Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: morrer

É-nos difícil encontrar a latitude certa entre o direito legítimo de escolher “morrer” e o de optar por deixar nas mãos do tempo a hora de “desaparecer”. Até porque a primeira hipótese obrigará sempre alguém a vincular-se à decisão, seja um médico, um familiar ou um amigo.

Fugimos desta palavra, excepto quando a usamos em expressões como “morrer a rir” (rir muito, estrondosamente) ou “morrer de amores” (estar muito apaixonado por alguém). Mas não adianta fugir do seu sentido primeiro, “perder a vida”.

Na próxima terça-feira, o Parlamento vai discutir e votar quatro projectos de lei sobre a despenalização da eutanásia, conceito que o dicionário regista de duas formas: “morte serena e sem sofrimento” e “prática pela qual se procura antecipar ou provocar a morte de um doente incurável ou terminal, para lhe abreviar a agonia ou para o poupar a um sofrimento excessivo”.

Diz ainda que “a eutanásia põe questões de ordem ética”. No debate político tem-se invocado mais “consciência” que “ética”.

A discussão anda à volta de sofrimento, dor, dignidade, direito, lucidez, autonomia, dependência, suicídio, medicina, olhados de vários ângulos e com intensidades diferentes.

Há muitas definições para o verbo “morrer”, uma das fontes consultadas ocupa duas páginas com esta entrada, o que é considerável para um dicionário comum. Algumas são novidade para nós, como “bater a alcatra na terra ingrata”, outras misturam significados e confundem-nos, como “experimentar uma forte sensação desagradável (moral ou física), sofrer muito”. Outras são mais objectivas: “Cessar de viver, perder todo o movimento vital.”

É-nos difícil encontrar a latitude certa entre o direito legítimo de escolher “morrer” e o de optar por deixar nas mãos do tempo a hora de “desaparecer”. Até porque a primeira hipótese obrigará sempre alguém a vincular-se à decisão, seja um médico, um familiar ou um amigo.

Para desanuviar, definições vindas do Brasil, em que “morrer” significa “deixar-se iludir”, “cair no logro” ou ainda, na gíria popular, “deixar a parada no jogo à espera que aumente”.

Lá e cá, cedo ou tarde, “a morte é certa”. Até o dicionário sabe isso. Não adianta tentar fugir.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO