O termómetro diz que o mundo está com febre

Black Milk, um dos mais virtuosos mas também subvalorizados rappers e produtores americanos, começou por querer fazer um álbum em tom feel-good, mas o mundo, a realidade, meteram-se-lhe pelo caminho.

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Black Milk, nome artístico de Curtis Cross, nascido há 34 anos em Detroit — berço de alguma da fina flor do hip-hop americano

No princípio, era o nome: Black Milk? O nome artístico de Curtis Cross, nascido há 34 anos em Detroit — berço de alguma da fina flor do hip-hop americano (J Dilla, Eminem, Royce da 5’9”) —, mesmo que adoptado sem um propósito específico, permite toda uma leitura sobre uma ideia de miscigenação, “contaminação”, até de “dessacralização”. Do quê (ou de quem)? De uma cultura branca ainda hoje normativamente hegemónica na América, claro. Esse branco polido, imaculado, essa alvura perversamente “perfeita” (a mesma de Get Out, o filme de Jordan Peele) tintada por um povo (o afro-americano) historicamente marginalizado, segregado, odiado, ontem como hoje na América de Trump, não deixam de ser visados em FEVER, o novo álbum de Black Milk, com a particularidade de este o fazer de um modo que parece até já démodé quando olhamos para o rap americano actual: um discurso fluido, reflexivo, demorado, por oposição às tiradas curtas, escritas já a pensar em Instagrams e cardinais (quotables, como se diz), que hoje predominam mesmo entre os rappers mais “políticos”, que as incluem (a essas declarações “pronto-a-hashtaggizar”), aliás, pelo meio de versos sem qualquer relação e que, por vezes, até as esvaziam de sentido (o próprio Kendrick Lamar incorre, por vezes, neste tipo de registo, veja-se HUMBLE). Foi depois de ouvirem os primeiros trabalhos do ainda adolescente Milk que os seus conterrâneos Slum Village (super-grupo do hip-hop do início dos anos 2000 comandado pelo lendário Dilla), impressionados pelo seu dedo na criação de batidas, o convidaram para produzir para o seu aclamado álbum Trinity (Past, Present and Future) (2002).

Desde aí, o americano arrancou para uma sólida e prolífica carreira a solo, sempre na margem do mainstream e com um forte cunho independente, lançando em 2007 o seu primeiro LP, Popular Demand, pela famosa editora indie Fat Beats, simultaneamente estabelecendo numerosas colaborações com grandes nomes da música americana menos mediática, dentro e fora do hip-hop (Elzhi, Dwele, Jack White, Robert Glasper, Will Sessions). Pelo caminho, uma sensibilidade e um interesse difusos (e uma fama de grandes actuações ao vivo) levaram-no a editar, em 2010, Album of the Year, disco de tónica rock/blues gravado ao vivo com banda (mesclado com o recurso a samplers e outro equipamento digital, equação eclética que caracteriza todo o seu trabalho), para, em 2013, ser a electrónica (já explorada no grande Tronic, 2003) a contaminar os instrumentais de No Poison No Paradise, o mesmíssimo ano em que assinou um jazzístico (e belíssimo) disco exclusivamente instrumental, The Rebellion Sessions, novamente gravado em formato live na companhia de banda, entretanto re-designada Nat Turner (nome do escravo negro americano que liderou, em 1831, uma rebelião na Virgínia).

FEVER, recentemente co-editado pela sua editora Computer Ugly e pelo histórico selo nova-iorquino Mass Appeal — e que, à semelhança dos anteriores, passou ao lado do radar mediático (e isto mesmo quando o hip-hop está nas manchetes de tudo o que é publicação musical) —, é mais uma sofisticada pedra na obra de Black Milk, cuja riqueza orgânica do som e a inteligência das palavras trazem à memória alguém como Oddisee, criador de excelência da vizinha Washington que também já tivemos oportunidade de aqui destacar.

