Editorial

O grande muro contra a globalização

Não há dúvidas de que esta será, a par da retirada do acordo de Paris, a medida com maior impacto global de Trump.

Donald Trump concretizou as ameaças e ergueu mesmo alguns muros. Ao contrário do prometido no caso do México, os muros anti-comércio global estão mesmo a ser erguidos, com grave prejuízo para o planeta. As tarifas ontem anunciadas ameaçam virar o comércio global ao contrário.

Não há dúvidas de que esta será, a par da retirada do acordo de Paris, a medida com maior impacto global de Trump. E pode mesmo ser a sua herança mais significativa. Um aumento de tarifas ao Canadá, China e União Europeia fará mais para matar a globalização do que qualquer conflito regional ou tweet escandaloso. O problema não está nas tarifas, que os mercados rapidamente adaptarão; está na ausência de princípios coerentes que permitam modelos de gestão de longo prazo. Tal como no rasgar do acordo com o Irão, levanta dúvidas sobre a fiabilidade dos EUA como parceiro internacional credível e coerente.

É verdade que em termos de comércio global há um caso para submeter sobre o estatuto da China: o entendimento do gigante asiático como país em desenvolvimento já não faz muito sentido face à realidade planetária e isso está a desestabilizar a economia. Mas não é isso que move Trump. O que o move é um desejo de atacar todos os não-americanos

É uma medida necessariamente populista, que põe em causa o tradicional estatuto de economia aberta dos EUA e pode prejudicar gravemente os seus interesses financeiros no mundo. É a teoria “Make America Great Again” aplicada aos negócios, mas com efeitos muito questionáveis. É até discutível que venha sequer a beneficiar os americanos que constituem a base de apoio do Presidente: as medidas vêm tarde demais para gerar emprego em várias indústrias do “rustbelt” americano, mas vêm em tempo para aumentar o custo de vida dos produtos mais baratos.

Mas mesmo isto está de acordo com a mundividência de Trump, que gosta de beneficiar os mais ricos enquanto deixa que os pobres se afundem mais e mais na escala da miséria. É a verdadeira quadratura do círculo: graças ao colapso capitalista americano, o mundo recebeu uma crise de proporções épicas que ajudou a fazer surgir o populismo de onde vem Trump, que agora estimula os nacionalismos económicos para reforçar os seus traços genéticos de capitalista monopolista.

Graças a Trump, os Estados Unidos vão sair desta presidência mais desiguais, menos solidários e mais extremados. Também graças a Trump, o resto do mundo vai pelo mesmo caminho.