Opinião

Turismo ferroviário, Europa e Portugal

Em Portugal, apesar do reconhecido potencial, o turismo ferroviário e a exploração de material circulante histórico continua a estar muito aquém. Aliás pode agravar-se com a incerteza do comboio histórico na linha do Vouga e o encurtamento do Miradouro.

Para o International Council on Monuments and Sites (ICOMOS), a ferrovia é um dos mais importantes patrimónios industriais a considerar como Património da Humanidade não só devido ao seu contributo para a evolução da sociedade a nível social, económico, político e cultural, mas também por a sua longa história ter produzido um riquíssimo património identitário do mundo contemporâneo. Segundo o ICOMOS, o melhor reconhecimento é o facto de as actuais gerações poderem continuar a usufruir do património ferroviário, contemplando ao mesmo tempo os feitos da ferrovia alcançados no passado. Em 2013, um estudo do Parlamento Europeu sobre património industrial e agroturismo na Europa, refere que o turismo associado ao património ferroviário está muito difundido e é frequentemente considerado como a joia da coroa. Já em 2014, o projecto europeu CHARTS, dedicado ao património e cultura, teve também como objecto de estudo o património ferroviário, sobre o qual considera que os comboios históricos são um activo cultural único com forte significado na Europa e que precisa de ser preservado e promovido por todos os stakeholders ligados ao turismo cultural.

Precisamente ligado ao património ferroviário, surge a Federação Europeia dos Museus e Caminhos-de-ferro Turísticos (FEDECRAIL). Fundada em Abril 1994, tem como principal objectivo promover a manutenção, preservação e operação das linhas históricas para além de ser o elo de ligação entre as instituições nacionais e europeias. A FEDECRAIL é a principal promotora da troca de conhecimento e experiências entre museus, associações e caminhos-de-ferro turísticos. Actualmente, é formada por 653 membros de 24 países. O Reino Unido é o principal representante com 268 membros. Alemanha, França, Suécia e Itália fazem parte do grupo de países com maior representatividade. Portugal faz-se representar através da Fundação Museu Nacional Ferroviário. A 16 de Abril 2005 em Riga, Letónia, é apresentada a “Carta de Riga” (The Riga Charter), documento fundamental que representa uma declaração de princípios, orientados para a conservação, restauro, manutenção e reparação de material circulante histórico.

A Dezembro de 2012 em Madrid, iniciava-se o projecto “Tourism Potential of Railway Services” (TOPRAIL) da União Internacional dos Caminhos-de-ferro (UIC) cujo objectivo é divulgar os produtos do turismo ferroviário, promovendo a visibilidade dos serviços através de uma plataforma que permite uma estreita colaboração entre stakeholders e os seus clientes de modo a potenciar novas oportunidades no sector.

O projecto tem signatários como a FEDECRAIL, os suíços da Rhätische Bahn (RhB) e da SBB, a espanhola Renfe com os seus comboios turísticos, a Fundação dos Caminhos de Ferro Italianos (Fondazione FS), entre outros. Portugal também se faz representar através da CP - Comboios de Portugal.

A rentabilização do património associado ao turismo ferroviário em linhas regionais localizadas em zonas rurais ou montanhosas que apresentem factores críticos de sucesso tais como os activos paisagísticos ou culturais e que, quando são associados a viagens de comboio em material circulante histórico, tornam-se um produto turístico diferenciador e de qualidade.

Em 2014, o projecto Europeu ACCESS2MOUNTAIN liderado pela Agência do Ambiente da Áustria e que contou com vários parceiros e stakeholders entre eles a FEDECRAIL, apresentou um conjunto de considerações em que, para o sucesso da exploração turística da ferrovia regional, há que ter em conta vários aspetos, tais como a oferta de serviços e programas aos potenciais passageiros, o envolvimento local e regional dos agentes políticos, a criação de parcerias locais e regionais tais como a cooperação com a indústria do turismo, a avaliação exacta das expectativas dos turistas e da comunidade local, a cooperação inter-regional, a intermodalidade e coordenação de horários entre regiões transfronteiriças e a integração da ferrovia regional com outros tipos de transporte.

