“Se os marcianos vierem, dir-nos-ão: ‘vós, os humanos’. Não precisarão de mais adjectivos”

Raça, género e identidade são os tópicos de que Harryette Mullen, membro do movimento Cave Canem, se serve para construir uma poesia que quer falar do que é comum a toda a gente, e não apenas do que lhe é específico enquanto mulher, afro-americana e feminista. Os escritores negros, defende, devem escrever como quiserem, independentemente da cor.

Árvore
Foto
Miguel Manso

E se a poesia de Safo, a grega, soar a blues depois de traduzida para o inglês da América? Soou mesmo a blues a Harryette Mullen, a americana que aprendeu o som, o ritmo e a cadência da sua poesia com as línguas de poetas que não consegue ler no original. Assume o contágio entre o que escreve e essas palavras que sabe entender fora do seu significado original, ou convencional, e que transmuta para uma poesia comprometida com causas, mas sobretudo com a singularidade da sua voz. Eis Harryette Mullen, 64 anos, natural do Alabama, criada no Texas. Professora de literatura afro-americana na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, não é apenas a responsável por resgatar para a actualidade uma obra esquecida que entretanto foi considerada um clássico contemporâneo: Oreo, o único romance de Fran Ross. Publicado em 1974, o livro, que refaz a história de Teseu numa versão satírica protagonizada por uma rapariga negra, compondo um retrato cheio de humor da relação entre afro-americanos e judeus, ficou adormecido até 2015, quando Mullen convenceu um editor a reeditá-lo (em Portugal saiu na Antígona em 2016).

Foi também por causa de Oreo que Harryette Mullen passou a fazer parte da História da literatura americana, mas isso é pouco para falar dela. Em Lisboa, onde veio participar no programa Lisbon Revisited – Dias da Poesia, que reuniu vários poetas na Casa Fernando Pessoa para celebrar os 130 anos do escritor português, Mullen agradece a atenção. “Nos Estados Unidos os jornais não se interessam por poesia”, sorri, os cabelos num desalinho que a faz parecer muito, muito nova, ainda mais quando combinados com o sorriso que lhe abre covas na face e lhe faz cerrar os olhos. Acabada de chegar de Los Angeles, onde vive, pede desculpa pelo cansaço e justifica o desinteresse dos media do seu país pela poesia com a vida, o quotidiano. “Estão interessados em coisas práticas. Na economia, em negócios, em comprar e vender, e a poesia nem sempre é o melhor para isso.” Autora de nove livros em que conjuga humor, desafia convenções e joga com a linguagem de forma provocadora, diz que está sempre a dizer aos seus alunos que “a poesia só serve para perder dinheiro": "O poeta perde dinheiro, o editor perde dinheiro, o livreiro perde dinheiro. É preciso gostar de poesia por outras razões.”

Sem um único livro publicado em Portugal, Mullen deu-se a conhecer na Casa Fernando Pessoa através da tradução de outra poeta, Margarida Vale de Gato. E lê-se, por exemplo, assim em português: “Os lumes da minha maluca não são nada como o néon. Os refrescos da Royal são mais coral que o seu beijo. Se o Tide lava mais branco, bazucas mais beges que as dela não há. A sua trunfa eriçada dava um esfregão Bravo de aço. Se vi as cores da moda na revista Marie Claire, nas trombas dela não vejo pó de rouge sequer. E os elixires Tantum têm mais frescura que o verdor da axila da minha mais-que-tudo. Gosto quando abre a goela, mas a pop enlatada tem mais ritmo do que ela. Eu cá não me dou com Marilyn Monroes. A minha larica verde é tão feiinha que dói. Mas, fogo, para mim, o sex appeal da minha Choco-Shake mete num chinelo as manequins platinadas e as actrizes de cinema, esterlicadas que faz pena.” É o poema Duma Parda, que contrasta com este, [Que penas as dela, que folhas]: “Que penas as dela, que folhas. Ondula toda em brisas. Fru-frus e franzidos que tem. Rufos que se imagina. Vestido estival, sua souplesse, ao vento leve, farfalhando os folhos, levantando as faldas, espreitando pelas cavas. Suas palavras espalhadas ao vento. Quem lhe ouve a voz, tão baixa, cada vinco ao toque suave. Recolhe as folhas espaventadas, as penas, as asas.”

