Ministro das Finanças da Argentina está em Washington para pedir ajuda ao FMI

A Argentina vai pedir à instituição liderada por Christine Lagarde uma ajuda que pode chegar aos 30 mil milhões de dólares, para travar a subida da inflação e a descida descontrolada do peso.

Christine Lagarde, Nicolás Dujovne, Mauricio Macri, Fundo Monetário Internacional, Argentina, Presidente da Argentina
Foto
Christine Lagarde, Maurício Macri e Nicolás Dujovne já se tinham reunido em Março, em Buenos Aires Reuters/POOL New

Passados quinze anos, a Argentina volta a bater à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI) em busca de ajuda. O governo argentino chama-lhe “financiamento preventivo” e o montante exacto ainda não é conhecido, mas a imprensa do país tem referido valores em torno dos 30 mil milhões de dólares (cerca de 25 mil milhões de euros).

Os detalhes – o montante e as condições do empréstimo – deverão ser conhecidos em breve, já que a delegação liderada pelo ministro das Finanças da Argentina, Nicolás Dujovne, viajou na terça-feira para Washington para formalizar o empréstimo com a instituição liderada por Christine Lagarde. As reuniões deverão ocorrer até quinta-feira.

A primeira vez que a Argentina pediu dinheiro ao FMI foi em 1957 (75 milhões de dólares, cerca de 63 milhões de euros) e a última tinha sido em 2003 (perto de 14.300 milhões de dólares, aproximadamente 12 mil milhões de euros), segundo dados do jornal Clarín.

“A Argentina não precisa deste dinheiro agora, não temos problemas para cumprir os pagamentos”, assegurou Guido Sandleris, o líder da equipa de assessores do Governo, que faz parte da comitiva enviada a Washington, citado pelo Clarín. O pedido de ajuda visa reduzir a incerteza e a volatilidade da moeda argentina, o peso, que nos últimos dez dias perdeu cerca de 10% do valor face ao dólar – nesta terça-feira, o peso bateu um recorde nos 23,4 dólares.

“Um acordo de stand by tradicional”

O receio do Governo argentino é que a alta do dólar e das taxas de juros seja transferida para os bens alimentares, pressionando ainda mais a inflação que este ano deverá ficar acima das metas do Executivo pelo terceiro ano consecutivo. O banco central argentino tinha como objectivo uma inflação nos 15% em 2018, mas alguns analistas acreditam que poderá chegar a 22%.

Segundo o Clarín, que cita um relatório da consultora ACM, o mais provável é que a modalidade de financiamento acordada entre Buenos Aires e o FMI seja “um acordo de stand by tradicional”, um financiamento de curto prazo que exige o cumprimento de metas orçamentais, fiscais e monetárias. Normalmente, este tipo de assistência financeira dura entre 12 a 24 meses, mas pode ir até 36 meses.

“Há uma corrida contra o peso e sai mais barato pedir emprestado a 4% do que ficar a ver o dólar e a inflação subirem”, disse ao mesmo jornal um alto funcionário do governo argentino sob anonimato.

Para conter a escalada da inflação, o Presidente Maurício Macri chegou a pedir às gasolineiras que congelassem os preços dos combustíveis por dois meses e ainda apelou à banca para que colocasse dólares no mercado, de forma a travar a subida da divisa norte-americana. Nesta terça-feira, e perante a pressão crescente sobre o peso, Macri acabou por  anunciar o pedido de ajuda “preventivo” ao FMI.

Apontando o dedo à gestão e aos défices deixados por anteriores Governos, o Presidente da Argentina reconheceu que “a volatilidade” de uma economia muito “dependente de financiamento externo” obrigava a medidas extremas.

"Durante os primeiros anos, contámos com um contexto internacional muito favorável, mas hoje isso está a mudar", referiu o governante, referindo-se à subida dos juros, à alta do petróleo e à desvalorização das moedas dos países emergentes como factores que aumentaram a volatilidade argentina.

Em declarações à BBC Brasil, o economista Raúl Ochoa, professor da Universidade de Buenos Aires, considerou acertada a actuação do Governo, neste contexto de desvalorização do peso: "O FMI poderá emprestar a taxas mais baixas do que o mercado oferece hoje. Será uma sinalização importante ao mercado financeiro sobre a capacidade de gestão e de pagamento da Argentina", afirmou.

Outro economista, o brasileiro Marcelo Carvalho, que hoje está no BNP Paribas, mas que já  trabalhou no FMI, notou, em declarações ao Jornal Nacional da cadeia brasileira Globo que, com a subida dos juros nos Estados Unidos, e a migração de dólares para este país, os investidores desconfiam se a Argentina terá efectivamente capacidade para honrar as suas dívidas. 

“O FMI vai solicitar à Argentina um ajuste das contas do Governo, [que terá de] gastar menos. Isso é doloroso, não é fácil, mas é necessário”, afirmou o economista.