Além de que, a aposta no turismo ferroviário contribui também para a requalificação e uso do património ferroviário (infra-estruturas e material circulante), para a criação de núcleos museológicos ou outros espaços culturais associados ao sector e, inclusive, contribuir para reabertura de linhas e troços encerrados ao tráfego ferroviário. E neste sector a Europa mostra grande dinâmica, contrastando com Portugal.

Um dos exemplos mais recentes é o da Fundação dos Caminhos-de-ferro Italianos que para além de abrir novos museus e executar os habituais trabalhos de restauro e conservação do espólio, no âmbito do seu projecto “Binare Senza Tempo”, reabre à exploração turística em material circulante histórico cerca de 600 km de via-férrea encerrados ao tráfego ferroviário. O projecto de 80 milhões de euros permitiu reabrir em apenas três anos, 9 linhas regionais localizadas em Abruzzo, Campania, Lombardia, Friuli Venezia Giulia, Molise, Piemonte, Toscânia e Sicília.

A expansão dos serviços contribuiu para que no biénio 2016/2017 quase 130 mil pessoas viajassem nos comboios históricos da fundação, 45% mais do que em igual período anterior.

Outros exemplos recentes vêm do Reino Unido, onde com forte apoio do associativismo, voluntariado, campanhas de angariação de fundos e fundos estatais, linhas históricas como o Bluebell Railway (2013), Chinnor Railway (2016) ou o Swanage Railway (2017), voltaram a ligar-se à rede ferroviária britânica com o intuito de expandir os seus serviços, procurar novos mercados obter ganhos de escala e aumentar o número de passageiros. Aliás o turismo e património ferroviário no Reino Unido tem grande impacto social e económico. Segundo um estudo de 2013 da Heritage Railway Association (HRA) entregue ao parlamento britânico, existem 108 linhas históricas que formam uma rede com cerca de 862 km de extensão. Há 1.755 locomotivas operacionais, das quais 763 a vapor e 992 a diesel. O sector emprega a tempo inteiro mais de 3.700 colaboradores e mais de 18.500 voluntários fazem parte da gestão e operação das linhas. Estima-se que o impacto anual na economia britânica seja de 286,2 milhões de euros.

Em Portugal, apesar do reconhecido potencial, o turismo ferroviário e a exploração de material circulante histórico continua a estar muito aquém e nem mesmo o facto de o país em 2017 ter sido considerado o melhor destino turístico do mundo pelos World Travel Awards ou o “The Presidential” ter ganho o galardão de melhor evento público do mundo atribuído pela Bea World, parece motivar para inverter a tendência. Aliás pode agravar-se com a incerteza do comboio histórico na linha do Vouga e o encurtamento do Miradouro.

Portugal mostra-se bipolar neste segmento e no tratamento dado ao seu património ferroviário. Continua de forma deliberada e injustificada a desperdiçar oportunidades, despacha para sucata material circulante com potencial para regressar ao serviço regional ou para o turismo, sem garantia de que exista uma alternativa credível. O recente abate de carruagens no Barreiro, algumas eram peças únicas da sua série, o abate em 2017 da automotora UTE 2001 que inaugurou a electrificação da linha de Sintra ou a mais recente tentativa de envio para a sucata de material circulante histórico de via estreita, lesa seriamente o legado ferroviário a deixar às futuras gerações, contraria os pressupostos da FEDECRAIL ou do ICOMOS e não transmite uma imagem positiva à Europa e aos restantes membros do projecto TOPRAIL.   

Apostar no turismo ferroviário nacional e na revitalização do património ferroviário deverá fazer parte de uma estratégia séria a média e longo prazo, de promoção do território e do turismo sustentável. Investir neste segmento significa dotar de meios humanos, materiais e financeiros não só o Museu Nacional Ferroviário como também a EMEF por forma a eliminar constrangimentos, dar condições e competitividade à empresa, permitindo deste modo rentabilizar ainda mais os activos ferroviários nacionais colocando-os ao serviço da população e do país.