Crítica

A nostalgia culpada de Steven Spielberg

O realizador que mais fez pela imposição da “fantasia” na primeira linha do cinema americano a advogar um “regresso ao real”. Ready Player One é um filme onde uma consciência culpada tenta, de modo mais ou menos desajeitado, expiar-se.

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O desafio de Ready Player One está próximo de ser impossível, quase por contradição nos termos: conciliar o Spielberg preocupado com as distopias tecnológicas – por exemplo o de Relatório Minoritário, baseado em Philip K. Dick – com o Spielberg da ingenuidade adolescente, do imaginário juvenil aventuroso que ele, sobretudo nos anos 80, tanto animou, como realizador ou como produtor. Um dos aspectos mais curiosos de Ready Player One é o sinal permanente desse desejo contraditório. Por um lado, estamos no universo absolutamente contemporâneo (embora projectado num futuro próximo e exacerbado, que no desenho do espaço urbano não anda longe das cidades do(s) Blade Runner(s), o das grandes comunidades online, num universo virtual onde tudo é ao mesmo tempo “jogo” e a única forma significativa de “socialização”. Por outro lado, o filme está sempre a puxar para trás no tempo, através de uma esmagadora avalanche referencial que aponta directamente aos anos 80, e que vai da música (dos Aha aos New Order) aos fragmentos de uma certa cultura “pop” (uma “certa”, porque não a devemos confundir com “toda” a cultura “pop”), que se tornaram emblemáticos da época, do cubo de Rubik ao Regresso ao Futuro, dos jogos de computador arcaicos à Guerra das Estrelas.

Esta salada referencial, distribuída com alguma imaginação, não está isenta de algum gozo: é ela que dá a Ready Player One a maior parte do seu colorido, é ela que confere uma marca verdadeiramente distintiva a um filme que em grande parte do tempo se desenrola dentro dum universo de animação CGI (porque provavelmente nunca houve nenhum filme que estivesse tanto, e tanto, dentro dum jogo de computador). Mas a relativa vacuidade, e sobretudo a infantilidade, destes pedaços de cultura “pop”, desperta outro sentimento para além da nostalgia. A avalanche é opressiva. E isto é talvez aquilo que Spielberg persegue, e que dá ao filme o tom ligeiramente dilacerado que lhe pressentimos: a nostalgia é impossível porque estas referências já não são rebeldes, nem marginais, nem o conforto de adolescentes associais refugiados nas suas casas de subúrbios; tornaram-se dominantes, massificadas, centrais na industria do entretenimento, a norma em todo do qual tudo gira (também porque os adolescentes de 80 têm hoje 40 anos, são eles que mandam, são eles os “líderes culturais”). A narrativa do filme, que anda à volta das tentativas de grandes corporações semi-mafiosas (passe o pleonasmo) para controlarem o universo online em causa, já em parte o exprime. Mas é possível ver, e isso é mesmo o mais interessante do filme, o lugar do próprio Spielberg no meio disto, como se ele não se excluísse do processo – a quantidade de referências que o “chamam” a ele mesmo, do Regresso ao Futuro aos Goonies, filmes que ele produziu nos anos 80, colocam-no na raiz deste “apocalipse pop”, e ele parece assumi-lo. E, então, como evitar vê-lo “projectado” na personagem de Mark Rylance, o “messias tecnológico” (sobre o qual se espera, a todo o momento, um olhar de uma severidade crítica que nunca vem), criador do universo online do filme, desencantado com os moldes que ele adquiriu, “criador que abomina a sua criação”, como é dito duas ou três vezes? O final, com a sua moral explícita e dada como um pequeno sermão, incentivado os “jovens” a passarem mais tempo na “realidade”, tem por isso qualquer coisa de extraordinário: o realizador que mais fez pela imposição da “fantasia” na primeira linha do cinema americano a advogar um “regresso ao real”. Sai-se da projecção com uma ideia fixa, a de que Ready Player One é um filme onde uma consciência culpada tenta, de modo mais ou menos desajeitado, expiar-se.