Os mistérios de Tancos

Um ano depois da notícia do desaparecimento de diverso material de guerra nos Paióis Nacionais de Tancos são ainda mais as dúvidas do que as certezas sobre o caso. As armas apareceram de forma tão surpreendente como sumiram e há muitas perguntas sem resposta, mistérios por desvendar.

Torre de transmissão, eletricidade
Foto
Miguel Manso

Há um ano os portugueses sabiam que tinha desaparecido uma quantidade importante de diverso material de guerra dos Paióis Nacionais de Tancos. O armamento acabaria por aparecer em Outubro do ano passado, graças a uma denúncia anónima e de forma tão insólita como tinha desaparecido. O Exército deu o assunto por encerrado. O ministro da Defesa remete qualquer declaração sobre o assunto para o relatório que apresentou no final de Março deste ano no Parlamento, mas que nada de concreto diz sobre o sucedido. Ainda decorre uma investigação no Ministério Público, mas passado um ano são ainda mais a dúvidas do que as certezas sobre este grave incidente que comprometeu a credibilidade do Estado português e das suas Forças Armadas. O PÚBLICO revisita os muitos mistérios que subsistem sobre o que sucedeu em Tancos.

Quando

A 28 de Junho de 2017 os portugueses ficam a saber que faltava material de guerra nos Paióis Nacionais de Tancos. O Exército deu conta que tinha desparecido um verdadeiro arsenal, que incluía explosivos, granadas, um foguete anticarro, gás lacrimogénio e munições diversas. Desde o dia em que soube do insólito sumiço até hoje, ninguém, nem nenhum relatório, precisou a data (ou as datas) em que ocorreu a retirada do armamento.

Como

Como foi retirado o material de guerra de Tancos é outros dos mistérios por esclarecer. Saiu todo de uma vez? Foi saindo em “fatias”? Entrou alguma viatura no perímetro dos paióis para o transportar para o exterior? O transporte foi feito à mão? São muitas as perguntas que persistem sobre o desaparecimento do armamento. E não vai ser fácil encontrar as respostas. A videovigilância estava avariada há vários anos, as vedações estavam velhas e muitas delas já ferrugentas, as torres de vigilância, igualmente velhas, não eram usadas e, muitas vezes, as patrulhas de segurança eram realizadas com o mínimo de homens ou nem sequer eram feitas.

Quem

O Exército concluiu em Janeiro deste ano os processos disciplinares abertos no ramo, castigando quatro militares. A pena mais greve (proibição de saída da unidade por 15 dias) foi para um sargento, por não ter mandado fazer as rondas de segurança. Um oficial que poderia ter feito a ronda e não fez teve uma repreensão agravada. Um praça viu-lhe aplicada uma repreensão simples por ter preenchido mal a papelada da entrada e saída de material de Tancos e um outro ficou impedido de sair unidade durante seis dias por incitamento a declarações falsas. Nenhum foi responsabilizado directamente pelo desaparecimento das armas. Nem eles nem ninguém. O Exército já deu a investigação a Tancos como encerrada, mas ainda decorre uma investigação no Ministério Público. Porém, até hoje, não foi revelada a mais pequena pista sobre quem será o responsável, ou os responsáveis, pelo desaparecimento das armas.

Sobre os autores, uma pergunta importante ainda está também à espera de resposta: houve militares envolvidos? Muito especialistas e até membros das Forças Armadas disseram que era impossível haver um furto sem o envolvimento de alguém dentro da unidade ou com conhecimento profundo do perímetro e das rotinas e procedimentos internos.

Há factos já apurados que apontam nesse sentido. Dentro das instalações de Tancos existiam quase 20 paióis e apenas três foram assaltados, precisamente aqueles que tinham material relevante. Os restantes, alguns vazios, outros com pouco material, ficaram intactos depois do desaparecimento das armas em Junho.

Entre o material desaparecido havia explosivos e com os explosivos desapareceu também o material necessário para que eles pudessem ser accionados, o que indica que a escolha foi criteriosa.

