Afonso Cautela (1933-2018): jornalista, poeta, ecologista

Trabalhou em vários jornais diários, estreou-se como poeta no início dos anos 60 e foi um pioneiro da defesa do ambiente em Portugal. Tinha 85 anos.

Che Guevara
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Morreu esta sexta-feira em Lisboa, aos 85 anos, o poeta, jornalista e ecologista Afonso Cautela, cuja obra poética reunida está a ser publicada na Afrontamento, que já lançou em 2017, na colecção Obscuro Domínio, um primeiro volume de inéditos e dispersos, intitulado Lama e Alvorada.

Nascido em Ferreira do Alentejo em 1933, Afonso Cautela concluiu o curso do Magistério Primário em 1956 e iniciou a sua vida profissional como professor. Ainda como estudante, publicou alguns poemas no jornal A Escola Nova, publicado pelos alunos da Escola do Magistério Primário de Faro, mas só veio a estrear-se em livro no início dos anos 60 com Espaço Mortal (1960) e O Nariz (1961), subintitulado Diário II, que saiu na colecção de poesia Sílex, de Faro, que se iniciara pouco antes com livros de Maria Teresa Horta e Eduardo Guerra Carneiro.

Ainda na década de 50 torna-se um dos principais responsáveis do quinzenário A Planície, de Moura, fundado em 1952, e em particular do seu suplemento cultural Ângulo – Das Artes e das Letras, decisivo para a inquestionável influência cultural que o jornal terá nesses anos, servindo de incubadora a uma geração de jovens escritores e alcançando projecção nacional. Na sua terra natal, lança ainda, em 1958, a efémera publicação Zero: cadernos de convívio, crítica e controvérsia.

Após trabalhar para o Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian no início dos anos 60, inicia em 1965 uma longa carreira na imprensa diária, primeiro no República e depois n’O Século, onde vive o 25 de Abril de 1974 ou n’A Capital, já nas décadas de 89 e 90. Como repórter, distingue-se pelos seus pioneiros artigos no domínio da ecologia, e n’A Capital assinará durante mais de uma década a coluna Crónica do Planeta.

Mas o seu interesse pela ecologia, o seu empenho na defesa do ambiente e o seu activismo anti-nuclear datam dos anos 70, com a fundação, em 1974, do Movimento Ecológico Português, que publicava o jornal Frente Ecológica, e a publicação de vários títulos dedicados ao tema, como Depois do Petróleo, o Dilúvio (1974), um ensaio publicado com a prestigiada chancela dos Estúdios Cor, ou o livro de reportagens Ecologia e Luta de Classes em Portugal (1977).  

Da poesia é que, após a sua promissora revelação no início dos anos 60, pareceu ter-se desinteressado durante quase meio século, embora o volume de inéditos e dispersos agora publicado pela Afrontamento, com organização do poeta e tradutor José Carlos Costa Marques, mostre que não terá sido bem assim.

Representado na antologia Surrealismo Abjeccionismo, que Mário Cesariny publicou em 1963, figura também na recolha Oitocentos Anos de Poesia Portuguesa (1973), co-organizada por Orlando Neves e Serafim Ferreira. Com este último, Afonso Cautela organizara em 1965 a antologia Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965, publicada na excelente colecção Poesia e Ensaio, da Ulisseia.

Mas o seu regresso público como poeta só se dará em 2007, quando, acompanhado por Vítor Silva Tavares e Rui Caeiro, participa no volume colectivo Poesia em Verso, publicado pela Livraria Letra Livre e ilustrado por Luís Manuel Gaspar. E em 2010 sai Campa Rasa, nas Edições Sempre-em-Pé.

E depois deste primeiro volume da sua poesia reunida lançado pela Afrontamento, que o autor ainda teve o gosto de ver publicado, deverá sair em breve um segundo tomo com a sua poesia editada em livro.

O corpo de Afonso Cautela estará em câmara ardente a partir das 18h desta sexta-feira, na Igreja da Figueirinha, em Oeiras, e o funeral realiza-se no sábado, pelas 14h30, no cemitério de Oeiras.