito. Acho que Ray pode ter tido algum tipo de ajuda, mas estou plenamente convicto de que foi ele quem matou Martin Luther King. Sobre isso, e de acordo com tudo o que li até hoje, não tenho dúvidas.

De onde pode ter vindo essa ajuda? Dos irmãos, que eram extremistas e racistas?
Provavelmente. Creio que a ajuda, se é que houve alguma, terá vindo dos dois irmãos e dos contactos que tinham. Há uma coisa muito importante: não pensar no difícil que era matar o Dr. King. Pelo contrário, era muito fácil. Muitas pessoas pertencentes aos movimentos dos direitos civis foram assassinadas nos Estados Unidos.

E havia notícias nos jornais, “amanhã King estará em...”.
A fotografia do Motel Lorraine saiu nos jornais de Memphis. Tudo era público, King não tinha protecção. Era vigiado pelo FBI, mas não estava protegido. Sabemos que o vigiavam a partir do edifício dos bombeiros, mesmo em frente do motel, e que ainda hoje lá está. Ou seja, era fácil. Este cretino matou King porque era fácil. Era muito fácil arranjar uma arma de fogo, ele usou documentos falsos para comprar uma espingarda. Mais do que um mistério, é uma evidência: era muito fácil matar King, não era preciso uma grande conspiração. Lembra-se de quando quase mataram King no Harlem em 1955? No seu primeiro dia em Nova Iorque, uma mulher cravou-lhe um punhal e quase o matou. Era uma mulher negra, com perturbações. Era muito fácil. Hoje vivemos numa época em que há muito mais segurança, muito mais controlo, mas nessa época, e para uma pessoa como King, não havia segurança.

Há uma diferença entre o Governo matar King ou não se importar que ele seja morto.
É evidente que o director do FBI odiava King e o movimento dos direitos civis, e que o Presidente Johnson estava  incomodado com ele naquele momento, mas creio que não houve nenhuma grande conspiração. Não era preciso. Foi preciso uma conspiração para matar o arquiduque Francisco Ferdinando em 1914 na Sérvia? Não. O nacionalista sérvio Gavrilo Princip aproximou-se dele com a sua pistola e disparou.

Há anos que se fala da inteligência de Ray. A família e os que acreditam que houve uma conspiração usam o argumento de que não era um homem muito inteligente e portanto não tinha capacidade para montar um plano que tem alguma complexidade, como ter obtido documentos falsos com nomes de canadianos que viviam todos na mesma rua.
Não era preciso capacidade especial para cometer este crime. Qualquer pessoa conseguia obter documentos falsos no Canadá. Todos os espiões soviéticos arranjavam passaportes no Canadá. Quando a União Soviética precisava de documentos falsos para entrar nos EUA, arranjava passaportes canadianos. Era muito fácil, bastava duas fotografias e um papel. Tudo isso mudou após o assassínio de King. As nossas opiniões sobre este momento estão muito afectadas pelo facto de que agora vivemos numa época muito mais controlada. Ray viajava com um revólver à cintura! É preciso uma conspiração para que um tipo voe de Toronto para Londres com um revólver no bolso e a seguir traga esse mesmo revólver para Lisboa?

Essa mesma história do revólver é usada pela família King para, justamente, afirmar que Ray não era muito inteligente.
Quando estava a escrever o romance, um dos exercícios era pensar em como é que uma pessoa como ele veria tudo isto. Tentar ver Lisboa pelos olhos de alguém como Ray. Uma pessoa que tinha tido uma vida de merda, que tinha sido condenado a 20 anos por roubar 200 dólares. Assaltou um supermercado com um parceiro e levou 20 anos. Não tinha advogado, tinha antecedentes criminais... O sistema penal americano é muito cruel para os pobres, negros ou brancos. Que sabia ele do mundo?

No seu romance, Ray está sempre a ler e viaja sempre com livros na mala.
Tem uma cultura geral desordenada e caótica. Eu tenho todos os livros que ele leu e li-os todos!

Aprendi no seu livro que para hipnotizar alguém é preciso não pestanejar.
Esse é um dos exemplos: um manual de hipnose disparatado. Eu li todos esses livros e os manuais de auto-ajuda que Ray lia. São livros ridículos. Segundo os relatórios escolares, era uma pessoa que tinha uma inteligência natural um pouco acima da média. Tinha curiosidade, mas era uma curiosidade desorientada porque não tinha qualquer fundamento cultural. Sem estrutura, sem enquadramento. Ao lermos os dois livros de Ray e as suas declarações, damo-nos conta da influência que os romances baratos tiveram sobre ele. A maneira como Ray descreve o “Raoul/Raul” é típica da má literatura, dos romances policiais e das histórias de espiões. Ele gostava do James Bond, mas o que mais lia era literatura pop de má qualidade e com todos os estereótipos: conspirações, encontros secretos, espiões sedutores, tudo isso. Ray tinha cunning, como se diz nos EUA, tinha uma astúcia delinquente, sabia fazer certas coisas. Mas não era preciso ter uma inteligência especial para matar Martin Luther King.

Quantos anos trabalhou neste livro?
Na história em si, quatro anos.

Como foi o processo de pesquisa?
Toda a informação está disponível online, é facílimo aceder a ela. Foi por isso que escrevi o livro! Há uma página onde é possível consultar as fotocópias de todos os interrogatórios, todos os relatórios dos agentes. E no site da polícia de Memphis encontrei os registos da vigilância a Ray depois da sua detenção. Quando o trouxeram de Londres, voou directamente para Memphis sob grandes condições de segurança, porque não queriam que se passasse o mesmo que com Lee Harvey Oswald. Foi quando lhe tiraram aquela famosa fotografia, em que está vestido com um colete à prova de bala. Vigiavam-no na prisão 24 horas por dia e registavam todos os seus movimentos. Tudo isso está online. “Às 7h14 da manhã, tomou o pequeno-almoço: café, banana e meia torrada. Deitou-se na cama. Esteve a escrever.” É por estes registos que sei que não parou de escrever, estava permanentemente vigiado. “Teve pesadelos, mexeu-se muito durante o sono.” Até este tipo de coisas está nos relatórios. São de uma riqueza de dados assombrosa.