Teórico da literatura Gérard Genette morre aos 87 anos

Fundador da revista Poétique, o autor de Figures foi um dos principais autores da corrente estruturalista dos estudos literários.

Gérard Genette, Barbadrac
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O crítico e teórico da literatura Gérard Genette, um dos autores mais influentes da chamada “nova crítica” de matriz estruturalista, morreu esta sexta-feira de manhã aos 87 anos, noticiou o jornal francês Le Monde.

Co-fundador da revista Poétique, em 1970, com Tzvetan Todorov (1939-2017) e Hélène Cixous (n. 1937), a obra de Genette procura sobretudo revelar os modos específicos de funcionamento da obra literária, tendo dado um importante contributo ao desenvolvimento da narratologia.

Os seus estudos, muitos deles reunidos nos sucessivos volumes de Figures, tiveram grande repercussão na época, e Genette tem sido muitas vezes aproximado, pela originalidade do seu trajecto e pelo teu talento literário, a Roland Barthes, que numa recensão a Figures III considerava o livro do amigo não apenas a obra de um especialista de poética, mas a de um poeta por direito próprio.

Nascido em Paris a 7 de Junho de 1930, filho de um operário têxtil, Genette ingressou em 1951 na École Normal Supérieure, onde teve como condiscípulos Jacques Derrida e Pierre Bourdieu. Já então militava no Partido Comunista Francês, do qual se afastaria em 1956, na sequência da repressão soviética da revolta húngara. Irá mais tarde associar-se ao grupo Socialismo ou Barbárie, fundado por Cornelius Castoraiadis e que se dissolveria nas vésperas do Maio de 68.

Assistente de Marie-Jeanne Durry na Sorbonne entre 1963 e 1967, foi depois nomeado, por recomendação de Roland Barthes, para director de estudos na École Pratique des Hautes Études, cargo que mais tarde desempenharia também na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, onde se manteve até à sua reforma, em 1994.

Se a própria perda de influência das abordagens mais formalistas levou nos últimos a um relativo apagamento da obra de Genette, os seus estudos – que tratam, entre muitos outros tópicos, da classificação dos géneros literários, dos diversos tipos de narrador ou das relações manifestas e ocultas entre textos literários (a transtextualidade é um conceito que desenvolve especialmente em Palimpsestes, de 1982) –, foram muito  lidos e estudados dentro e fora de França, sobretudo nas décadas de 70 e 80. Em Portugal, foram publicados livros como Discurso da Narrativa ou Introdução ao Arquitexto, ambos traduzidos pelo ensaísta e ficcionista Fernando Cabral Martins.