Conotada com causas como a raça ou o feminismo, Harryette Mullen prefere falar em identidade. “Interesso-me cada vez mais pelo mundo no seu todo. Nos Estados Unidos temos a tendência para pensar que somos o mundo, e em Los Angeles é fácil acreditar nisso, porque o mundo vive lá; todos os dias se falam mais de 70 línguas na cidade, e cada uma das pessoas que as falam tem uma identidade e tem raça e tem género. E essa identidade não tem só a ver com o lugar de nascimento, mas com diferenças que influenciam o modo como experienciamos o mundo e que muitas vezes têm a ver com desigualdade, emigração, globalização. A raça está no fundo da pirâmide da diferenciação salarial. É a questão dos tais 99 versus um por cento em todo o mundo.” A cor define a classe social, razões económicas sustentam o preconceito. “As pessoas simplesmente não têm as mesmas oportunidades de sucesso, de educação. Isso faz a diferença.”

Na poesia dela há isso, e também por isso é política. Mas Harryette Mullen quer mais; pretende que nela haja a universalidade que, justamente, o preconceito de raça não lhe quer conferir. “Enquanto escritora gostava que a minha poesia fosse representativa da  humanidade, e a humanidade pode também ser feminina e pode ser negra ou de outras cores. Mas quando me chamam negra, ou quando chamam negra à minha poesia, dizem-me que não posso ser universal. Que sendo negra e mulher e feminista posso apenas ser específica. Porque não sou branca europeia, o tal cliché do universal. O que querem é que eu carregue uma identidade, ao contrário dos brancos, que são apenas humanos. É um complexo dizer que os europeus brancos representam a humanidade mas eu não. Também quero representar a humanidade. Sou humana. Se os marcianos chegarem aqui, dir-nos-ão: ‘vós, os humanos’. Não precisarão de todos esses adjectivos para nos descreverem. Talvez isso servisse para nos unir. Mas parece que não há marcianos, que Marte está vazio.”

O som e os contágios 

Harryete Mullen cresceu numa pequena cidade do Texas, Fort Worth. A mãe era professora e por isso muito cedo na sua vida apareceu o interesse pelas palavras. “Não me lembro de aprender a ler ou a escrever. Aconteceu-me muito cedo, teria uns três ou quatro anos. O mundo em que eu e a minha irmã fomos criadas era como uma pequena escola. Havia secretárias, estantes e livros, era fácil fazer desenhos, pintar. E havia enciclopédias. Acho que começámos a ler e a escrever antes de termos consciência disso. Escrevo poemas desde muito pequenina, imitando o que estava à minha volta: a poesia das canções, das rimas para crianças. Isso é uma espécie de poesia natural quando somos muito novos.”

O aparente jogo infantil com as palavras permanece. Mas depois veio o combate a um ambiente que tendia a excluir. “O Texas é muito resistente a ideias liberais. Apesar de tudo, fui para a universidade, em Austin, um dos lugares mais liberais de todo o estado, muito diferente de Fort Worth.” Fort Worth é cowboys... Tenta um retrato social desse lugar: “As pessoas que possuíam gado e terras eram os 'cow cattleman'; as que trabalhavam para elas e não tinham nem terra nem gado eram os 'cowboys', aquilo a que no México se chama de vaqueros. Alguns eram afro-americanos. Mas na sua maioria os negros que chegaram lá antes de eu nascer iam trabalhar para os matadouros. Em Fort Worth havia dois grandes centros de abate e por isso se formou ali uma numerosa comunidade negra. Os barbecues continuam a ser um grande acontecimento na comunidade”, ri-se. Logo regressa a Fort Worth e ao Sul. “Há um feriado não oficial, o Juneteenth [também chamado o Dia da Liberdade ou da Emancipação], celebrado pela comunidade negra. Depois de a escravatura ter sido banida por Abraham Lincoln, as pessoas no Sul continuaram a viver como escravas e a lutar pela sua liberdade durante muito tempo. Por isso celebram o feriado numa data diferente do dia oficial da emancipação. E, claro, celebram-no com muitos churrascos.” 

Parte da poesia que Harryette Mullen escreve reflecte os sons que ouviu nesse lugar, e depois noutros e noutros, as várias formas de inglês, as diferentes línguas que de facto se falam nos Estados Unidos. “Ninguém fala o inglês standard, a não ser, talvez, os apresentadores de televisão. Há diferentes formas vernaculares de inglês. O do Norte é diferente do do Sul, o do Este é diferente do do Oeste, e ainda há o inglês do Midwest. Também há diferenças étnicas e raciais: há o chamado 'black english', há o 'spanglish'. Quero reflectir essa diversidade." E também esse contágio: " Estudei espanhol durante anos: nunca me tornei fluente, mas houve uma altura em que conseguia ler e escrever bem, ainda que o espanhol que aprendi na escola não fosse igual ao que escutava à minha volta. Embora tenha perdido quase tudo, a música dessa língua continua a ter influência sobre mim. E também aprendi um pouco de francês e de latim, porque andei numa escola católica.”

