Concursos de beleza: e depois do biquíni?

O Miss America vai perder, este ano, a competição de biquíni. Por cá, os concursos de beleza já não têm a mesma importância que há alguns anos, mas Portugal continua a enviar representantes para os eventos internacionais.

Estados Unidos
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Cara Mund, Miss América 2018, Bismarck, Miss Dakota do Norte, Atlantic City, Miss Louisiana, Miss Texas
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Miss América, em Setembro de 2017 MARK MAKELA/REUTERS GETTY IMAGES

Há pelo menos 50 anos que as feministas lutam contra os concursos de beleza. Foi em 1968 que um grupo de centenas de mulheres se juntou em Atlantic City para protestar contra o Miss América. Atiraram soutiens, cintas, rolos, perucas e outros objectos para o “caixote do lixo da liberdade”. E só não atearam fogo porque não conseguiram a devida licença, mas ainda assim deram origem à expressão bra burning (queimar soutiens). 

Meio século depois, os concursos de beleza continuam a eleger a mulher “ideal”, de acordo com determinados padrões de beleza e com outros parâmetros. Em Portugal já não acontecem com a mesma pompa e circunstância de outrora, mas noutras partes do mundo, como na América Latina e nos EUA, continuam a atrair audiências de milhões. 

A organização do Miss América, o concurso de beleza mais antigo dos EUA (fundado em 1921), anunciou no início do mês o fim da fase dos biquínis. No concurso, as concorrentes desfilavam em trajes menores (e de saltos altos) em frente ao júri. Isso vai mudar. “Vamos deixar de julgar as nossas candidatas com base na sua aparência física”, declarou Gretchen Carlson, presidente da direcção do Miss América. 

A competição parece mais disposta a descaracterizar-se do que a pôr termo à sua existência. A Miss América define-se, agora, não como um pageant (concurso de beleza), mas antes como uma competição com outros contornos, e quer centrar-se, cada vez mais, no propósito de distribuir bolsas de estudo entre as jovens concorrentes. 

A decisão acontece no 50.º aniversário dos protestos feministas e também um ano depois do outro grande concurso — o Miss USA, que Donald Trump geriu até 2015 — ter recebido a sua primeira concorrente transgénero. Acontece também na onda do movimento #MeToo, sendo que a decisão de mudar o concurso foi encabeçada por uma das mulheres (Gretchen Carlson) que apresentou queixa de assédio sexual contra o antigo presidente e fundador da Fox News, Roger Ailes, levando à sua demissão

Já em 2014, a organização do Miss Mundo chegou à conclusão que não conseguia justificar o propósito da ronda de biquínis, eliminando-a do concurso. A organização do Miss Portuguesa, que apura a representante para ir a essa competição internacional, deu um passo semelhante um ano antes, banindo essa parte da gala final — sendo que o corpo das concorrentes continua a ser avaliado, mas antes, durante as três semanas de estágio. Isidro de Brito, presidente da organização, explica a decisão: “Tomámo-la por uma simples razão — não entendemos que seja fundamental existir na gala final, quando estamos a tratar de uma gala com todo o glamour. Não faz sentido estarmos a pôr as meninas em fato de banho. Mas isto não quer dizer que se deixe de considerar a beleza e que deixe de se fazer a avaliação física.” 

O presidente da organização supervisiona ainda o concurso Miss Universo Portugal — cuja vencedora vai depois ao Miss Universo em nome do país —, bem como a selecção das finalistas para o Miss Grand International, Miss International e Miss Supranational.  

Longe vão os tempos em que o apuramento da miss que iria representar Portugal passava na televisão e cativava a atenção de uma boa parte do país. Na altura, o concurso chamava-se Miss Portugal. Chegou a ter uma dimensão simbólica para a nação, quando entre 1971 e 1974 integrou concorrentes de Angola e Moçambique. Teve a última edição em 2004, com a eleição de Marina Rodrigues. 

Um concurso sem sentido 

Mais de uma década após o final do concurso, Ana Borges — que além de ter dirigido a agência de modelos Elite Model Management, fez parte do júri do Miss Portugal —, reflecte sobre a decisão do Miss América: “Na minha opinião, sustentada com anos de experiência pessoal e profissional no universo dos modelos, esta alteração não representa vitória alguma. É apenas o sistema a mostrar que quer continuar a sobreviver, mais uma lufada de oxigénio para um tema obsoleto”, comenta por email ao PÚBLICO.  

A ex-manequim, que foi responsável também pela competição Elite Model Look, considera que os concursos de beleza “foram ultrapassados pelos concursos de modelos, que representam uma carreira, um futuro, em vez de um ano de reinado”. Além do mais, acrescenta, “noutros tempos fazia sentido, era uma forma de se dar a conhecer, sair da casa dos pais, viajar”. Os tempos mudaram. “Estes concursos já não fazem sentido nos dias de hoje.” 

