Nem só do pimba e da sardinha se faz o arraial de Santo António

São às dezenas por toda a cidade. Uns seguem a tradição, outros arriscam e deixam o pimba, as sardinhas e as bifanas de lado, para terem opções mais inclusivas – da música à comida vegan. Na rua ou em casa (já há quem prepare arraiais ao domicílio) não faltam opções para quem quer uma festa mais alternativa.

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Nas festas de Lisboa, há arraiais para todos os gostos Daniel Rocha
Fachada, arquitetura
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Nas festas de Lisboa, há arraiais para todos os gostos Daniel Rocha

Por todo o lado que se olhe para Lisboa não há como fugir aos Santos Populares. São as mesas montadas no meio da rua, as bandeirinhas e flores penduradas, os fogareiros que começam a acender-se ao final da tarde, ao mesmo tempo que começa a música e se arriscam os primeiros passos de dança. Há dezenas de arraiais espalhados pela cidade, uns mais tradicionais do que outros, tentando olhar a todos os gostos. 

Ainda que não seja consensual, são vários os autores que remetem as origens das festas dos Santos Populares para antigos rituais pagãos de celebração do solstício de Verão (a 21 de Junho) ou das colheitas. A verdade é que as festas de Junho, de norte a sul do país, foram sobrevivendo ao tempo e são ainda hoje data de festejos, um ponto de encontro entre a população com muita música, comida e dança à mistura. 

Na noite (e no mês) mais longa do ano para os lisboetas, há sempre quem queira fugir da tradição e puxar a brasa a uma coisa mais alternativa. Há até quem já tenha substituído a sardinha pelo carapau em nome da sobrevivência da espécie.

Se não quer ir ao arraial, ele vem até si 

Para quem não gosta de grandes confusões e prefere o conforto do lar, mas também não quer abdicar da festa rija, já há quem organize arraiais ao domicílio. O serviço chama-se Sardinhada na Firma e é providenciado pela Peixaria Centenária. A premissa é simples: um dos critérios para fazer uma boa festa é ter uma boa sardinha. E eles garantem que a têm. 

Faz agora cinco anos que a Peixaria Centenária abriu um espaço na Praça das Flores (tem outro no Mercado de Campo de Ourique) e ali montaram um arraial. A festa correu-lhes bem, foi concorrida e animada. Aperceberam-se de que tinham jeito para dar festas. “Tem que ver com a nossa linguagem de peixeiros”, assume um dos sócios, Rui Quinta — e boa sardinha. Então porque não levar a animação e as sardinhas às casas ou às empresas dos outros? É assim que surge o Sardinhada na Firma, onde a única exigência para se aceder ao serviço é reunir um grupo com, no mínimo, 30 pessoas.

Depois, a bola passa toda para os “peixeiros”. São eles que montam o grelhador, as luzes e a decoração. Levam as sardinhas, as fêveras, a salada, o pão, o carvão e o homem do assador. E também não falta nem a cerveja, nem a sangria, garantem. Nem uma “boa playlist” de música pimba para pôr toda a gente a dançar. 

No ano passado, fizeram 12 festas. Este ano, diz Rui, vão a caminho do mesmo número. A expectativa é a de chegarem às 20, já para lá das festas populares. O serviço está disponível até final de Setembro e, este ano, vai chegar também ao Porto.

Opções vegan e solidárias 

Para quem quer pôr de lado a sardinha e a bifana durante as festividades, há um arraial vegan num dos bairros mais típicos de Lisboa: a Bica. Na Eco Vegan Concept Store, na Rua das Chagas, hoje, das 19h00 às 22h00, também há bifanas, mas de seitan (alimento que deriva do glúten), em pão saloio, hambúrguer de “carne” jaca em bolo do caco, quadradinhos de chocolate e de coco, pastéis de nata vegan e ainda outras opções sem glúten, para que ninguém fique de fora da festa. 

As opções para quem não consome produtos de origem animal ou quer simplesmente ter uma alternativa à bifana e à sardinha aparecem já com mais frequência nos arraiais. 

Quem quiser ajudar o Grupo de Acção Social do Tagus (GASTagus), ligado ao pólo do Instituto Superior Técnico no Taguspark, a enviar voluntários para outras terras lusas e além-fronteiras como a Guiné, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, poderá consumir alguns destes produtos vegetarianos nas bancas que estarão na Rua do Limoeiro, entre a Sé e o miradouro das Portas do Sol. 

Já há alguns anos que montam as barraquinhas, mas este ano quiseram ser “mais sustentáveis”, diz Margarida Malvar Santos, uma das orientadoras do projecto. O menu inclui hambúrgueres e espetadas vegan, mas também bifanas e sardinhas, “para que não se perca a tradição”. Tudo isto regado com sangria, cerveja ou vinho tinto. Há ainda “shots solidários”, de vodca e sumo ou de tequilla

Na Associação Renovar a Mouraria, o peixe grelhado na festa dos santos é outro. Em conjunto com a PONG — Pesca (Plataforma de Organizações Não Governamentais Portuguesas sobre a Pesca), a associação quis substituir a sardinha pelo carapau, aliviando assim a pressão que existe sobre esta espécie.

Sustentabilidade é que o que se quer também nestas festas. Na 11.ª edição, o “Arrrrraial” na Mouraria escreve-se com cinco “r”: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar. Os copos são reutilizáveis, a loiça é biodegradável, as senhas são de papel reciclado e os restos de comida serão colocados num compostor.

Um arraial com sabores do mundo 

Nos Anjos, as sardinhas e as bifanas também não entram grelhador. Música pimba também não há. Os Anjos 70 — Núcleo Criativo do Regueirão dos Anjos — querem que os Santos Populares se celebrem com comida de todo o mundo. No dia 12, os petiscos são pratos japoneses, sírios, indianos e cabo-verdianos. E com opções também a pensar nos vegan. 

A partir das 18h00, há música ao vivo com Iguana Garcia, Peter Gabriel Duo (Pedro Alves Sousa e Gabriel Ferrandini) e Tofu. A festa continua na tarde do dia 13, dia de Santo António e feriado municipal. Jibóia, Quelle Dead Gazelle e Mazarin vão passar pelo palco do número 70 do Regueirão dos Anjos, a partir das 15h00. Há ainda pintura de murais e sessões de tatuagens. A entrada é livre.  

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