Black Milk

“Estarmos na Internet torna algumas questões mais urgentes e globais do que elas realmente são”

Black Milk sobe esta sexta-feira ao palco do Music Box (Lisboa) e sábado ao do Plano B (Porto) para apresentar FEVER, um dos mais importantes discos americanos do ano.

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Leite Preto, FEVER
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Leite Preto, Rapper
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A encerrar um primeiro tour pela Europa, esta sexta-feira (Music Box) e sábado (Plano B), um dos grandes – mas subvalorizados – nomes do hip-hop americano dos anos 2000 está aí para fazer subir as temperaturas.

Em Abril último, escrevíamos que "O termómetro diz que o mundo está com febre". O aparelho para medir a temperatura, neste caso, era um disco chamado FEVER, de Black Milk, rapper e produtor independente de Detroit, cidade da Motown e de uma certa nata do hip-hop americano (J Dilla, Royce da 5’9”, Eminem). Disco que, originalmente iniciado sob o impulso de fazer algo optimista, leve, haveria de descambar, por ocasião da eleição de Trump (e de tudo o que ela trouxe), num trabalho reflexivo, questionador, aqui e ali angustiado. Sem nunca perder, porém, melodicamente falando, uma linha solar, colorida, e, no metrónomo, o pé gingão, cruzando o hip-hop mais clássico com a soul, o funk, o rock e, até, algum psicadelismo.

Um dos aspectos mais interessantes em FEVER está na forma como cria vibrações dançantes, groovy, ao mesmíssimo tempo que expressa ideias e posições importantes, até incómodas. Como se dissesse: podemos dançar e pensar ao mesmo tempo. 
Eu quis fazer do FEVER um álbum optimista, sobretudo porque os meus dois álbuns anteriores eram pesados, negros. Mas, com tudo o que passa nos EUA, com a eleição de Trump, com os homicídios de negros desarmados pela polícia, não consegui evitar escrever sobre o assunto. É por isso que algumas das paisagens sonoras são mais optimistas mas as letras continuam a ser significativas. Espero que a mistura dos dois soe bem!

FEVER é um disco que, entre outras febres, fala da das “redes sociais”. Já sublinhou em entrevistas anteriores como elas afectam as nossas emoções e comportamentos, e que, por causa disso, começou a fazer uma “dieta” de Internet.
Mesmo quando não estamos a “postar” nas redes, tendemos a fazer scroll nas nossas timelines numa base diária. A certo ponto, já nem é pelo interesse que temos pelas coisas, trata-se apenas de um hábito! Quando estou na estrada ou a criar, estou menos tempo online, tento manter-me afastado. Se olharmos para as coisas de forma mais distanciada, não é necessário, nem saudável ficar tão exaltado por cada coisa que nos aparece à frente num computador – é o que tento fazer.

A loucura das “redes” leva as pessoas a adoptarem comportamentos que elas próprias julgariam impensáveis há uns anos atrás: todas estas selfies narcísicas, a forma como as pessoas contam tudo sobre a sua vida a todo o tempo…
A ideia de aceitação social levou definitivamente as pessoas a comportarem-se de formas que seriam anormais há apenas 5 anos atrás! Acho que o auto-empoderamento e a auto-estima são características de louvar, mas fazê-lo a toda a hora nas redes sociais não é bom para o bem-estar de ninguém.

Outro dos aspectos que mais aprecio no álbum é a forma como as letras não procuram ser, como acontece muito no rap actual, quotable, quero dizer, imediatamente – superficialmente… – “hashtaggizáveis” em contas de Facebook e Instagram. Os pensamentos que coloca nas letras são fluídos, longos, até “lentos”.
Sim! Sempre tive um estilo meu e o meu próprio naipe de flows. Embora, em geral, seja mais apreciado pela produção, vi mais elogios ao meu rap nos últimos três álbuns, sobretudo com o FEVER. Penso que uma das razões reside no facto de as letras, nesses três álbuns, serem mais baseadas em narrativas – estou a rimar em modo story e isso mantém-me focado na história que quero contar, e não apenas em rappar por rappar.

