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Maria Judite de Carvalho

A escrita certeira da angústia feminina

Foi ao fundo do universo feminino para o devolver em toda a complexidade. A sua obra, hoje quase desconhecida, trata da solidão e do silêncio, da perversão e da ironia. Vinte anos depois da morte, vai ser editada na íntegra. O primeiro volume sai esta segunda-feira, pela Minotauro.

Simone tinha uma voz "baixa e espessa", a de Mariana não tremia; António falava com voz "fraca, insegura", e a voz da dona da casa "era velha, rachada, monocórdica"; Mateus tinha uma voz macia, e a de Dores era "monótona e cansada". Luísa disse coisas numa "voz um pouco arrastada", a da mulher de Marcelino era "seca e extremamente amarga". Ao longo de 30 anos de escrita, Maria Judite de Carvalho (1921-1998) criou dezenas de personagens, a maioria mulheres. Em quase todas, a voz aparece como elemento definidor de carácter ou de estado de espírito. O que pode então a voz dizer acerca de uma personagem? Muito, conclui-se ao ler esta escritora silenciosa que fez precisamente do silêncio a matéria primordial de uma obra sobre a solidão sustentada no acto de observar e de ouvir os outros, de se observar e de se ouvir a si mesma.

“Quem, a não ser eu, perderia tempo a ouvir-me? Quem, se a minha vida ficou vazia de todos?”, interroga-se a protagonista de Tanta Gente, Mariana (1959), o seu conto mais conhecido e talvez o mais autobiográfico. Comecemos então pela voz para tentar chegar à escritora da reclusão e do abandono. Como era a voz de Maria Judite de Carvalho? "Quase arrastada, muito calma; as palavras demoravam a nascer; tinha uma voz reticente, como a obra dela, mas atenta ao interlocutor. Fazia pausas. No que escreveu, o leitor podia – e pode – preencher essas pausas com a sua própria experiência. Talvez por isso seja sempre tão actual", diz Inês Fraga, a neta de Maria Judite de Carvalho que tem acompanhado de perto a edição da obra completa da avó agora que passam 20 anos da sua morte. 

Escritora do íntimo, observadora do quotidiano que relatava sobretudo através do desespero e da solidão femininos, Maria Judite de Carvalho é autora de uma das mais complexas e estimulantes obras literárias da segunda metade do século XX português. Nos 13 livros que publicou, soube dar ao privado um carácter político; os seus contos e as suas novelas, o teatro, as crónicas e a poesia compõem um quadro social e de costumes difícil de superar. Pertence a um tempo, mas vai além dele, conseguindo a intemporalidade no modo como narra a dor, a desolação, a ruína privada, mergulhando no profundo das suas personagens, gente à deriva no dia-a-dia da cidade. Agustina Bessa-Luís chamou-lhe “flor discreta”; Jacinto do Prado Coelho dizia-a de uma “febre lúcida” e, no seu livro de ensaios Ao Contrário de Penélope (1976), escreveu: “O estilo de Maria Judite não apresenta um sinal de rebusca ou uma palavra a mais. Pelo contrário: sugere, penetra, define, magoa, pela estrita economia das palavras, por uma admirável contenção.”

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Maria Judite de Carvalho teve uma única filha com Urbano Tavares Rodrigues, que foi, além de seu marido durante mais de 40 anos, o seu primeiro leitor DR

Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), seu primeiro leitor, e seu marido durante mais de 40 anos, descodificou o projecto literário de Maria Judite de Carvalho: um projecto em que "as palavras não se pronunciam, mas se sugerem apontando para o mistério.” Na sua História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes sublinharam a “desapiedada denúncia da frustração e solidão humanas” daquela escrita. E, no dia da morte da autora, José Cardoso Pires definiu-a como “uma das personalidades mais notáveis da literatura portuguesa dos nossos dias”, acrescentando: “Se não foi, durante muito tempo, devidamente destacada, foi pelo próprio feitio e comportamento. Era uma pessoa profundamente recolhida e anti-exibicionista, mas com uma escrita de grande qualidade.” E agora, 20 anos depois, Inês, neta de Urbano e de Maria Judite, resume: “Ninguém lê a minha avó sem entrever a mulher que ela foi. Há na sua escrita uma profundidade a que pressentimos que só se chega pela vivência.”

