O Bergado e a Terebentina juntaram-se para fazer coisas no Porto

São artistas e músicos com uma ginástica de linguagens que vai do pincel ao saxofone e à performance. Saídos das Belas-Artes, estes recém-chegados ao circuito artístico underground da cidade abriram-nos as portas do seu pedaço do mundo.

Quarto
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O colectivo O Bergado no seu atelier Paulo Pimenta
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Penteado, coloração de cabelo
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Vêm de dois mundos criativos distintos – pintura e música – mas convergem na pulsão artística que reivindica o underground como modo de fazer e também no território onde se movem, o circuito independente do Porto. Saídos da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), mas dando mostras de uma ginástica de linguagens e expressões artísticas que lhes dá especial flexibilidade, o colectivo O Bergado e a banda Terebentina, duas facetas do mesmo grupo de jovens artistas, juntaram-se para fazer coisas. 

Bruno Duarte, Guilherme Oliveira, Ana Salt, Francisco Amorim, Sara Sousa, Francisco Oliveira, Luís Gigante, André Pereira e Tomás Mourão fizeram das Belas Artes o seu ponto de encontro, daí nascendo este vaivém entre pintura e música. Enquanto banda, os Terebentina acabam de ver confirmada a sua actuação na primeira parte do próximo concerto de Iceage no Hard Club, a 26 de Outubro. Isto enquanto têm no forno o lançamento (para muito breve) do álbum de estreia, a ser gravado nos Estúdios Promised Land, e cujo primeiro single, O Outro, já pode ser ouvido no bandcamp

Mas primeiro veio a pintura: do currículo deste colectivo constam duas exposições realizadas em casas ameaçadas por ordens de despejo, no ano passado, e um mural colectivo pintado em Barcelos a convite da última edição do Festival Milhões de Festa. Entretanto trocaram os ateliers da faculdade pelo seu próprio espaço, um lugar de experimentação recheado de telas, maços de Camel vazios e materiais encontrados na rua e reconvertidos em suportes para pintar.

Da ligação comum ao fazer artístico dos membros deste bando surgiram duas operações que dizem não estar separadas, influenciando-se mutuamente em cada traço e em cada acorde. O Bergado, cujo nome aplica a pronúncia do Porto ao termo "vergado" – um indivíduo que carrega o peso do mundo, referência que foram buscar ao Mito de Sísifo de Albert Camus –, defende a democratização total da expressão artística. “A experiência de aliar música e pintura está completamente ligada à nossa experiência quotidiana; trata-se, literalmente, de ligar a vida e a arte, o que faz com que a nossa influência para criar seja maioritariamente a perspectiva local”, dizem-nos os membros do colectivo, que fazem questão de se exprimir como um grupo e não individualmente. 

Do-it-yourself

Na sua pintura, O Bergado evoca uma certa nostalgia pelo expressionismo alemão, nomeadamente pela acção do movimento Die Brücke, e pela cena de Nova Iorque dos anos 1980. Num contexto em que a arte contemporânea está saturada de intelectualização, e em que para se ver arte “perceber” parece um requisito obrigatório, preferem lidar com o humano, com a emoção, com a poesia das coisas, ao mesmo tempo que tentam contrariar a ideia de legenda do quadro: “Interessa-nos a forma pura, que reside na própria obra e não na explicação." Perante uma “sociedade gélida, obcecada pela perfeição”, tanto O Bergado como a Terebentina fazem questão de assumir “o erro, o cru, a humanidade, a fisicalidade"; é aí, acreditam, que "reside a verdade".

Embora admitam agir em reacção a um estado de coisas, não se trata de estar contra algo específico de “forma bélica”: assumem-se sobretudo como indivíduos entusiasmados com a existência do mundo e com a interacção com as pessoas. Daí que, no auge da polémica sobre as condições logísticas da FBAUP, após as inundações que em Março danificaram materiais e telas dos alunos, o colectivo tenha preferido simplesmente ausentar-se dos ateliers da instituição, que trocou pelo seu próprio espaço. "Estamos cerca de 60 pessoas num único atelier, um cenário dantesco, quase apocalíptico. Há cerca de 10/15 anos, o mesmo espaço servia para quatro pessoas. Queremos estar à parte disso, não estamos em confronto directo com a faculdade, mas também não estamos lá, essa é a nossa reacção”, dizem ao PÚBLICO.

Fora dos pavilhões da FBAUP, têm prosseguido a sua acção numa atitude imbuída do espírito do-it-yourself, associando-se a outros colectivos baseados no Porto, como a Favela Discos e a P a r v a, e ao artista expandido Nuno Marques Pinto, com os quais partilha uma forma menos ortodoxa de fazer acontecer e uma lógica de entreajuda, interdisciplinaridade e colaboração. Para eles, “qualquer sitio é uma galeria”.

Não parar

Para o seu projecto musical, que conta com seis membros d'O Bergado, o colectivo adoptou o nome da terebentina, um diluente para tintas destinadas à pintura de óleo sobre tela, altamente inflamável. “A atitude que temos perante a música pode ser um bocado comparada ao próprio comportamento da terebentina: ao aplicar este diluente num quadro, tudo se mistura automaticamente. É corrosivo, inflamável mas também é fluido."

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Neste campo artístico expandido, admitem que, “apesar de ser uma coisa moldável no momento, há uma estrutura que se impõe” à Terebentina. A banda, liderada por Guilherme Oliveira, que nos concertos anda em círculos num frente-a-frente com o público, de óculos escuros, tem uma vontade de se fazer ouvir que nos faz pulsar, nomeadamente em canções como Lápide de vidro, Eu, Bichos e O Outro, pelas quais passaram no seu concerto de 30 de Abril no Centro Comercial Cedofeita, organizado pelo colectivo independente P a r v a.

Numa banda que vai do free jazz à distorção, as influências incluem a new wave e os Sonic Youth, passando também por John Lurie, John Coltrane, Brian Eno, Nick Cave e por referências da música portuguesa como Pop Dell'Arte, Mão Morta, João Peste, Nuno Canavarro, Sereias e Julius Gabriel. 

Sonhadores e realistas ao mesmo tempo, propõem-se retratar esse gesto do agora mas há todo um futuro que querem tirar da gaveta: "Criar uma zine, ter um espaço de galeria que vise o descomprometido, não parar de pintar, não parar de tocar, não parar de produzir, continuar a criar."  

Texto editado por Inês Nadais