“Finalmente começou a reflexão no PS”, diz Ana Gomes

Para a eurodeputada, o PS deve “adoptar comportamentos implacáveis contra a corrupção”. Álvaro Beleza, antigo dirigente socialista, considera que sair do PS foi, "finalmente, uma atitude digna" do antigo primeiro-ministro.

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Ana Gomes defende a dedicação exclusiva dos políticos Daniel Rocha

A notícia da saída de José Sócrates do PS foi recebida com alívio pela eurodeputada Ana Gomes: “Finalmente começou a ser feita a reflexão no PS, com as posições assumidas ao mais alto nível nos últimos dias”.

Em declarações ao PÚBLICO, a diplomata sublinhou que a consequência disso – a desfiliação do ex-primeiro-ministro – deve agora servir para “ajudar os militantes a fazer o imperativo exercício de introspecção sobre como é que deixaram o partido ser instrumentalizado daquela forma por indivíduos como José Sócrates para fins criminosos”.

“O PS não deve ter uma atitude medrosa, deve ter agora uma atitude corajosa e enfrentar a questão”, defende, sublinhando estar convencida de que “há ainda muita coisa por saber”, em particular no caso das rendas da energia. “Todo o esquema de corrupção em causa, com o BES a ser a cabeça do polvo, não começou com o PS e com José Sócrates, não tenho dúvidas disso”, frisou.

Questionada sobre se defende que essa reflexão se faça no congresso do final do mês, Ana Gomes diz que não tem de ser necessariamente no congresso, mas tem de ser feita. “O congresso é uma oportunidade para olhar para o futuro, e para o PS dizer aos portugueses como é que o partido se pode reforçar a si próprio, com instrumentos que reforcem a sua credibilidade e a dos políticos”, defende.

Como? “Adoptando comportamentos implacáveis em relação à corrupção”, responde Ana Gomes, defendendo que se aproveite a discussão em curso na Comissão da Transparência. Um dos pontos essenciais, na sua opinião, é a dedicação exclusiva dos titulares de cargos políticos: “Não é possível exercer bem os cargos políticos se não for a tempo inteiro e em dedicação exclusiva, mas têm de ser bem pagos e não podem recorrer a expedientes como as viagens pagas em duplicado, porque isso é que descredibiliza os políticos”, defende.

A mesma opinião tem Álvaro Beleza, antigo dirigente do PS durante a liderança de António José Seguro. "É preciso tomar medidas para corrigir sistemicamente o problema" da corrupção, diz o médico, que nunca foi deputado nem membro do governo, e que também defende a exclusividade de funções públicas pagas com uma remuneração condigna, "que evite esquemas", juntamente com uma mudança no sistema eleitoral.

Mas a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando soube da saída do antigo secretário-geral do PS foi: "Finalmente uma atitude digna de José Sócrates", confessa ao PÚBLICO. "Isto era inevitável", afirma, considerando que esta decisão "é boa para ele, boa para o PS mas é sobretudo boa para o sistema político". 

"Os partidos devem ser muito rigorosos na avaliação dos seus militantes, mas não têm que ter vergonha quando há suspeitas de corrupção porque o risco de prevaricação existe em todas as profissões. É para isso que serve a justiça", defende. Lembrando que a República foi criada "muito por causa da corrupção e abuso de poder da monarquia", Álvaro Beleza sublinha que "a ética repúblicana serve exactamente para defender a igualdade de todos perante a lei". E é da aplicação da lei que depende "a dignificação da vida política", sublinha. 

Fundadores dividem-se: é bom ou mau para o PS?

Tal como Ana Gomes e Álvaro Beleza, também António Arnaut vê com bons olhos a desfiliação de Sócrates. O presidente honorário do PS disse ao Observador que o ex-primeiro-ministro até “já devia ter tomado [aquela decisão], em face da gravidade das acusações e das críticas severas que lhe são feitas“, já que “independentemente de ter sido culpado dos factos que lhe são imputados, que são gravíssimos, levou uma vida acima das suas possibilidades, uma vida de fausto, acima daqueles que são os padrões indissociáveis da ética republicana e socialista.” 

Sem desconsiderar a importância da presunção de inocência no âmbito judicial, Arnaut defende que José Sócrates devia ter-se afastado tendo por base um “conceito antigo, que hoje está muito esquecido: a lisura”. “Para mim a honra é muito importante”, acrescenta.

Em contraponto, outro histórico socialista, António Campos, lamenta a decisão de José Sócrates de deixar o PS, mas entende as razões do antigo primeiro-ministro. Em declarações à TSF, António Campos considera que Sócrates "tem toda a razão em estar revoltado" porque "o partido, que nasceu como um grande partido da liberdade, dos direitos e garantias dos cidadãos, no fim de contas embarcou em julgamentos populares". "O partido traiu a sua própria origem", defende este fundador do PS.

Também Daniel Adrião, candidato opositor a António Costa no congresso deste mês, critica a actual liderança do partido. "A direcção nacional do partido foi muito inábil na gestão de todo este caso e, nos últimos dias, precipitou-se num conjunto de declarações irresponsáveis, que não têm de facto explicação racional", disse o socialista à TSF. "Não se compreende como é que, de um dia para o outro, uma série de dirigentes da primeira linha do Partido Socialista se multiplicam de forma concertada em declarações públicas infelizes sobre este caso", acrescentou, considerando que o caso Manuel Pinho acabou por "contaminar" o processo Sócrates e a leitura política que o PS fez dele.

"Cai por terra a célebre declaração que fez a escola do PS nos últimos três anos, quando o próprio secretário-geral António Costa disse 'à Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política'", acrescentou Adrião, para quem a decisão de José Sócrates de abandonar o partido é "inesperada e lamentável". O socialista realça que, aconteça o que acontecer, ninguém poderá apagar o legado de Sócrates: "Foi uma figura marcante na história do PS. O PS não pode reescrever a sua história", sublinhou. 

Já o deputado socialista Ascenso Simões escreveu no Facebook que desde 2009 que a sua relação com a coisa política não passa por José Sócrates, mas lembra sempre foi seu amigo. “Nunca viro as costas mesmo que sinta que uma profunda injustiça me foi dirigida, directa ou indirectamente, em certos momentos dessa amizade”, afirma.

“Um verdadeiro transmontano sabe duas coisas: a primeira é o sentido fundador dos deveres com os outros; a segunda é a obrigação que se tem perante o infortúnio. Sócrates, que sabia que entre nós a política já tinha ficado na década anterior, como referi, sempre soube/sabe que a minha amizade era/é raiz. A minha educação, que nega o relativismo e o “descartismo”, assim me obriga e impõe”, acrescenta.

Ascenso Simões diz ainda que “como amigo e em todas as circunstâncias da vida pessoal, presentes e futuras, ele conta comigo”.

 “Não tenho atributos para fazer julgamentos e conceder absolvições. Mas tenho como obsessão ter uma vida tão digna quanto me for possível nas relações centrais com o meu semelhante”, salienta. Com Luciano Alvarez