Asperger terá colaborado com o regime nazi

Documentos históricos sugerem que o pediatra que deu nome a um tipo de autismo participou no programa de limpeza racial do Terceiro Reich, enviando crianças deficientes para uma clínica de eutanásia.

Segundo o historiador Herwig Czech, Asperger (na fotografia) recomendou o envio de várias crianças deficientes para Am Spiegelgrund, uma clínica de Viena onde se executava o programa de eutanásia nazi
Foto
Segundo o historiador Herwig Czech, Asperger (na fotografia) recomendou o envio de várias crianças deficientes para Am Spiegelgrund, uma clínica de Viena onde se executava o programa de eutanásia nazi DR

Hans Asperger integrou a “engrenagem da máquina de matar nazi” de forma voluntária e fez parte “dos olhos e ouvidos” do Terceiro Reich. É desta forma que um conjunto de académicos de Cambridge descreve o papel que o famoso pediatra que deu o nome a uma determinada forma de autismo desempenhou durante o regime hitleriano, num editorial da revista científica de acesso livre Molecular Autism.

Esta acusação baseia-se nos resultados da investigação do historiador da medicina Herwig  Czech, da Universidade de Viena, publicada na mesma edição desta revista, que examinou documentos da época que faziam parte dos arquivos do Estado austríaco.

Segundo o historiador, Asperger recomendou o envio de várias crianças deficientes para Am Spiegelgrund, uma clínica da capital austríaca onde se executava o programa nazi de eutanásia. Entre 1940 e 1945, pelo menos 789 crianças terão morrido nas instalações da clínica, a grande maioria por não preencherem os requisitos definidos pelo conceito de “higiene racial” concebido pelo regime. “[Asperger] acomodou-se ao regime nazi e foi recompensado pelas suas afirmações de lealdade com oportunidades de carreira”, escreve Czech.

O pediatra que em 1944 identificou uma doença enquadrada nas perturbações do espectro do autismo, que viria a ser conhecida por síndrome de Asperger em 1981, abordou em diversas ocasiões os tempos em que viveu na Áustria nazi, mas negou sempre ter tido uma atitude de colaboracionismo para com o Terceiro Reich. O médico, que morreu em 1980, aos 74 anos, confirmou que chegou a ser abordado pela polícia secreta – a Gestapo – mas garantiu que rejeitou liminarmente enviar crianças para Am Spiegelgrund.

Os editores da Molecular Autism divulgaram um comunicado e explicam também no editorial por que é que decidiram publicar a “investigação meticulosa” de Herwig Czeche e oferecem o seu apoio total às conclusões do historiador.

“Sabemos que o artigo e a decisão de o publicar serão controversos. Mas acreditamos que merece ser publicado, para expor a verdade acerca de um médico que, durante muito tempo, foi visto como tendo feito contribuições valiosas para a pediatria e para a psiquiatria infantil, mas que na verdade ajudou os nazis na sua política repugnante de eugenia e e eutanásia. As provas históricas devem ser divulgadas”, afirmou Simon Baron-Cohen, um dos editores da revista, no comunicado.

“O grau de envolvimento de Asperger na identificação das crianças mais vulneráveis de Viena sempre foi uma questão em aberto e incómoda na investigação sobre o autismo”, escrevem os quatro editores.

As revelações sobre Asperger estão a promover um intenso debate no seio de quem convive e investiga esta síndrome. Carol Povey, directora do Centro de Autismo da Sociedade Nacional Autista Britânica, assume a importância da discussão, mas destaca a necessidade de se proteger e respeitar os que padecem daquele tipo de autismo, à luz dos relatos de Czech. 

“Ninguém que tenha sido diagnosticado com síndrome de Asperger deve sentir-se afectado, em alguma forma, por esta história tão perturbadora”, declarou Povey à BBC.