Tábua

Gente feliz com livros

Na segunda noite da Tábuas de Leitura, o tema era “Ser feliz a ler”. Chovia e “havia bola”, mas a biblioteca encheu-se de gente.

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A Biblioteca João Brandão acolhe na Tábua de Leituras quem é “feliz a ler” DR

Na noite de quinta-feira, a Biblioteca João Brandão levou a comunidade a escutar Alberto Pimenta, Álvaro Magalhães, Luísa Ducla Soares, Mia Couto, Raquel Patriarca, entre outros autores de língua portuguesa. Era a rubrica “um minuto de leitura”, que, ao multiplicar-se por todos os que quiseram ler em voz alta para a audiência, resultou em perto de duas horas. Ninguém respeitou o “minuto”. Ninguém se importou.

Crianças e pais, frequentadores da biblioteca, mediadores de leitura e até um vereador escolheram textos para partilhar com uma plateia diversificada, atenta e participativa.

“Ser feliz a ler é isto”, diria o escritor Ricardo Mota, na mesa-redonda que se seguiu: “Ler Alberto Pimenta para crianças do 1.º ciclo, numa noite chuvosa de Junho em que joga a selecção [de futebol].”

Mas felicidade não significa facilidade, alertou Manuela Pargana, coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares: “Ser feliz não é uma ideia que se adeqúe absolutamente à ideia da leitura, porque ler é um esforço. É complexo.”

Recordou depois como foi feliz quando conseguiu descodificar o código da escrita. “Aquilo que eram uns gatafunhos numa folha de papel passou a ser legível.” Como se passa com todos nós, não é nesse momento inicial que se alcança “a verdadeira compreensão nem interpretação”, mas é “o ponto de partida”.

A grande descoberta desta professora foi a de poder “conhecer universos e realidades diferentes através das palavras e das experiências de outros”.

Fazer perdurar o prazer

Manuela Pargana falou ainda no fascínio por alguns livros, que nos fazem ler devagar. “Vamos travando, porque nos está a dar um gozo imenso e queremos fazer perdurar essa felicidade.”

Luís Santos, subdirector da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, realçou o papel e influência da Biblioteca João Brandão na construção da comunidade. E defendeu que uma biblioteca municipal é “muito mais do que quatro paredes num edifício, é uma casa aberta, uma casa de sonhos”.

Lembrou ainda que é “um local onde não se paga o acesso à informação e onde se “promove a cidadania”. Para concluir que é “um serviço verdadeiramente democrático”. Sempre se sentiu “feliz no meio dos livros e dos utilizadores das bibliotecas”.

Tudo começou lá atrás, na infância, quando ajudava o pai a distribuir obras do Círculo de Leitores, editora de que era assistente. “O primeiro livro que li foi a Enciclopédia Universal. De A a Z”, recordou divertido.

João Brandão, um bom malandro

Quem também é feliz com livros, sobretudo os que se debruçam sobre João Brandão, é José Pratas. Ex-polícia de 84 anos, nascido em Midões, gostaria de modificar a ideia que as pessoas têm do seu conterrâneo, acusado de vários crimes graves, e que viveu entre 1825 e 1880. “Tenho simpatia por ele por causa dos livros que li, uns nove ou dez. E por ter ali a casa na terra, Casal da Senhora”, diz ao PÚBLICO.

“Eu uma vez disse ao professor José Hermano Saraiva que o João Brandão era um santo”, conta. E prossegue, admitindo: “Depois fui ler o que ele escreveu quando esteve preso e vi que confessou alguns crimes.” Percebemos então que temos perante nós um polícia que perdoa o prisioneiro.

PÚBLICO -
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José Pratas, ex-polícia, gostava de modificar a ideia que as pessoas têm do seu conterrâneo João Brandão DR

“Ele tinha de tudo. De bom, de mau, mas foi perseguido e atacado a vida inteira, naquelas lutas entre liberais e miguelistass. Logo quando ainda tinha só três anos e até estava com sarampo, foi atirado da carroça pelos inimigos do pai, o Manuel Brandão”, discorre, enquanto nos mostra fotos de João Vítor da Silva Brandão como se fosse seu familiar.

E conhece os esconderijos “onde se acoitava mais o pai”. Descreve um deles, na Quinta de Frei Jacinto: “Uma grande rocha, com a recolha por baixo e um género de uma chaminé, onde trancavam a porta.”

Entre o ter sido “salteador” ou “amigo da terra”, José Pratas quer valorizar mais esta última faceta, que o fizera até proteger famílias da “facção” contrária: “Aos 18 anos, vai guardar a casa de Dona Maria Geraldes, de Vila Pouca.”

Conta ainda como o seu herói “foi em degredo para Angola, explorou uma fazenda (de S. Pedro), casou com uma mulata (pessoa honesta que sempre se dedicou ao marido) e foi traído pelo sócio (senhor Braga), que o denunciou às autoridades para ficar com a quinta e as coisas dele”.

Chegou a ter uma filha, Deolinda Brandão, “tenho lá uma fotografia dela num quadro”.  

Segundo este admirador de Brandão, há quem diga que foi envenenado pelo sócio e quem diga que foi morto pelos primos. “Em Angola, os locais ainda hoje adoram a primeira sepultura dele, junto a um embondeiro. Agora já levaram os restos mortais para o cemitério.”

Depois, conta: “Dizem que dois tenentes foram lá desenterrar o corpo, cortaram-lhe a cabeça, puseram-na em aguardante para a levarem para autópsia em Luanda.” E confirmaram que sim, que era ele.

A filha de João Brandão chegou a querer comprar a casa do pai, mas não foi possível. “A senhora que lá estava não vendia por nada.” E José Pratas já há muito que não sabe de Deolinda, mas tem pena.

Uma rocha a abanar sobre o Mondego

A Tábua de Leituras encerrou na noite de sexta-feira com um momento musical, pelo grupo Crescer na Biblioteca, e uma sessão de contos e leituras, com Dolores Tavares, Cristina Taquelim, Maurício Leite e José Mauro Brant.

O dia tinha começado com um passeio até Póvoa de Midões, para dar a conhecer o Penedo Oscilante (na versão popular… Penedo C’Abana). E abana mesmo.

Num belo cenário natural sobre os meandros do Mondego (que vai cheio), houve tempo para uma das filhas da designer homenageada nesta edição, Rê Fernandes, ensinar os visitantes a respirar. E ainda se escutou um conto de Marina Colassanti pela voz de Ana Paula Neves, responsável pela Tábuas de Leitura.

Numa breve paragem junto à casa que foi de João Brandão, podia ler-se a inscrição: “A liberdade é o maior e melhor bem do homem.” As bibliotecas sabem isso.