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Maria Judite de Carvalho com Urbano Tavares Rodrigues DR

Mulheres em rectângulos

É uma discrição que parece ter transbordado da vida e da obra para contaminar também o seu percurso literário. Celebrada pela crítica, nunca conseguiu impor-se junto dos leitores, ficando reduzida a um culto que se foi estreitando com a passagem do tempo e com o desaparecimento dos seus livros nas livrarias. Mas essa contingência está prestes a deixar de ser desculpa para não ler Maria Judite de Carvalho. A partir desta segunda-feira, dia 28, e ao longo dos próximos dois anos, a Minotauro, chancela da Almedina, vai publicar a obra completa da escritora. Serão seis volumes, reunindo toda a sua obra e revelando ainda outra das singularidades criativas de Maria Judite de Carvalho: o desenho e a pintura. Todas as capas, bem como os separadores no interior de cada volume, reproduzem obras gráficas da escritora que morreu em Lisboa no dia 18 de Janeiro de 1998, aos 76 anos. “Queremos ver renascer a escrita dela e dá-la a conhecer às novas gerações”, afirma Sara Lutas, a editora, que confessa ter agarrado este projecto como “se agarra uma paixão”.

No livro que abre a colecção, e que junta Tanta Gente, Mariana, o seu conto de estreia, ao volume de contos que se lhe seguiu, As Palavras Poupadas (1961), há um auto-retrato da escritora, cabelos negros caídos sobre os ombros e um olhar grande que parece querer abarcar tudo o que tem à sua frente, curioso, como o dos que a olham e querem ler nele tudo o que não sabem de Maria Judite. Nesses olhos vêem-se os de Mariana, a sua némesis, quando também Mariana olhava, à noite, na cama, e via mais do que a realidade do tecto que tinha por cima. “O papel florido tem o fundo que deve ser branco amarelado pelo tempo e está cheio de manchas de bolor onde descubro carinhas risonhas, por vezes muito perturbadoras. Perfis quase diabólicos, estranhos e quietos no seu riso, tanto mais perfeitos quanto mais tempo eu levo a olhá-los sem bater as pálpebras, como se o meu olhar completasse involuntariamente o desenho, avivando-lhe o traço, dando-lhe vida e relevo. Outras vezes são caras horríveis, vazadas no estuque do tecto ou formadas pelas sombras que os móveis despejam de si quando acendo a luz…” Tudo se passa no universo doméstico, é de lá que Maria Judite de Carvalho olha o mundo; esse universo é o modelo a partir do qual alguém se há-de rebelar, nem que seja apenas intimamente, ou ao qual se acomodará, aquietando-se na tal febre, ora lúcida, ora toldada. Às vezes com desespero, outras com ironia, ou com os dois sentimentos, um paradoxo que soube transpor para o que escrevia, numa perversidade desafiadora. "Estou certa de que a maioria das mulheres escrevem e pintam com o mesmo espírito com que a minha mãe bordava toalhas de chá. Para sentirem que são úteis, de certo modo. Femininamente úteis. Para não se sentirem a mais neste mundo, pagarem, em suma, a sua estadia”, dirá Emília, uma das personagens de As Palavras Poupadas

E Maria Judite tanto pode ser Emília como pode ser Mariana, uma mulher que olha, de frente ou através de um filtro que terá a forma de uma cortina numa janela a dar para a rua da cidade, sempre a cidade.

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Apesar dos prémios, apesar da boa recepção crítica, Maria Judite de Carvalho nunca deixou de ser uma figura discreta, extraordinariamente silenciosa, da literatura portuguesa DR

“Lembro-me dela a desenhar em todo o lado. Tinha sempre um daqueles blocos Castelo junto ao telefone e desenhava rostos enquanto atendia as chamadas. Desenhava um e outro rosto de mulher, sempre a azul com uma caneta Bic. Uma vez pedi-lhe para me dar aqueles caderninhos e ela achou um disparate. Disse ‘filha, mas isto não tem qualquer valor!’ Eu adorava aqueles caderninhos”, conta Inês, afirmando que ela se censurava menos a desenhar do que a escrever. “Não valorizava muito, ao contrário da escrita, mas há uma ligação entre as duas coisas.” Na escrita, como no desenho ou na pintura, são quase sempre mulheres, e há um aspecto curioso: “As mulheres, na obra da minha avó, são pessoas muito presas nos rectângulos das suas casas, confinadas aos rectângulos das janelas, que se pontuam pela imobilidade. E nos quadros, ali estão elas, aprisionadas em rectângulos de madeira ou estáticas nos rectângulos de papel.”      