Dançar e pensar

Curiosamente, FEVER arrancou de um esforço concreto: o de tentar fazer, depois de dois álbuns negros e pessimistas, um trabalho mais leve e positivo: um feel-good album, como tem afirmado em entrevistas. O “problema” é que a produção do disco coincidiu com o início da vaga de protestos perante os já — ou ainda — tristemente habituais homicídios de cidadãos negros por agentes policiais e, um pouco depois, com a eleição de Trump. “A atitude das pessoas, a energia, a tensão, tudo está em alta neste momento nos dois lados da barricada, independentemente daquele por que tomemos partido. Há muita raiva no ar. Com a eleição, senti, pela primeira vez, uma sensação de desespero, de que isto estava mesmo fora do nosso controlo”, afirmou à publicação on-line The 405. Tudo isto acrescido dos infindáveis incidentes que vão pontuando o nosso quotidiano (de Marielle Franco à Cambridge Analytica e ao Facebook, da Síria e da Coreia do Norte ao #Metoo) forneceu o título do álbum, enquanto temperatura “emocional” do actual estado das coisas, do zeitgeist: febre.

O resultado dessa “mudança de direcção” só poderia redundar, por isso, num objecto chiaroscuro, tão airoso e cool como observador e introspectivo (o auto-questionamento permanente e “sinestésico” de But I Can Be), pese embora, claro, essa hibridez (sonora, discursiva) constitua, justamente, uma das suas grandes valias, porquanto lhe empresta complexidade (a mesma que rodeia, afinal, a própria palavra “Fever”, sinalizadora tanto de doença ou dor, como de prazer e desejo), ritmo e, não menos importante em tempos imediatistas como os nossos, perenidade.

É um disco de diferentes sensibilidades e texturas (como a collage modernista da capa indicia), no qual a música tocada parece, por vezes, protagonista em face da voz do rapper (coisa rara no hip-hop), capaz de momentos de rock quase psicadélico, cordas e sintetizadores a borbulharem no cosmos (unVEIL, eVE), de primorosas peças de soul e funk, para depois irromper, inesperadamente, numa toada dançante e luminosa, cheia de ginga (que traz à memória as produções de Kaytranada), casos de Could It Be e Will Remain. E quem disse que não podemos pensar enquanto dançamos? Tal como acontece com Oddisee, o facto de o pé do ouvinte ser puxado para a pista não invalida que as palavras estejam sempre a transmitir ideias e reflexões importantes, urgentes, incómodas, até: o racismo e a educação como um processo condenado em ambientes viciados à partida, a presença da religião e a busca (im)possível pela verdade, a desabrida influência das “redes sociais” no nosso ritmo bio-emocional, com o pormaior de Milk não o fazer de modo óbvio ou panfletário, antes ponderadamente, não raras vezes poético.

“Será que as pessoas se apercebem da montanha russa emocional em que entram quando fazem scroll nas redes sociais?! Ficam furiosas sobre um determinado assunto mas, no minuto seguinte, vêem um ‘meme’ sobre esse mesmo assunto e as suas emoções já se alteraram completamente”, desabafou à publicação UndergroundHipHop, confessando ter decidido fazer uma “dieta” no acesso à net. Se um dos pontos fortes do disco é a sua dimensão orgânica, tal se deve ao naipe de excelentes instrumentistas que nele colaboram (embora o próprio Milk se faça às teclas e aos drums), do habitual Malik Hunter no baixo aos renomados Daru Jones e Chris Dave nas baterias, passando, ainda, por Ian Fink (teclas) e, last but not the least, Sasha Kashperko, responsável pela predominante presença das cordas de guitarra ao longo de todo o álbum, especialmente em But I Can Be ou 2 Would Try (aqueles dedilhados deliciosamente bluesy, complementados pelo baixo subterraneamente hipnótico e o trompete à espreita).

Passando das mãos para as outras cordas, as vocais, o refinamento não diminui, com as vozes de Sudie, Dwele (um dos expoentes do movimento da neo-soul, marco da música americana na passagem dos 90 para os 2000), Ab e do próprio Black Milk (tanto rappa como canta) a comporem o ambiente eminentemente coral de todo o disco. Um “álbum político”? Não exactamente, esclareceu ele à The 405: “Não o consideraria como tal. É um álbum em que mostro que estou consciente do que se passa [Black Milk diz “What’s going on” e é impossível não pensarmos em Marvin Gaye], a forma como eu vejo as coisas e de como estou a tentar lidar, pessoalmente, com tudo isto”. Um dos grandes discos americanos deste ano, FEVER passará, provavelmente, relativamente despercebido até que, por um conjunto de acasos do destino, a atenção eventualmente se vire para ele. Foi o que aconteceu com Oddisee — estarão os promotores portugueses interessados em antecipar-se e a trazê-lo cá ao vivo para breve?