Opinião

O eterno retorno do anarquismo

Mal andará a esquerda, digo eu, se se esquecer das suas raízes libertárias, ecológicas e cosmopolitas.

O 1.º de Maio fez ontem 132 anos. Hoje comemoram-se os 50 anos do Maio de 68 — que começou a 2 de maio com a decisão de ocupar a Universidade de Paris-Nanterre. É pouco lembrado, mas são duas datas marcadas pelo anarquismo.

Comecemos pelo 1º de Maio. Que o movimento operário em 1886 era em muitos países predominantemente anarquista ou libertário é bem conhecido (uso, como era hábito no início da história de ambos os conceitos, anarquismo como quase sinónimo de libertarismo, ambos de tendência socialista, e hoje aparentados ao “libertarismo de esquerda”, assim chamado para se distinguir do libertarianismo ou “libertarismo de direita”, mais recente e pró-capitalista). O que é menos conhecido é que o 1º de Maio nasceu como comemoração de solidariedade para com trabalhadores anarquistas, os chamados “Mártires de Chicago”, do nome que foi dado aos oito anarco-sindicalistas que foram presos, julgados e alguns deles executados por uma falsa acusação de violência bombista ligada a manifestações sindicais no início de maio de 1886 na grande cidade norte-americana do estado do Illinois (os acusados viriam a ser inocentados durante o século XX).

A acusação insistia em que os factos relacionados com a inocência dos réus deveriam ser minimizados porque, dizia, era o “próprio anarquismo que estava em tribunal”. A isto respondeu um dos acusados, August Spies: “se é o anarquismo que está em tribunal, meritíssimo juiz, então podem condenar-me, pois sou anarquista. Acredito — tal como acreditavam Paine, Jefferson [e outros pais das revoluções francesa e americana] — que este estado onde uma classe dominante explora o trabalho de outra classe e chama a isto «ordem», que este modo bárbaro de organização social, com o seu esbulho e homicídio organizado, está destinado a acabar, e a dar espaço a uma sociedade livre, de associação voluntária, ou irmandade universal, se quiser. Pode condenar-me, meretíssimo juiz, mas que fique o mundo sabendo que neste Ano do Senhor de 1886, no Estado do Illinois, oito homens foram condenados à morte porque acreditavam num futuro melhor e não tinham perdido a sua fé na vitória final da liberdade e da justiça”.

É fácil de ver como estas palavras rapidamente correram o planeta, principalmente enquanto o mundo operário se organizava para tentar impedir a execução dos seus camaradas de Chicago. August Spies foi enforcado a 11 de novembro de 1887, com apenas 31 anos. As vidas e as causas dele e dos seus companheiros são mais contemporâneas do que poderíamos imaginar, mais parecidas com as vidas dos trabalhadores de hoje do que com as dos trabalhadores de há duas gerações. Estes trabalhadores eram imigrantes: August Spies era um dos muitos pobres alemães que tinham emigrado para o Novo Mundo. Estes trabalhadores entendiam-se como parte de um movimento global e cosmopolita (aquilo a que Spies no tribunal chamava “irmandade universal”, usando um conceito iluminista). E estes trabalhadores tinham uma grande desconfiança em relação aos estados que então se aliavam aos patrões para reprimir os trabalhadores (e nos EUA da segurança privatizada no século XIX essa aliança era evidente) tal como eram desconfiados em relação ao autoritarismo de partidos e lideranças dentro do próprio socialismo (e por isso muitos combatiam a teoria da “ditadura do proletariado” e vieram a opôr-se à URSS leninista).

O anarquismo praticamente desapareceu após a Guerra Civil de Espanha, na repressão cruzada de que foi vítima sob o fascismo e o estalinismo. Mas os anarquistas padeceram também das suas próprias debilidades e contradições, como a rejeição do parlamentarismo, o facto de não terem previsto que o estado social-democrata poderia ser emancipador, e (certamente o pior) a relação condenável que alguns anarquistas mantiveram com a violência política. Salvo certos momentos altos, como o de ter sido uma brigada anarquista a primeira a libertar Paris após a ocupação nazi, o anarquismo praticamente desapareceu durante algumas décadas.

Voltou com o Maio de 68, no qual teve um papel essencial de crítica às ditaduras “populares” na Europa de Leste e de crítica ao dirigismo nos partidos de esquerda, bem como de recuperação de temas que tinham sido caros aos anarquistas do passado, como a ecologia, o pacifismo e o direito à diferença. Se houve coisa que salvou a esquerda radical da cumplicidade com o imperialismo soviético e com a sua hipocrisia autoritária foi a reemergência dessa veia libertária em 1968.

E agora? Estamos de novo num mundo globalizado, de imigrantes e refugiados, de crise ecológica e evasão fiscal internacional, de desestruturação do trabalho perante uma revolução tecnológica que nos deveria permitir libertar e enriquecer as vidas humanas. Mal andará a esquerda, digo eu, se se esquecer das suas raízes libertárias, ecológicas e cosmopolitas.