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Nascida em Lisboa, Maria Judite de Carvalho ficou órfã aos sete anos e foi educada por umas tias num casarão escuro — como a protagonista de Tanta Gente, Mariana DR

Inês Fraga fala da avô entre o entusiasmo e o pudor, com a ambiguidade que existe entre a vontade de a dar a conhecer para que seja lida e a consciência da obstinação com que sempre se preservou do olhar público. “Como neta quase me sinto a violar a sua vontade. É um equilíbrio muito precário entre o que acho que devo contar e o que ela sentiria, por ser extremamente reservada. Mas era uma grande escritora e os grandes escritores devem ser lidos”, diz-nos com a mesma alegria com que abriu as portas de casa e do espólio da avó a Sara Lutas. “Sabia que ela não podia estar em melhores mãos”, garante, lembrando os anos em que quase não se falou da obra de Maria Judite de Carvalho, em que nenhuma editora mostrou interesse em publicá-la.

Até há muito pouco tempo. “Houve um silêncio muito grande em volta da minha avó. A figura dela era tão silenciosa. Era tudo tão etéreo à volta dela...” Como se mesmo depois da morte essa espécie de nebulosa em que se moveu se mantivesse. Conviveram durante os primeiros 18 anos de vida de Inês, uma das duas filhas da única filha de Maria Judite de Carvalho com Urbano Tavares Rodrigues, Isabel Fraga, e desses anos a neta recorda uma mulher que era privada não por um qualquer tipo de sacrifício que tivesse imposto a si própria, mas por educação. “Ela foi educada assim; foi educada para a discrição, uma menina séria é contida, uma menina séria não manifesta as suas emoções. E ela nunca soube ser de outra maneira”, conta, como se a educação também se tivesse adequado a um modo de ser. Por isso, Maria Judite de Carvalho era conhecida como a mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, alguém que também escrevia e pintava, que era educada, que suportava que ele tivesse outras mulheres, que vivia na sombra. E a sombra parecia o seu lugar natural. “Nunca ouvi uma queixa à minha avó”, afirma Inês. 

Uma biografia que apenas se intui

Maria Judite de Carvalho nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1921 e ficou órfã aos sete anos. Foi educada de forma austera por umas tias num casarão escuro, como se conta. Quem ler Tanta Gente, Mariana encontrará paralelos entre a biografia e a ficção. Foi o então já marido, Urbano Tavares Rodrigues, que a incentivou a publicar esse conto. Os dois conheceram-se na Faculdade de Letras de Lisboa, onde Maria Judite de Carvalho, dois anos mais velha, o encontrou já professor. Casaram em 1949. Ela tinha 28 anos e ele 26. Pouco tempo depois iriam para França: perseguido pela PIDE, ele escolheu o exílio e ela seguiu-o. Primeiro para Montpellier, onde Urbano arranjou um lugar como professor, mais tarde para Paris, quando o marido se fixou.

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Ali conheceram não apenas alguma da elite portuguesa que fugira do regime de Salazar, mas também a francesa. Privaram, por exemplo, com Albert Camus, e também conheceram Simone de Beauvoir, um ícone do feminismo da época, que com os seus escritos influenciaria Maria Judite de Carvalho. “Apesar de muito marcada pelo Existencialismo e pelo Nouveau Roman, ela criou um estilo único que tinha a ver com o meio onde cresceu e com um carácter reclusivo”, refere Sara Lutas, que não esconde a emoção que foi encontrar os papéis escritos, as fotografias e as pinturas da escritora. Vai juntando peças de uma biografia dispersa, com muitos espaços por preencher, exactamente como a das suas personagens, sobre as quais nunca se sabe tudo. Apenas se intui. Dela, por essa altura de vida em comum com Urbano, sabe-se que voltou em 1950 a Lisboa, onde nasceu a filha, Maria Isabel de Carvalho Tavares Rodrigues (que assina como escritora com o nome Isabel Fraga), e que pouco depois regressou a França. Isabel ficou em Portugal, com os pais de Urbano. É então que Maria Judite começa a colaborar com a imprensa portuguesa, mais uma vez incentivada pelo marido.

“Ele foi sempre o seu primeiro leitor”, conta Inês, lembrando também o carinho com que o avô sempre tratou Maria Judite, “apesar de tudo”. "Tudo" eram os outros casos que nunca interferiram nesse pacto em que ele lhe elogiava a escrita e ela estava sempre lá, reservada, tímida, avessa à qualquer tipo de glória, como também tantas vezes Urbano Tavares Rodrigues a descreveu. “Ela gostava da luz filtrada que vinha do mundo do meu avô”, salienta Inês Fraga. “Nunca procurou mais, estabeleceu relações de afecto profundas com muito pouca gente”, conclui. Não tem dúvidas quanto à qualidade da escrita da avó, mas percebe porque nunca se salientou. “Não sei até que ponto ela conseguiria estar na dianteira. Ela estava confortavelmente apoiada na imagem do meu avó. Mas se o meu avô não tivesse tido o amor à literatura, e se ele não a tivesse elogiado de forma hiperbólica, talvez ela tivesse tido com a escrita a mesma relação que teve com a pintura.”