Em algumas canções do álbum, há uma dura – e compreensível – crítica à igreja. Mas não foi ela, historicamente falando, um dos mais importantes espaços para a música negra e para a comunidade negra se reunir e mobilizar? Pensemos apenas em Martin Luther King.
A minha crítica não é à igreja em si, mas ao modo como tem sido utilizada para controlar as pessoas e impedi-las de realizar todas as suas capacidades. Conceitos como “medo”, “esperança” e “fé” podem e têm sido utilizados como armas contra as pessoas! Mas concordo que a Igreja teve um impacto extraordinário na música negra e na música em geral, foi lá que eu desenvolvi o meu ouvido para certos acordes e sons que ficaram para sempre comigo.

But I Can Be Wrong [da faixa But I Can Be]. É como se elevasse a Dúvida a princípio fundamental de reflexão e de aprendizagem no diálogo com os outros. Como se evitasse ter muitas certezas sobre as coisas (como toda a gente tem nas “redes”).
Para mim, a canção é mais sobre o meu processo criativo e sobre tudo aquilo que interfere com a criatividade pura e dura. Talvez essas coisas sejam reais, talvez existam só na nossa cabeça. A letra capta diferentes fluxos de consciência, como a pressão para teres sucesso querendo ao mesmo tempo manteres-te verdadeiro para contigo mesmo. Ou teres uma intuição forte e sentido de decisão mas seres capaz de te questionares sempre uma segunda vez. A responsabilidade de cuidares de ti e dos outros… Estes são o tipo de pensamentos que interferem com o processo criativo! Independentemente do quão genial um artista possa ser, é inevitável que seja confrontando com responsabilidades reais, do mundo real, ou com coisas menos boas que irão afectar a sua capacidade para criar à vontade, como preocupar-se com aquilo que os fãs e os críticos vão dizer.

Ao contrário de outros artistas de rap, que produzem sozinhos e depois trazem a banda para tocar ao vivo, produz com banda desde o início do processo. Porquê esta opção e que mais-valias ela lhe traz?
Continuo a criar as bases das canções na MPC ou noutro software digital, mas faço música há tanto tempo que sinto vontade de fazer novos sons e de me desafiar a mim mesmo, transcender-me – e é aqui que entram os instrumentistas. Posso tê-los a tocar qualquer coisa que estou a ouvir só na minha cabeça, depois pegar nisso e samplar, “choppar”, tal como faria com um vinil. E como o resultado é mais musical, isso também tem um impacto positivo quando tocamos ao vivo.

O álbum Tronic tem quase a mesma importância que alguns trabalhos de Kanye West [808s & Heartbreak saiu no mesmo ano, 2008] para o namoro do hip-hop com a electrónica dos anos 2000. Por que razão é que não teve o mesmo reconhecimento?
Sou um artista verdadeiramente independente. Trabalho sempre com equipas pequenas que acreditam em mim. Sempre criei fora da “indústria”, no sentido de não ter uma grande editora ou máquina por trás. Por isso, o meu alcance é limitado! Mas os meus fãs apoiam-me e posso viver confortavelmente, fazer a música de que gosto e dar concertos pelo mundo nos termos que eu próprio defino. Isso é o mais importante para mim.

Os EUA estão a enfrentar uma série de desafios desde que Trump foi eleito. Como vê a situação política americana, hoje? Concretamente no que respeita ao acesso às armas, está do lado dos jovens estudantes que se têm manifestado a favor do seu controlo e/ou proibição?
Estarmos na Internet torna algumas questões mais urgentes e globais do que elas realmente são, e esta é uma das razões pelas quais eu tento estar offline o máximo possível. Mas, de facto, passam-se coisas terríveis neste momento, como a retórica de ódio de Trump e a violência relacionada com o uso de armas, que não podem ser relativizadas e que afectam os americanos diariamente. Eu apoio aqueles que estão a lutar por leis de armas mais restritas e por um controlo mais abrangente do acesso a armas militares automáticas.

Há tempos, falando com Illa J [irmão do lendário J Dilla], ele disse que, depois da declaração de bancarrota, Detroit tem vindo a recuperar assinalavelmente. É esta a sua impressão?
O espírito de Detroit sempre foi e será o da perseverança! A cidade está a evoluir positivamente, mas eu só espero que todos possam ser incluídos nessa mudança. A comunidade artística, por sua vez, está a crescer num misto de tradição e ecletismo, como sempre foi a sua marca.

Para quem conhece o seu trabalho, mas sobretudo para quem não conhece, o que pode esperar destes dois concertos?
Um pouco de tudo! Vou tocar o FEVER e clássicos dos outros álbuns. A banda vai improvisar enquanto eu fico com os pads de bateria, vai haver tempo para jam… Vai ser bom!