Chegou a hora da estrela para Clarice Lispector

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Benjamin Moser passou cinco anos a investigar a biografia de Clarice Lispector. Da Ucrânica ao Brasil, passando pela Suíça e EUA, traçou a geografia da enigmática escritora de nome estrangeiro que mudou a literatura brasileira. "Why this World" foi um sucesso no Brasil, acompanhando o "boom" de publicações sobre Lispector. Chega a Portugal em Setembro

Quando Benjamin Moser, 33 anos, autor americano da primeira biografia em inglês sobre a escritora brasileira Clarice Lispector, ligou para a companhia KLM na madrugada do início do Festival Literário de Paraty de 2005, sabia que estava a cometer uma loucura. "'Tem um voo para São Paulo ainda hoje?' Nunca tinha feito uma coisa dessas. Comprei a passagem e às onze da manhã estava a embarcar", explicou Moser ao Ípsilon, num português com sotaque brasileiro nordestino, numa entrevista telefónica a partir da sua casa no Utrecht, na Holanda.

O impulso foi desencadeado quando, no seu jardim, contava a um amigo quem era aquela figura, Clarice Lispector, que o "tinha pegado, como muito poucas coisas na vida", era ainda estudante na Brown University, EUA. "Vivia com isso na cabeça: um dia quero fazer algo com ela, trazê-la, explicá-la para o mundo. Mas também queria entendê-la eu próprio", explica. Naquele Julho, o Festival de Paraty homenageava Clarice e o amigo perguntou-lhe: "O que está fazendo aqui, na Holanda? Você tem é que estar lá, com todos os especialistas. Nunca vai haver tanta gente empolgada assim."

Foram cinco anos de pesquisa para publicar "Why This World", biografia de 400 páginas que saiu em 2009 nos EUA (Oxford University Press). Após a tradução brasileira, a Civilização vai publicar a edição portuguesa em Setembro. A biografia era a melhor maneira de dar a ver "Clarice como uma coisa toda e não um pedaço: você lê os livros dela, lê a crítica, mas é sempre um lado", diz Moser.

Não foi fácil compor o puzzle da enigmática escritora de nome estrangeiro - Lispector -, uma das maiores da língua portuguesa do século XX. Moser começa a biografia com a visita de Clarice ao Egipto e com uma carta sua sobre a esfinge: "Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou." O mito vive aí, nessa bela figura esfíngica que "veio de um mistério" (escreveu Carlos Drummond de Andrade). Ela era "estrangeira na terra", e essa condição nunca a largou - o nome estranho, o sotaque esquisito, a linguagem fragmentada, inovadora, difícil.

Porquê este mundo

Nascida em Tchechelnik, na Ucrânica, em Dezembro de 1920, Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice, é a mais nova de três irmãs, de uma família judaica que fugiu para o Brasil em 1921 na sequência das perseguições anti-semitas na guerra civil russa. A família chegou ao nordeste brasileiro onde adoptou nomes portugueses, e fixou-se no Recife. Aí Clarice passou a infância e adolescência.

Do Recife ao Rio, estuda Direito, torna-se jornalista, casa com um diplomata. Segue-se Belém (do Pará), Nápoles, Berna, Torquay (Reino Unido), Washington, até regressar ao Rio, onde morre em 1977, de cancro. De "Perto do Coração Selvagem" (1943) a "A Hora da Estrela" (1977), a vida confunde-se com a obra.

A biografia de Moser estabelece esse diálogo entre a vida e a obra da escritora, na procura de "ir dentro, ir ao âmago que não é só fazer literatura: é ser assim", explica Carlos Mendes de Sousa, especialista em Lispector, professor de literatura brasileira na Universidade do Minho. Moser tentou decifrar essa busca incessante: "Sei que me encontrei diante de um dos grandes assuntos da cultura humana, perguntas sobre o que fazemos nesse mundo, porque estamos aqui, porque vamos morrer. Coisas que nunca tinha visto pensadas de maneira tão profunda."

Daí o título, "Why this World", que vem de uma citação de Lispector: "É que eu fui uma adolescente confusa e perplexa que tinha uma pergunta muda e intensa: 'como é o mundo? E por que esse mundo?'"

Para pintar o retrato desta "mulher insolúvel" (disse o jornalista brasileiro Paulo Francis), Moser traçou a geografia dos lugares de Clarice. Foi à Ucrânia? "Fui." E aos lugares onde Clarice viveu? "Claro." Isto foi quase uma volta ao mundo.

"Boom" de publicações

Esta biografia vem no momento em que os brasileiros andam "doidos por Clarice", que se reflecte no "boom" de publicações sobre a autora nos últimos anos. Em 2007, saiu "Clarice Lispector - Entrevistas" (Rocco), compilação das entrevistas da autora a personalidades brasileiras, por Claire Williams, investigadora em Oxford; "Minhas Queridas" (Rocco, 2007), cartas inéditas da escritora às irmãs; "Só para Mulheres" (Rocco, 2008), colectânea de crónicas femininas; "Clarice na Cabeceira" (2009), contos escolhidos por personalidades; "Clarice Lispector, Fotobiografia" (2009), por Nádia Gotlib; e o documentário "De Corpo Inteiro" (2009), realizado por Nicole Algranti, sobrinha da escritora.

Efemérides vencem-se todos os anos. Isto, aliado às reedições dos romances e contos, edições limitadas e novos grafismos, pode ajudar a explicar a febre.