Armas aparecem, mas…

A 31 de Outubro do ano passado o material desaparecido em Tancos aparece a cerca de 25 quilómetros do perímetro militar, abandonado num terreno na zona da Chamusca. A recuperação não se ficou a dever às investigações em curso pelo Exército, através da sua Polícia Judiciária Militar (PJM), nem à investigação conjunta entre militares e Ministério Público, através da Polícia Judiciária (PJ). Foi, segundo revelou o Exército, uma chamada anónima para a GNR, que depois alertou a PJM, que deu conta do local onde se encontrava o armamento.

O chefe de Estado Maior do Exército (EME), general Rovisco Duarte, revelaria na tarde desse dia que o material encontrado era o que tinha desaparecido. Apenas faltavam algumas munições de 9 milímetros, mas, em “compensação”, tinha surgido uma caixa de petardos que não estava na lista oficial do equipamento desaparecido em Junho. Uma situação “compreensível”, disse Rovisco Duarte, porque é comum haver “problemas de registo” daquilo a que os militares chamam “material volante”. Material que é utilizado na instrução, podendo ter sido registada a sua saída e não ter sido na realidade consumido por várias razões, como por exemplo atmosféricas, regressando ao paiol.

Este aparecimento do armamento, quase tão insólito quanto o seu desaparecimento, levanta também algumas dúvidas. Há quanto tempo estava o armamento naquele terreno abandonado na Chamusca? Quem fez a verificação de que o material encontrado era mesmo o desaparecido, além da PJM? Havendo uma investigação conjunta da PJM e da PJ, porque não foi a PJ ao local, juntamente com a PJM?

José Manuel Neto Simões, capitão-de-fragata na reforma, escreveu, num artigo de opinião no PÚBLICO no dia 15 deste mês o seguinte: “O aparecimento [do armamento] não resultou da investigação, pelo que, no mínimo, é um episódio inusitado com objectivos de carácter duvidoso. E constitui um indício preocupante de manipulação dos factos, tendo em vista lançar um manto de obscuridade na tentativa de condicionar o inquérito, cuja investigação criminal é da responsabilidade do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP/PJ).”

E acrescenta. “Vai ao encontro da narrativa oficial de mistificação para que não haja demissões como ocorreram no Ministério da Administração Interna — responsabilização política pela deficiente gestão dos fogos de Pedrógão —, mesmo antes do apuramento de responsabilidades criminais!” O Exército, sempre pronto a responder quando algo que é escrito ou dito na comunicação social sobre o ramo falta à verdade ou está errado, não disse uma palavra sobre estas afirmações.

Houve mesmo um assalto?

No dia 10 de Setembro do ano passado, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, numa entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, deu corpo a um rumor que há muito era cochichado nos meios militares e políticos: pode não ter havido um roubo em Tancos. Disse Azeredo: “Pode não ter havido furto nenhum”, porque “não existe prova visual, nem testemunhal, nem confissão”. “Por absurdo, podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado… E isso não pode acontecer”, acrescentou.

As palavras causaram um levantamento político na oposição, mas as declarações do ministro foram sendo esquecidas, até porque o material que o Exército diz ter desparecido foi encontrado, como também garantem os militares. Não menos verdade é que foi o próprio Rovisco Duarte que, na altura da descoberta do armamento, admitiu existirem problemas nos registos de saída e entrada de material.

Um mês depois das palavras do ministro, Rovisco Duarte afirmava: “Tenho a certeza de que houve um furto. Não lhe chamemos assalto, chamemos um furto. (…) Tenho a certeza, na base dos dados das averiguações que foram conduzidas. Não tenho dúvidas nenhumas de que houve um furto.” “Estou convencido de que vão descobrir [os autores]. Se há provas, é mais complicado, mas isso não é comigo”, acrescentava, numa referência à investigação criminal ainda em curso.

Apesar destas certezas do chefe do EME, as dúvidas sobre a existência de um furto mantém-se ainda em muitas cabaças, nomeadamente na do autor do já citado artigo no PÚBLICO. “Vai fazer um ano que ocorreu o desaparecimento enigmático — furto, encenação ou mistificação — de material de guerra dos Paióis Nacionais de Tancos”, escreve José Manuel Neto Simões.