Em anos de eleições, Tomás Correia gasta mais do dobro em publicidade

Em ano de eleições dos órgãos sociais, a Associação Mutualista Montepio Geral mais que duplica os investimentos em marketing e publicidade, que rondam, em média, 1,5 milhões de euros. Em 2015, quando Tomás Correia foi reeleito, a associação gastou 3,7 milhões. Uma tendência que estará a repetir-se em 2018.

Carlos Tavares, Mutualismo, Portugal
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Miguel Manso

Com a aproximação da ida às urnas dos associados da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) para a eleição da equipa que vai gerir a instituição no triénio de 2019/2021, uma votação agendada para Dezembro de 2018, a instituição presidida por Tomás Correia voltou a aumentar os seus investimentos na área de marketing e publicidade.

Neste momento, por exemplo, está a passar nas televisões, nas rádios, nos jornais e outdoors uma campanha do Montepio — com o lema “O que fazemos pelos outros diz muito sobre nós” — e que recorre, como é habitual, a caras conhecidas do grande público (entre elas há apoiantes de Tomás Correia em eleições anteriores), que enaltecem o apoio dado pelo Montepio aos sectores da cultura e do desporto, assim como da economia social e da cidadania.

Nos círculos que contestam Tomás Correia, a iniciativa está a levantar ruído, por confirmar a tendência do gestor de afectar recursos adicionais às áreas de marketing e de publicidade em períodos pré-eleitorais, em vez de os repartir ao longo dos anos.

António Godinho, que nas eleições de 2015 encabeçou uma das listas de oposição a Tomás Correia, que foi derrotada, interpelado pelo PÚBLICO sobre o tema, comentou que “a campanha da AMMG que está a correr nos meios de comunicação social, mais do que servir a instituição, visa lançar a campanha eleitoral dos que agora estão no poder” ou de quem estes se preparam para apoiar. Godinho diz que vai confrontar Tomás Correia com a situação e fala num objectivo escondido: “Perpetuar no poder quem já lá está.”

“O método é recorrente de três em três anos e, mais uma vez, em 2018 parece estar a repetir-se, com os investimentos em marketing e publicidade a baterem todos os recordes, o que nos vai obrigar a questionar a decisão de gestão”, defende Godinho, que foi apoiado nas últimas eleições por figuras conhecidas do sector político como António Bagão Félix, do CDS/PP, ou João Proença, do PS.

Basta a leitura dos números divulgados pela associação nos últimos seis anos para tirar a fotografia das prioridades: em 2011 (o primeiro ano em que a mutualista faz publicidade separada da Caixa Económica) Tomás Correia aplicou na área de marketing e de publicidade apenas 206 mil euros, mas em 2012, ano de eleições, o investimento subiu para 1,105 milhões, alcançando em 2013 os 1,456 milhões de euros e, em 2014, o valor de 1,706 milhões de euros. 

Mas foi, em 2015, novamente em ano de eleições, que os gastos do Montepio em publicidade surpreenderam, ao dispararem para 3,733 milhões de euros, para regressarem em 2016 (1,657 milhões) e em 2017 (1,387 milhões) aos níveis anteriores.

Sublinhe-se que em 2015 a associação passou, pela primeira vez em 178 anos, a linha vermelha, com prejuízos de 393 milhões de euros. Contas feitas, as perdas do grupo Montepio, somando os prejuízos da associação e os da Caixa Económica, o seu principal activo, totalizaram entre 2011 e 2015 mais de mil milhões. 

O PÚBLICO questionou fonte oficial da AMMG sobre a verba a investir em 2018 em marketing e publicidade e qual o valor expectável para 2019, mas não obteve resposta.

Está ainda por clarificar se Tomás Correia se vai recandidatar pela quinta vez à presidência da AMMG, ou se, dadas as condições, nomeadamente, o seu nome constar de inquéritos em curso no Ministério Público e no Banco de Portugal, optará por se associar a uma lista que pode vir a ser encabeçada por um gestor da sua órbita que mereça a confiança da tutela.

Enquanto não é conhecida a decisão, os meios da oposição à actual gestão movimentam-se para encontrar um candidato alternativo a Tomás Correia, agregador das várias sensibilidades existentes dentro do grupo Montepio, e que tenha condições de disputar as eleições que vão decorrer em Dezembro de 2018.

Para unificar as diferentes forças, e criar dinâmica eleitoral, foram convocados encontros para reflectir sobre o futuro da economia social, designados “Jornadas de Reflexão Mutualista”. Para Lisboa está agendada para quinta-feira, 7 de Junho, pelas 17h30, uma sessão no Auditório do Montepio Geral, na Rua do Ouro. A 21 de Junho será a vez de o Porto receber a iniciativa, que decorrerá no Ateneu Comercial, às 18h.