Lajes podiam ter sido centro de espionagem, mas americanos não confiaram nos portugueses

O congressista luso-descendente Devin Nunes empenhou-se no projecto de instalar centro da NSA na ilha Terceira que não avançou porque as agências de informação norte-americanas desconfiaram da capacidade das secretas portuguesas em lidar com aqueles dados confidenciais.

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Base das Lajes Nuno Ferreira Santos
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Devin Nunes Reuters/JOSHUA ROBERTS

A Base das Lajes chegou a ser equacionada para a instalação de um centro de processamento de informação da NSA (Agência Nacional de Segurança, na sigla original em inglês) mas a hipótese foi rejeitada tanto por esta agência de segurança como pela CIA (Central Intelligence Agency) que desconfiaram da capacidade dos serviços secretos portugueses para lidar com dados confidenciais norte-americanos.

A revelação faz parte de um trabalho publicado esta semana pelo New York Times, que na revista dominical dedica um extenso artigo ao congressista luso-descendente Devin Nunes, e chegou, sabe o PÚBLICO, a ser discutida em Lisboa.

"Como Devin Nunes virou a Comissão dos Serviços Secretos do avesso" é o título do artigo, que percorre a carreira política deste republicano descendente de açorianos (os bisavós emigraram para a Califórnia no início do século XX). A história começa na pequena cidade agrícola de Tulare e estende-se até à actualidade, quando o congressista é visto como um dos principais aliados de Donald Trump no Congresso.

Pelo meio, o jornal fala da “obsessão de Nunes" pelos Açores e das sucessivas tentativas que desenvolveu, enquanto membro da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, para contrariar o desinvestimento norte-americano na Base das Lajes.

Citando fontes oficiais em Washington, o NYT recorda as propostas de Nunes para a instalação na Terceira de uma base de drones para combater o extremismo islâmico no Norte de África. A tentativa de transformar as Lajes numa base avançada para o Comando Africano do Exército Norte-Americano, que está colocado em Estugarda, na Alemanha, é outra das histórias descritas. Assim como a sugestão de reaproveitar as instalações na ilha para um centro de treino para pilotos dos F-16.

Nenhuma dessas ideias foi considerada válida pelo Pentágono, mas o congressista não desistiu. A ideia seguinte foi aproveitar a Base das Lajes para colocar um centro de vigilância da Agência Nacional de Segurança. A proposta, confirmou o PÚBLICO junto de uma fonte do anterior Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), chegou a ser falada com o Palácio das Necessidades, que não se terá oposto.

"Foram apresentadas várias opções durante os contactos que mantivemos e essa foi uma delas", confirmou ao PÚBLICO um alto funcionário do MNE do tempo do Governo de Pedro Passos Coelho.

Na altura, já as denúncias de Edward Snowden sobre o programa de vigilância global conduzido pela NSA tinham abalado a confiança daquela agência de segurança, que se viu debaixo de um coro de críticas.

O projecto só não avançou porque as secretas norte-americanas colocaram muitos entraves. Primeiro apontaram o óbvio: Portugal não integra a Five Eyes, a aliança entre os serviços secretos da Austrália, Grã-Bretanha, Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos para partilha de informação sensível. Depois, e mesmo sendo um aliado, as agências norte-americanas não só não confiaram plenamente nas congéneres portuguesas (em parte, pela natural desconfiança entre serviços de segurança de países diferentes) como ainda colocaram em causa a capacidade de Portugal em garantir a integridade de informação classificada pelos Estados Unidos.

Nunes, de acordo com o NYT, chegou mesmo a pressionar Mike Rogers, o também congressista republicano que presidiu a Comissão de Serviços Secretos entre 2011 e 2015, para inserir uma adenda à legislação, obrigando a NSA a instalar-se nas Lajes. Perante a recusa, foi falar directamente com os directores da CIA e da NSA, que também fecharam a porta à ideia.

O gabinete do actual ministro dos Negócios Estrangeiro, Augusto Santos Silva, garante que essa hipótese nunca foi falada desde a tomada de posse deste executivo. "No mandato deste Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros não discutiu com ninguém qualquer projecto de instalar um centro da NSA nas Lajes", sublinha ao PÚBLICO fonte do MNE, ressalvando que a única opção que esteve sobre a mesa foi a localização do Joint Intelligence Analysis Complex (JIAC) que, por decisão do Pentágono, será construído em Croughton, numa base da força britânica, próxima de Londres.

“O ministro teve conhecimento e, no respeito escrupuloso por decisões próprias dos Estados Unidos da América, apoiou as tentativas de congressistas luso-descendentes, entre os quais Devin Nunes, para afirmar as Lajes como uma localização possível para o JIAC”, precisou a mesma fonte.

Esse foi o último plano apresentado pelo congressista para contrariar o downsizing na base. Já como presidente da Comissão de Serviços Secretos, posição que assumiu em 2015, Nunes chefiou uma delegação do Congresso aos Açores que, recorda o NYT, teve um início atribulado. O vento forte impediu o avião de aterrar na Terceira, obrigando a comitiva a aguardar por melhores condições noutra ilha. Tal como os anteriores, também o plano de Nunes para o JIAC falhou.

E não foi por causa do vento. Com o fim da Guerra Fria (as Lajes serviam como base para os Estados Unidos vigiarem os submarinos soviéticos no Atlântico) e os avanços tecnológicos a permitirem voos sem escala entre os dois continentes, a Terceira perdeu o interesse estratégico que tinha para o Pentágono.

Tanto que as autoridades açorianas têm procurado novos inquilinos para as Lajes. Em Dezembro último, o presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Tibério Dinis, reuniu em Lisboa com o embaixador da China em Portugal, Cai Run. Na agenda estava o concurso internacional para a exploração do Porto da Praia Vitória, que será lançado ainda este ano.