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Um paralelo: Clarice Lispector

Os livros foram saindo. Quase sempre breves, sempre elogiados. Inês lembra como a avó estava insegura quanto à publicação de Seta Despedida (1995). “Receava que fosse muito mórbido. Perguntou à minha mãe o que ela achava. Depois do meu avó, a minha mãe passou a ser a sua segunda leitora.” Teve o aval de ambos e esse livro de contos, o último, foi publicado e ganhou um prémio, tal como outros títulos. Em 1992, a escritora chegou mesmo a receber a Ordem do Infante D. Henrique.

Nada que a  fizesse sobressair. Sempre fora assim, mesmo quando Maria Judite de Carvalho surgia citada a par de outros nomes de mulheres da mesma geração: Natália Nunes, Irene Lisboa, Natália Correia, Agustina Bessa-Luís. “Ela sentia-se literariamente muito próxima de Irene Lisboa”, sugere Inês. Mas se sempre se foram estabelecendo paralelismos, há, contudo, um que se destaca, com uma mulher de outro continente: Clarice Lispector (1920-1977). Clarice e Maria Judite, as duas muito marcadas pelo mesmo livro de base: O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Uma e outra fixadas no mesmo desassossego íntimo do feminino, na solidão. Com Maria Judite, no entanto, a rasgar esse negrume com um humor tantas vezes surpreendente. 

Inês Fraga gostaria que a avó pudesse ressurgir, nem que fosse apenas com um pouco da luz que agora incide sobre Clarice. “Ela estava dispersa, inacessível a muitos leitores, e agora vai ter uma casa única e todos os livros disponíveis”, salienta Sara Lutas, que sublinha a intemporalidade da obra de Maria Judite de Carvalho.

Sara e Inês convergem no discurso sobre a escritora – "foi única”, dizem quase em coro – e partilham uma inquietação: aplicar ou não o Acordo Ortográfico ao textos originais. Inês explica. “Conhecendo a minha avó, sei que ela não gostaria deste acordo. Mas eu tenho uma Maria Judite em casa”, diz, referindo-se à filha de dez anos que já leu algumas coisas da bisavó, “e ela aprende com ele, e como ela todas as pessoas da geração dela". Esta edição, pergunta, "é para apresentar a Maria Judite de Carvalho a novos leitores ou para mantê-la num nicho"? "Sei que muita gente vai condenar esta opção, mas ela foi feita de modo muito pensado e consciente. Por exemplo, o Tanta Gente, Mariana faz parte do Plano Nacional de leitura, é uma das obras recomendadas no 12.º ano. Isso pesou. Tudo o resto foi respeitado, o modo como ela grafa os diálogos, por exemplo, com aspas no primeiro e no último livros e travessões em todos os outros”, argumenta.

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“Queremos que seja lida pelos mais novos, achámos que o mais importante é que seja mais lida”, diz Sara. Não é uma solução pacífica, concluem, e Inês tenta apaziguar-se. “O nome da minha avó era Judith e ela acabou por grafá-lo de outra forma, Judite, fez essa cedência, talvez tivesse concordado com esta. Era uma mulher sensata”, sorri, confessando que entretanto houve mais propostas de outras editoras para publicar a obra da avó, mas que a decisão já estava tomada. Na Minotauro, cada volume será antecipado por um texto de enquadramento escrito à época da publicação original. O primeiro é assinado por Urbano Tavares Rodrigues e é sobre Tanta Gente, Mariana. Os restantes volumes sairão de acordo com a ordem cronológica: o segundo trará Paisagens sem Barcos (1963), Os Armários Vazios (1966) e O Seu Amor por Etel (1967); o terceiro Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969) e Tempo de Mercês (1973); o quarto terá A Janela Fingida (1975), O Homem no Arame(1979) e Além do Quadro (1983); o quinto, Este Tempo (1991), Seta Despedida (1995) e os já póstumos A Flor Que Havia na Água Parada (1998) e Havemos de Rir (1998); e, por fim, o sexto corresponderá aos Diários de Emília Bravo (2002).

Inês Fraga leu todos estes livros e espera que as duas filhas, Maria Judite e Clarice, o possam fazer com a mesma alegria e o mesmo deslumbramento. “A minha avô ensinou-me o essencial sobre o feminino. Sempre a vi serena e um dia surpreendi-me com o modo como estava curvada. Ela foi encolhendo e eu não dei por nada a não ser quando um dia a vi caminhar na rua. Ela muito pequenina ao lado do meu avô. Foi assim que a vi pela última vez, a caminhar de braço dado com ele pouco antes de morrer.”