Gilberto Gil encerra as Festas de Lisboa com concerto gratuito em Belém

A comemoração dos 40 anos do disco Refavela, estreada no Brasil em 2017, tem uma única apresentação em Portugal: é este sábado, às 22h, nos jardins da Torre de Belém, a fechar as Festas de Lisboa. Com Gilberto Gil estará uma banda de oito músicos além das vozes de Mayra Andrade, Chiara Civello e Mestrinho. O acesso é livre.

Concerto, Guitarrista, Instrumento de cordas dedilhadas, Cantor e compositor, Cantando, Teatro musical
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Gilberto Gil NUNO FERREIRA SANTOS

É a segunda visita de Gilberto Gil a palcos portugueses em 2018. A primeira foi em Março, nos coliseus de Lisboa e Porto, com o projecto Trinca de Ases, onde o cantor e compositor baiano se juntou a Gal Costa e a Nando Reis. Agora vem celebrar os 40 anos de um disco histórico seu, Refavela, gravado em 1977 depois de uma viagem de Gil a África. A ideia do espectáculo não foi dele, foi do seu filho Bem Gil, que no ano passado propôs a vários músicos e cantores celebrar esse disco num espectáculo único no Rio de Janeiro. Mas não foi único, continuou, e o resultado chega agora a Portugal, com banda e cantores: além dele, a cabo-verdiana Mayra Andrade, a italiana Chiara Civello e o brasileiro Mestrinho. Será este sábado, nos jardins da Torre de Belém, às 22h, no encerramento das Festas de Lisboa que decorrem desde 1 de Junho. O acesso será gratuito.

“É um show muito vivo, muito orgânico”, diz ao PÚBLICO Bem Gil, cantor, arranjador, e multi-instrumentista, responsável pela idealização e direcção musical do espectáculo. “Apesar de a gente estar se baseando no repertório do Refavela, e nos próprios arranjos do disco, o clima não é revivalista, de reprodução do que foi gravado. A ideia veio justamente da natureza dos músicos envolvidos, que já têm uma relação com o projecto, até do ponto da vista da formação individual de cada um. Então, o Refavela já é um disco muito vivo para todos.” Exemplo disso, diz ele, é que vários destes artistas sabem as músicas de cor. “E a própria participação do Gil no projecto é baseada nas músicas que continuaram fazendo parte do repertório dele nestes quarenta anos. Ele canta o Babá Alapalá, o Aqui e agora, o próprio Refavela, canções que ele vem cantando durante a sua carreira.”

Revitalizar os arranjos originais

A estrutura de Refavela 40 é a mesma da estreia, mas com algumas alterações na equipa. “Quando o projecto foi estreado no Brasil ele tinha a mesma configuração: uma banda de oito elementos e quatro cantores, dois homens e duas mulheres. A gente começou com a Céu, a Maíra Freitas, o Moreno Veloso [filho de Caetano] e o meu pai.” A estreia foi no Rio de Janeiro, em 1 de Setembro de 2017, e era para ser uma apresentação única. Mas o êxito do espectáculo foi tal que surgiu a ideia de levá-lo a outros palcos. O que aconteceu, seguindo depois para São Paulo e para Salvador da Bahia. Só que, entretanto, a cantora Céu foi mãe, Maíra também e tiveram de mexer na equipa de cantores. E isso deu a ideia, a Bem Gil, de recorrer, nas apresentações na Europa, a cantores deste continente. “A Mayra [Andrade] surgiu por uma questão de identificação musical, do próprio trabalho dela, com os elementos deste show; e a Chiara [Civello] por já ter uma relação com o próprio Gil (que participou em discos dela) e pelo tempo que passou e morou no Brasil, por esse lado afectivo. No lugar do Moreno, que está nesse mesmo período fazendo uma tournée com o pai e os irmãos, a gente trouxe o Mestrinho, que é um acordeonista incrível de Sergipe.”

É na formação dos músicos que reside a principal diferença entre o disco e o espectáculo. Bem Gil: “A ideia de fazer esse show vem muito do gosto que a gente tem pelos arranjos e pela sonoridade do disco, não só pelas canções em si, pelas melodias. Mas o baixista desse show, por exemplo, tem características muito diferentes do baixista original. Então isso já actualiza. A ideia é tentar, com a nossa natureza, reproduzir aqueles arranjos.”

Além das músicas do disco original (Refavela, Ilê ayê, Aqui e agora, Sandra, Balafon, Norte da saudade, Era nova, Babá alapalá, Patuscada de Gandhi ou Samba do avião, numa versão do célebre tema de Tom Jobim), ouvir-se-ão canções como Queremos saber, Sarará Miolo, A Gaivota, É, Sítio do Pica-Pau-Amarelo ou versões de temas de Caetano Veloso (Two Naira Fifty Kobo) e Bob Marley (Exodus, Jamming e Three Little Birds).

Mayra Andrade e um novo disco

A cantora Mayra Andrade diz, ao PÚBLICO, que “é um espectáculo muito espontâneo, muito vivo, em que cada um participa nas músicas do outro, dando uma rodagem nova a este repertório, que já tem 41 anos. Eu participo com uma música cabo-verdiana, que foi gravada em 1983-84, e está a ser uma experiência muito boa para mim.” Mayra está, ao mesmo tempo, a preparar um novo disco seu. “Vou lançar um disco em Outubro, que será bastante diferente do que fiz antes. É como se tivesse a essência do primeiro disco, em termos de instrumentos tradicionais, mas com uma influência grande da música de programação. É um disco mais livre, onde há menos aquela necessidade de fazer o tradicional mas onde a essência do tradicional continua presente, porque ela está em mim. Será um disco muito mais actual em termos de sonoridade. Pela primeira vez estou a trabalhar com pessoas ainda mais novas do que eu e está a ser superinteressante.”

Voltando a Refavela 40: depois de várias apresentações no Brasil, já esteve em Inglaterra e França, no Barbican Centre de Londres e no Archo Jazz Festival em Blainville-Crevon. O espectáculo foi também gravado no Brasil para um DVD a editar em breve e deve terminar agora na Europa. Ou talvez não. Porque Bem Gil diz que ainda vai tentar fazer um último espectáculo, no Brasil, “com toda a gente que participou no projecto”, músicos e cantores.

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