O estigma da poesia negra

Além das suas aulas de literatura afro-americana, Mullen também dá um curso sobre poetas negros americanos contemporâneos. Muitos deles nasceram demasiado tarde para poder integrar o Black Arts Movement dos anos 60. “Foi um movimento importante, como uma segunda 'American Renaissance', depois da dos anos 1920. Abriu um novo território e afirmou que tínhamos uma linguagem, uma literatura, uma cultura. À minha mãe ensinaram que os negros eram desprovidos de cultura própria. Eles vieram provar o contrário. Agora os escritores negros estão mais integrados: fazem parte do sistema educativo, são membros de organizações literárias, estão a ocupar um território na poesia que antes não existia porque as pessoas não liam os seus livros, não se interessavam por eles.”

Uma dessas organizações de escritores negros americanos é a Cave Canem, fundada por Toi Derricotte e Cornelius Eady em 1996. “A intenção é dar maior visibilidade a estes poetas no contexto da cultura americana. O Black Arts Movement não foi visto como parte da cultura americana. A grande diferença é que os artistas negros hoje já não são vistos como marginais em relação a essa cultura”, explica, enumerando poetas e prosadores que venceram o Pulitzer, e "até uma vencedora do Nobel [Toni Morrison, em 1993]”. “Os jovens poetas negros hoje têm muitos mais modelos com prestígio.”

Harryette Mullen, que foi uma das instrutoras do Cave Canem, tem visto alguns dos seus alunos, como Terrance Hayes, ganharem prémios de poesia. “São muito diferentes entre si. Em relação a movimentos anteriores, há maior igualdade de género e não precisam de se guiar por uma agenda política em particular. O Cave Canem existe para incentivar os poetas a escreverem a poesia que querem escrever, para quebrar o o estigma de que um poeta negro tem de escrever o que se espera que seja a poesia negra.”

Ela não o faz. Vai ao centro da palavra poesia e traz significados possíveis. “Acho que a poesia acciona o cérebro, por exemplo quando cria falhas, quando abre brechas que é preciso preencher.” E volta à língua, à identidade. “Tenho estudado a minha árvore genealógica. Consegui recuar uns 300 anos e nenhum dos meus antepassados, até onde fui, nasceu em África. Nasceram na Virginia, na Carolina do Sul e na Carolina do Norte, na Georgia. Sou americana, acho que tenho de admiti-lo.”

Sublinha esse facto "porque parece que é preciso andar a dizer isto, ainda mais agora”. É o agora depois do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Não tem dúvidas de que Obama fez diferença. Mas... “Agora temos a reacção. Trump foi eleito para derrubar tudo o que Obama construiu.” Na saúde, na imigração. "Somos um país a envelhecer, precisamos de imigrantes, especialmente dos mais jovens. Não entendo a visão curta desta política; deveríamos estar a dar as boas-vindas aos imigrantes. Em Los Angeles é preciso ser muito distraído para não perceber que eles fazem grande parte do trabalho essencial. É perverso querer o trabalho feito e ao mesmo tempo não querer as pessoas. E vemos como estão a ser recuperadas palavras de antes. Como as que James Baldwin proferiu há décadas. Estamos a ler James Baldwin agora porque não o ouvimos da primeira vez. Ele foi tão profético! Disse-nos que a mudança tem de ser uma combinação de raiva e de perdão.”

O semblante de Harryette Mullen muda, então. Quer falar da diversão que é jogar com as palavras. Ter o dicionário como ferramenta e matéria-prima. Ir aos limites, explorar cada camada, desafiar sentidos. “A poesia é onde a linguagem brinca consigo mesma. Por alguma espécie de razão gosto de chalaças, de trocadilhos; as palavras são escorregadias e podem assumir muitos significados. Na poesia estarmos sempre a ver como dizer o máximo com o mínimo. Há uma energia, uma ignição que se dá quando certas palavras se juntam.” 

Artigo corrigido dia 24/6 às 13h07: altera a ortografia de Safo