Para Marina Rodrigues (33 anos), natural da Madeira, foi a promessa de uma carreira na indústria da moda que a motivou a concorrer a Miss Portugal, em 2004. “Sempre achei um mundo glamoroso, do qual gostava um dia de fazer parte, e quis representar o nosso país. Acabávamos por levar a nossa bandeira atrás e era um cargo muito importante”, conta ao telefone.  

“Não vejo [o concurso de beleza] pelo lado negativo”, comenta a última Miss Portugal. “Gosto do meu corpo e não me importei de o mostrar. Até gosto de ser um exemplo de um corpo saudável, trabalhado com exercício físico e boa alimentação.” 

Nos EUA, a decisão da organização do Miss América provocou um misto de reacções opostas. Enquanto a Miss Ohio criticou a opção — pois considera-a uma “proibição” e é da opinião que “ninguém vai querer ver” o concurso no seu novo formato —, a Miss América 2008 veio escrever no Facebook que a competição de biquínis “perpetuava a objectificação das mulheres mais dos que as empoderava”. Kate Shindle, coroada Miss América em 1998, lembra, citada pelo New York Times, que se sentiu “estranhamente confiante” quando desfilou em biquíni mas que, ao mesmo tempo, não conseguiu “processar tudo” na altura. “É uma sensação estranha que não antecipamos — dar a estranhos uma espécie de posse sobre o nosso corpo”, revela. 

Para a socióloga Cristina L. Duarte, autora do livro Moda e Feminismos em Portugal — O Género como Espartilho, os concursos de beleza podem ter efeitos opostos no que toca à questão da discriminação de género e desigualdade. “Primeiro, como concurso que é, concorre para criar (des)união entre as mulheres”, começa por explicar, numa resposta por email. “Se depois advém algo positivo para as mulheres — dado que o concurso em análise já tem até uma certa visibilidade — depende do trabalho que cada um(a) fizer (a solo e em grupo)”, acrescenta. 

“A eliminação dos biquínis, puristas que me desculpem, é um pormenor. Mas de facto tem de se começar por algum lado. Os feminismos precisam de todas 
os. Com a projecção mediática obtida ao longo dos anos, o concurso Miss América terá também um potencial feminista porque catalizador de capacitação”, diz a socióloga. 

Isidro de Brito considera que as críticas aos concursos de beleza demostram “desconhecimento” sobre a forma como funcionam hoje em dia. E o que estes concursos pretendem hoje demonstrar é que as mulheres “podem ser bonitas, charmosas, elegantes e competentes”. E que a ideia de que beleza e inteligência não andam lado a lado não passa de um preconceito. “Os concursos de beleza devem continuar porque, quer queiramos quer não, a beleza masculina ou feminina continuará a ser valorizada.” 

De acordo com o presidente da organização portuguesa, há uma série de regras referentes à idade e vida pessoal das concorrentes que poderiam ser actualizadas, mas as decisões acabam por estar condicionadas pelas directivas internacionais. “Não podemos eleger uma mulher que seja casada e que depois o concurso internacional não aceita”, justifica. “São regras e nós aceitamo-las, mas julgo que tem havido evolução.”  

Contudo, mostra-se crítico em relação a algumas imposições que vêm de fora: “Se nos concursos internacionais vemos tantas vezes o exagero de plásticas, não consigo entender por que é que uma jovem casada, ou divorciada, ou que seja mãe — e que até pode ser uma belíssima mãe — não pode concorrer.” 

Ao longo de décadas, os concursos de beleza foram deixando cair algumas regras e introduzindo outras, contornando as críticas. Em 1935, por exemplo, o Miss América acrescentou a competição de talentos, demonstrando que as mulheres não eram julgadas apenas com base na sua aparência, e nos anos 1940 abandonou a regra introduzida na década anterior que ditava que as concorrentes tinham de “ter boa saúde e ser da raça branca”. 

O Miss América começou como uma competição de fatos de banho. “De certa forma, poderíamos dizer que as mulheres participavam nestes concursos porque os viam como veículos para um grau de liberdade sexual”, comenta o historiador Blain Roberts, autor de Pageants, Parlors, and Pretty Women: Race and Beauty in the Twentieth-Century South, citado pela revista Time. Com o passar do tempo, a própria sociedade ultrapassou os concursos de beleza. “Todas as coisas que ao início eram possíveis fontes de libertação tornaram-se limitadoras”, aponta Roberts. 

A recente decisão do Miss Amé-rica mereceu o aplauso de algumas vozes na imprensa. Outras anseiam pela única mudança que consideram significante: que o concurso deixe de existir. Já para a conhecida jornalista e feminista Gloria Steinem, citada pela Smithsonian Magazine (de acordo com declarações para o documentário de 2002 Miss America), o segmento dos fatos de banho era “provavelmente a parte mais honesta da competição”. “Porque é mesmo sobre o corpo, tem que ver com olhar para as mulheres como objectos.”