Um país ligado à corrente, na sombra dos jardins

Em cada um dos parques da Havana, há centenas de pessoas viradas para os ecrãs dos seus smartphones, a conversar com familiares no estrangeiro. Mas o regime controla vigorosamente os conteúdos na Internet.

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Adriano Miranda/Público
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Quem chegar a Havana a contar com uma viagem no tempo até uma nostálgica época em que os jovens confraternizavam em gelatarias e bailes de debutantes ao som de orquestras de mambo, ficará surpreendido por encontrar uma sociedade ligada à corrente, a abanar ao ritmo do reggaeton e de olhos postos no pequeno ecrã dos smartphones — mesmo se à sua volta ainda circulem os mesmos automóveis descapotáveis da década de 1950 e os diálogos de namorados ainda os deixem numa nervosa expectativa, à espera de um novo encontro ou uma próxima oportunidade. “E agora quando nos voltamos a falar? Quando a Etecsa [Empresa Telecomunicaciones de Cuba] quiser”, resume um dos desenhos da marca cubana Clandestina, cuja produção (de roupa e acessórios de moda, a artigos para casa e apelaria) pretende representar o quotidiano dos habitantes da ilha.

Hoje não há experiência mais cubana do que passar umas horas sentado num dos muitos parques ou jardins da capital onde se encontra o sinal do wi-fi — por mais intermitente que seja — que garante a entrada no universo da Internet. Esse é, agora, um hábito banal, tal como fazer fila à porta de uma das muitas lojas da Etecsa: ordeiramente e com paciência, há que esperar que o porteiro vá autorizando, a conta-gotas, uma entrada por cada saída. Do lado direito esperam os que vêm tratar do telemóvel, do esquerdo quem vem pela Internet.

Aceder à rede não é tarefa fácil, exige alguma disciplina e planeamento. O sinal de wi-fi não é aberto, nem está disponível de forma automática nos aparelhos que muitos cubanos recebem de familiares que vivem no estrangeiro (ainda assim, nas montras da Etecsa, há aparelhos a preços mais reduzidos do que em Portugal). O monopólio estatal é o único operador da ilha: há uma semana, a Etecsa anunciou ter atingido um novo máximo de cinco milhões de cartões móveis activos em todo o país, o que traduz uma taxa de penetração de telecomunicações de 43% da população.

O serviço móvel de telecomunicações aumentou num milhão o número de clientes nos últimos 16 meses. Uma evolução impressionante, sobretudo considerando que há 15 anos, existiam em Cuba apenas 43 mil clientes com cartão de telemóvel (ainda assim, o pais continua no fundo da tabela dos países latino-americanos em termos de acesso).

1 hora de Internet= 1 peso

Numa nota à imprensa, a Etecsa informa que “a partir do próximo ano começará a comercializar a Internet móvel” — por enquanto, vende umas senhas, com dois códigos numéricos que, quando inseridos na sua página online, activam o serviço de wi-fi. Estão à venda em todo o lado: uma hora de Internet vale um peso convertível (equiparado ao dólar, ou seja, cerca de 80 cêntimos de euro), e quem fica sem crédito pode sempre contar que há em cada parque um fulano que “desenrasca” senhas na hora, por dois pesos.

Faz um calor invulgar de mais de 30 graus e não admira que já não se encontrem mais lugares disponíveis nos bancos com direito a sombra no parque da Línea, a dois passos do edifício da embaixada dos Estados Unidos e do famoso Malecón, a extensa marginal de 8 km onde os habaneros se juntam ao cair da noite, para desfrutar a “bendita circunstância” das águas tépidas do estreito da Florida.

Jenny e Richard, dois jovens do bairro do Vedado, estão sentados juntos — ela com um computador portátil ao colo; ele a picar com o dedo o ecrã do seu telefone. A ida ao parque em busca do wi-fi é um ritual diário que lhes permite manter o contacto com os familiares no estrangeiro e consultar a Internet. Neste fim de tarde, Jenny, que é designer, está na Internet “à procura de material para um trabalho”. “O sinal é fraco” e por isso a pesquisa “é muito lenta”, mas “não há outra maneira, tem de ser assim”, afirma.

Os dois jovens conversam com os olhos nos seus equipamentos: a partir do momento em que digitam a senha, arranca o contador e cada segundo é precioso. De cabeça, estimam que gastam cerca de 20 pesos por mês em senhas de Internet. “No mínimo”, diz Jenny, para quem o acesso à Internet é das despesas mais importantes.

Ainda que seja uma ferramenta de trabalho fundamental para estudantes e profissionais, em Cuba a rede é principalmente utilizada para falar com a família e os amigos, através de aplicações como o WhatsApp e o Messenger. “Por um peso podes estar uma hora seguida a falar com alguém nos EUA ou em Espanha”, diz Richard, apontando dois dos principais destinos da diáspora cubana. Ver vídeos do YouTube ou um programa do Netflix é impossível. “Com o tempo que isto demora, só para descarregar um episódio gastavas uma fortuna”, acrescenta.

“Porque não respondes aos meus sms? E às minhas mensagens no Facebook? Ou aos meus Snapchat? Tens o telefone avariado? Estás na cadeia? Morreste?”, explica o preâmbulo escrito na etiqueta de uma das t-shirts vendidas pela Clandestina com a resposta impressa em letras garrafais em inglês: “Actually, I’m in Havana” (algo do género “é porque estou em Havana”). Outros dos desenhos mostra o “pixelizado” dinossauro da Google a olhar para o distante ícone com as barras do wi-fi, à espera que o sinal volte.

No final de 2014, quando o Presidente dos EUA, Barack Obama, “descongelou” as relações do seu país com Cuba, abrindo caminho à normalização dos contactos diplomáticos e das ligações comerciais, enfatizou a importância do fortalecimento das infra-estruturas de telecomunicações, não só como instrumento para o desenvolvimento económico de Cuba, mas sobretudo para a mudança de mentalidades — o que acabaria por levar à transformação política.

Liberdade condicionada

Apesar de na rua o aparelho de controlo e repressão da dissidência não ser visível, no acesso à Internet a liberdade é ostensivamente condicionada. Na ilha, o PÚBLICO não conseguir carregar as páginas principais de jornais independentes ou de organizações da sociedade civil, cujo conteúdo é “apagado” e frequentemente vêem os seus sites pirateados. “Está tudo bloqueado”, confirma Jenny, que menciona como outra “dificuldade” a impossibilidade de descarregar livros e outros documentos a partir de sites internacionais.

Mas as notícias censuradas pelo regime circulam através das redes sociais ou de mensagens trocadas entre activistas políticos, que por causa da “elevada sensibilidade” do actual momento político em Cuba estão a sentir maior pressão e ser alvo da intervenção pesada do regime.

Meios como o diário digital 14ymedio, fundado pela conhecida blogger Yoani Sanchéz, ou a Rádio e Televisão Martí (que faz parte da rede financiada pelo governo federal dos EUA e que inclui a Voice of America ou a Rádio Europa Livre) denunciaram na semana passada a intimidação e detenção de vários dissidentes do regime, que tencionavam participar na Cimeira das Américas realizada em Lima, no Peru.

No domingo, Manuel Velázquez Licea, do Movimiento Democracia, falou pelo telefone desde sua casa com a Rádio Martí, avisando que o líder do movimento, José Díaz Silva, tinha sido detido em Havana e que uma patrulha da polícia, com seis motorizadas e um automóvel, estava estacionada em frente da sua casa desde as quatro horas da madrugada. “O que queremos é uma mudança de sistema, não uma mudança de tiranos."

No mesmo dia, as forças da polícia e do Departamento de Segurança do Estado detiveram a líder da organização Damas de Blanco, Berta Soler, e outras onze activistas desta organização de familiares de presos políticos que todos os domingos participam numa missa. 

Escapar à vigilância

Quem for mais expediente no recurso à informática arranja maneiras de escapar à vigilância e censura cibernética do regime. Como explicou um dos membros da equipa do jornal 14ymedio, é possível aceder à homepage do diário através de proxies anónimos, alojados em servidores fora da ilha. A pedido do PÚBLICO, os jornalistas da redacção partilharam várias interligações que podem ser usadas para vencer o bloqueio governamental.

Em pouco tempo, os cubanos tornaram-se especialistas em ultrapassar os obstáculos  — esta é uma população habituada a desembaraçar-se. Pequenos balcões onde se desbloqueiam telemóveis, se trocam baterias e resolvem outros problemas com equipamentos electrónicos abundam pelo país; ali vendem-se também cartões SIM ou as famosas senhas da Etecsa para acesso à Internet.

O negócio de Dany, um “cuentapropista” (empresário em nome individual) com licença para um negócio audiovisual é outro: sentado por detrás de uma muralha de monitores e torres de computador, explica que tem disponíveis para descarregar conteúdos televisivos de todo o mundo: séries norte-americanas, inglesas, espanholas ou alemãs; telenovelas mexicanas ou brasileiras, filmes em alta definição ou, enumera. “Tenho uma lista imensa com títulos que mais ninguém tem, e se um episódio estreia hoje à noite, amanhã de manhã já o tenho aqui disponível”, gaba-se.

Num país onde qualquer produto importado é caro, o entretenimento estrangeiro é inexplicavelmente barato. Uma temporada de 29 episódios de qualquer série de televisão, por exemplo, pode ser transposta para um disco rígido ou flash drive por apenas um peso convertível. Já as telenovelas são vendidas ao preço de um peso cubano por episódio.

E para os clientes que não estiverem munidos de um suporte físico não fiquem de mãos a abanar, privados de entretenimento, Dany também vende discos ou pen drives. “Aqui pode-se arranjar tudo. Às vezes temos de montar as máquinas peça a peça, mas no fim fica-se com um equipamento completo”, garante.