Crítica

A mulher que falhou a sua santidade

Que tragédia existe na perda de fé no divino? Pouca, diz o novo romance de Luísa Costa Gomes que assenta no paradoxo entre liberdade e sofrimento, realidade e a sua recusa. Florinhas de Soror Nada é um romance para ler à luz deste tempo ainda pouco verbalizável.

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Miguel Manso

O subtítulo do oitavo romance de Luísa Costa Gomes (n. 1954) é revelador da sua essência: A Vida de Uma Não Santa. Estamos perante uma hagiografia falhada, ou seja, a história de uma mulher que falhou a sua intenção infantil – porque cultivada na infância – de santidade. Florinhas de Soror Nada, ao tomar a forma de uma hagiografia, assume-se como provocação carregada de nostalgia e de ironia que questiona os ideais de perfeição e de exemplo conquistados à custa de um sofrimento totalmente anti-religioso em nome de um Deus cruel que, entre outras coisas, demoniza o corpo feminino e vê a mulher como um Outro a que não se quer chegar. “...vocês, as insofríveis mulheres”, lê-se para sublinhar a imagem de uma fêmea universal, uma massa ameaçadora para a humanidade à qual é necessário incutir a ideia de auto-flagelação como único modo de uma redenção impossível a esse feminino.

Teresa pertence a esse colectivo “vocês”. O leitor conhece-a perto da morte, quando ela a coteja já sem aflição. “A morte já passou, falta morrer.” Tem 97 anos e a neta acaba de deixá-la num hospital sem olhar para trás. Teresa espera, todos os seus tempos de vida se misturam e reconhece em si algumas novidades de carácter. “O palavrão a qualquer hora em qualquer lugar datava já da Terceira Idade. Gostava de dizer, quando era velha e ainda bem-falante, que o palavrão se usa como ênfase, quando é exigido e alivia a situação. Não é para gastar banal em minudências. Mas agora sabia-lhe bem o ênfase a qualquer hora do dia e o palavrão era excremento, como expelir a mão a bater. A realidade, à medida que ia perdendo textura, perdia continuidade. Havia rasgões, momentos de nada. A ênfase queria dizer que tudo na verdade sabia a pouco, se ia deslassando e que era preciso puxar pelo pouco que havia.”

Esta é Teresa Lido enquanto recorda uma pagela de São Francisco de Assis e pensa num suicídio que talvez possa ser interceptado pela Virgem como naquele salto para o abismo de D. Fuas Roupinho no precipício da Nazaré. Também ali, no fim de vida, ela quer ter o controlo do seu destino como quando decidiu que, aos dez anos, seria santa, rebelando-se contra uma casa onde a mãe vivia frustrada com a domesticidade, e o pai, quase sempre ausente, se tornava apenas visível na sua zanga com o mundo e no desprezo pelas mulheres.

Estruturado como uma hagiografia, em que o capítulo da velhice surge como prólogo, este romance de Luísa Costa Gomes – o primeiro em quatro anos, desde Cláudio e Constantino (D. Quixote, 2014) - foca-se no mistério da perda da fé enquanto momento libertador da individualidade. Como se passa da ideia de que o pecado vive até nas criaturas mais sãs, e que não existe sem culpa nem medo, para a aceitação da finitude materializada num corpo? Como entender um Deus que pede que se cometam crimes em seu nome? Em criança, Teresa parecia perceber. “A lição a tirar era que qualquer maçã, entendendo por maçã tudo o que também o não era, podia trazer em si o bicho da condenação eterna.” Pouco depois poria a questão de outra maneira: como explicar que o mal viesse de quem tinha a responsabilidade de zelar pelo bem? E o romance avança para uma pergunta nuclear. Como se passa do deslumbramento com o divino para o da construção da integridade humana? E como é que uma ideia – a de beatitude – e outra – a de felicidade terrena – não passam, uma e outra, de negações da realidade. A primeira, no entanto, de modo mais trágico que a segunda ao pedir a permanente expiação corporal contra a omnipotência do mal.

A estrutura do romance é de uma aparente simplicidade. A vida de Teresa segue na sua cronologia aos olhos do leitor, com o discorrer do tempo a assumir uma dimensão quase sagrada; demora-se na formação de uma identidade inquiridora acerca do que a rodeia, e acelera quando Teresa simplesmente percebe que a vida é a realidade a acontecer.

O que Luísa Costa Gomes faz é pôr o leitor num ambiente de enorme comicidade trágica. Não há muita luz a não ser a que vem das suas palavras fortemente contaminadas pelo arcaísmo de uma ruralidade já quase perdida e de uma desconcertante ironia auxiliadora. A escritora confessa a proximidade com o português de Aquilino Ribeiro, mas acrescenta-lhe um grande sentido de musicalidade, muito pessoal, muito presente nos seus trabalhos anteriores, apurado, que vem também de um conhecimento invulgar dos coloquialismos, da oralidade, e da sabedoria dos clássicos, de todas as tragédias que falaram da relação entre Homem e Deus e reflectiram sobre o abandono a que foram remetidos um e outro. Que vazio é esse, o de um sentido de ausência que será para sempre, e como viver ou sobreviver com isso?