"Os livros dela estão à venda no metrô de São Paulo", conta Moser. "Com quatro reais, numa máquina, você compra um livro dela como quem compra uma coca-cola." E não duvida: "Há um 'momentum' à volta dela. E só vai crescendo. Estamos vivendo a hora da estrela da Clarice."

Mendes de Sousa diz que a proliferação de publicações é "indiscutível". Há semanas, regressava do Rio e, no aeroporto, entre "best-sellers" mundiais estavam num escaparate, lado a lado, a biografia de Benjamin Moser e "Clarice na cabeceira". O livro de Moser, explica, "tem um cunho americano muito forte, com um grande trabalho de investigação, intercalando a biografia com a escrita da Clarice". Será importante para "abrir Clarice para fora de um circuito académico".

Em vida, Clarice era uma escritora de culto "num grupo restrito de intelectuais" brasileiros. Nos anos 80, com o impulso de Hélène Cixous e das feministas francesas, passa a pertencer à "literatura de mulheres". Giovanni Ponteiro, professor em Manchester, tradutor de Saramago, tinha um projecto para uma biografia que não chegou a concluir: queria "tirar Clarice da gaveta das feministas", conta Mendes de Sousa.

Moser afirma ter sentido uma grande liberdade para contar esta história, apesar dos rumores de que os herdeiros de Lispector controlam tudo o que sai. Moser desmente: "Todo o mundo me falava isso, mas felizmente esse problema não apareceu." Diz que há "a família" e há Paulo, filho de Lispector, detentor dos direitos. "Paulo entendeu desde o início que eu era uma pessoa muito séria e que estava a fazer uma coisa que era uma missão de divulgação muito grande da obra dela fora do Brasil."

As suas origens judaicas, por exemplo, são um dos aspectos mais sublinhados no livro. "Não havia nada que Clarice Lispector desejasse mais do que reescrever a história do seu nascimento", escreve Moser. "Sua reputação é de ter sido um tanto mentirosa." Mendes de Sousa admite que esse mistério "faz parte da complexidade da figura, esse jogo de revelação e ocultação" que Clarice alimentava. Ela foi "sempre muito consciente do seu papel e dessa encenação".

Nesse jogo de sombras, a fuga da Ucrânia é um dos grandes temas da sua vida. Moser foi a Tchechelnik comprovar a cena da violação da mãe de Clarice e uma crença, contada pela autora, de que a gravidez pode curar uma mulher de uma doença venérea. Foi de aldeia em aldeia à procura da resposta. O estupro era uma das polémicas que a família não deixaria passar, mas Paulo Lispector deixou: "Não houve nada de absolutamente censurado. Paulo levou bronca da família porque permitiu que isso fosse publicado."

Suspensa numa vírgula

Quando "Perto do Coração Selvagem" foi publicado em 1943, Lispector iniciava uma obra "ao contrário do que era a ordem dominante, e nesse sentido, uma obra desterritorializadora da tendência da literatura brasileira sobre a terra, o lugar, o ufanismo brasileiro", explica Carlos Mendes de Sousa. Clarice rompe "com o modelo do romance nordestino" e cria "uma obra estranha a todas essas referências".

Tudo nela era raro, começando pelo "nome estranho e até desagradável, pseudónimo sem dúvida", escreveu um crítico. Foi esse o jogo (pertencer, não-pertencer) que ela jogou toda a vida. "Tenho a certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer, por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém", escreveu Clarice.

Clarice era assim: um animal em bruto como Joana de "Perto do Coração Selvagem", e domesticada como a Lídia do mesmo romance, vivendo nessa intensa contradição de ser mulher, feminina, esposa e mãe, e de ser rebelde, livre, no limiar da loucura, na explosão mística dos encontros com Espinosa, comendo a barata como G.H. de "A Paixão segundo G.H.".

Quando publica "Perto do Coração" é uma "mulher à frente do seu tempo", a sua linguagem "é tão diferente, tão estranha", diz Mendes de Sousa, que "não houve um único mês em 1944 que não saísse uma crítica ao romance". Tudo estava ali na novidade "do fragmento, do interior, do feminino".

Essa estranheza na língua é tão grande que, ainda hoje, conta Moser, os revisores da Cosac Naify, a editora brasileira da biografia, "tentaram corrigir o português da Clarice. São pessoas que trabalham com linguagem, acham que ela escreve português errado. O que é, de facto, verdade. Ela própria diz isso, mas ela escreve do jeito que quer, é uma escolha."

No fundo, Clarice é isto: "Não, não, nenhum Deus, quero estar só! E um dia virá, sim, um dia virá em mim [...], eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio." Ou ainda: "Basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta e descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."

Na edição brasileira o título é apenas "Clarice,". Nessa vírgula, há uma vida que se suspende. A vírgula está lá porque "Clarice é um assunto tão grande, que nunca vai ser um Clarice ponto final, vai ser Clarice vírgula porque não pretendia, nem pretendo, dizer a última palavra sobre ela." Curiosamente, também o seu livro "Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres" (1969) começa com uma vírgula e termina com dois pontos. Em Clarice, "nada está por acaso: a pontuação dá-nos a ideia de contínuo, de estar-entre, estar no meio", explica Mendes de Sousa.

Hoje, diz Mendes de Sousa, Clarice "tem todos os ingredientes para ser uma escritora de culto". Em 100 anos, diz Moser, "Lispector vai ser um nome como Eça de Queirós, que até a criança na aldeia vai saber".