Opinião

A guerra sem fim à vista

Boa parte dos problemas da Europa e do Médio Oriente, hoje, têm as suas raízes na guerra de há cem anos.

Há 99 anos por estes dias a Alemanha foi forçada a assinar o Tratado de Versalhes que, acreditava-se, iria finalmente pôr fim à 1.ª Guerra Mundial. Formalmente, assim foi. Mas na prática a teoria é bem capaz de ser outra.

Quando a Alemanha aceitou o armistício, a 11 de Novembro de 1918, ainda era possível aos seus políticos vender a ideia de que a guerra tinha terminado com um empate honroso. Essa não era a conclusão dos aliados, nem do resto do mundo. A Grande Guerra, segundo o próprio Kaiser alemão, tinha posto em confronto dois princípios de organização de estados: o estado imperial, organizado segundo uma linha dinástica, e o estado nacional, organizado em torno de princípios liberais. Nos meses a seguir à guerra foi claro que o primeiro tinha perdido. Metade do continente europeu vivia sob quatro impérios — alemão, russo, otomano e austro-húngaro. Passados meses todos eles tinham desaparecido.

Do outro lado, a visão era simples: os impérios tinham começado a guerra, e tinham-na perdido. E, portanto, teriam de pagar o preço. O Presidente francês, Clemenceau, tomou a dianteira das exigências à Alemanha — além de território em disputa e de pagamento de reparações, expropriação de fábricas alemãs e de barcos acima duma certa tonelagem, controle das regiões mineiras —, mas não era o único. Um político britânico na oposição prometia “espremer a Alemanha como uma laranja, até ela guinchar” — e o seu primeiro-ministro liberal, Lloyd George, não se fez rogado. John Maynard Keynes, então um jovem economista na delegação britânica, demitiu-se avisando que as dívidas impostas à Alemanha iriam gerar uma nova guerra em menos de uma geração, e não se enganou.

Essa história é bem conhecida. Mas o que aconteceu aos outros impérios é algo que por vezes esquecemos. Nas minhas visitas a Budapeste fui sempre surpreendido por ver como a Hungria vivia ainda obcecada com o “seu” Versalhes, que se chamou Tratado de Trianon — de que muita gente fala como se tivesse acontecido ontem. Por um lado a Hungria tornou-se finalmente independente da Áustria. Por outro lado, perdeu boa parte do território que lhe pertencia pelo acordo real-imperial que mantinha com os Habsburgos. A Hungria não era bem “metrópole” nem bem “colónia”. Por isso manteve depois os sintomas de ambas as condições, que ainda perduram: autoritarismo e vitimização. Boa parte dos automóveis húngaros usam ainda hoje autocolantes com um mapa do país que ao olho destreinado parece banal — até nos apercebermos que contém as capitais de três outros países e território romeno, croata e sérvio. Nos estúdios da televisão pública o mapa usado, aquele que se vê nas câmaras, é o da Hungria “oficial”. Mas na sala de maquilhagem, antes de entrar em estúdio, o mapa que estava à minha frente era o da “Grande Hungria”.

E assim vai. Também a Rússia e a Turquia vivem hoje a sua nostalgia imperial. E não faltam nos seus antigos territórios os pontos de conflito que são heranças da 1.ª Guerra Mundial, da Síria à Palestina e Israel.

Dos países europeus que nasceram com Versalhes e os outros tratados afins, houve alguns que não duraram 20 anos: a Estónia, a Letónia e a Lituânia perderam a independência na guerra seguinte, e ficaram sem soberania durante duas gerações. A Hungria, a Checoslováquia e a Polónia mantiveram formalmente a independência, mas de cada vez que a queriam usar eram invadidas — pela Alemanha primeiro, e pela URSS em 1956 e 1968. Na verdade, há séculos que estes países não eram tão soberanos como o são agora.

E depois há os povos que não tiveram direito a autodeterminação, como os curdos, ou os que foram vítimas de um genocídio, como os arménios. Boa parte dos problemas da Europa e do Médio Oriente, hoje, têm as suas raízes na guerra de há cem anos. A substituição do princípio imperial pelo princípio nacional foi especialmente difícil ali onde as comunidades culturais e linguísticas estavam sobrepostas — e isso era em quase todo o lado no Leste e no Sudeste. A 1.ª Guerra Mundial acabou com uma mensagem: se não és uma nação, não és nada. A corrida que daí resultou foi muitas vezes mortífera, e nem todos os povos tiveram a mesma sorte.

Claro que à época não havia só o princípio imperial, que os conservadores preconizavam, ou o princípio nacional, então preferido pelos liberais. Os socialistas pugnavam por um princípio de solidariedade de classe, para lá de fronteiras. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos, após a 2.ª Guerra Mundial, fez emergir, embora de forma ténue, aquilo a que a filósofa turca Seyla Benhabib chama “o momento cosmopolita”. Ainda hoje a grande questão está em como compatibilizar auto-determinação coletiva com democracia e direitos humanos individuais. Para resolvermos essa equação, é preciso perceber por que é que ainda vivemos no mundo que a 1.ª Guerra Mundial criou — e procurar acertar agora onde falhámos várias vezes no último século.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico