Crítica

Spielberg e o oásis

“Recado” sociológico sobre os perigos do escapismo virtual disfarçado de aventura de efeitos especiais, Ready Player One não deixa de ser uma cedência à lógica actual dos estúdios.

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Spielberg costuma fazer filmes “aos pares”, e é curioso ver a justaposição entre Ready Player One e o imediatamente anterior The Post: se no filme anterior se lia um “recado” político para os tempos que correm, aqui temos um recado sociológico nesta história de combate entre as todo-poderosas corporações e utilizadores pelo controlo de um universo virtual escapista chamado Oasis. Será, é certo, uma leitura tópica, algo simplista, mas é uma leitura inevitável quando a internet, o Facebook, o Twitter, as fake news, as realidades virtuais, a cultura gamer adquiriram o peso que todos conhecemos. E o próprio Spielberg não se esquiva a deixar uma mensagem aos espectadores, qual sábio velhinho que admoesta os jovens inconscientes (como escrevia Luís Miguel Oliveira, quase como uma espécie de pedido de perdão pela revolução da cultura pop que ele ajudou a criar na década de 1980).

Tal como The Post, Ready Player One é um filme que parece feito para hoje, para o 2018 em que vivemos, mas ao contrário daquele este é claramente um filme dos dias em que os estúdios só investem em máquinas de efeitos especiais. Se é verdade que aqui encontramos a inteligência e precisão de encenação que reconhecemos a Spielberg (do género: tomem lá, filhos, aprendam como é que se faz) também se sente que este é o filme de super-heróis que Spielberg lá se resolveu a fazer em resposta aos “universos cinemáticos” que por aí pululam – muito melhor sempre que em vez de avatares digitais temos actores de carne e osso (mal aproveitadinhos ainda assim), e com um ritmo descompensado que torna as suas quase duas horas e meia excessivas e supérfluas. Dentro do recente Spielberg “para toda a família”, continuamos a preferir Cavalo de Guerra e o tão mal recebido Amigo Gigante a Ready Player One.