Uma oposição feita de extremistas “moderados” e uma esquerda frágil

O discurso extremado do Fidesz obrigou o Jobbik a moderar o discurso e a procurar pontes com o resto da oposição. Mas é muito improvável que a maioria do Governo seja beliscada.

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Gabor Vona, líder doJobbik KAROLY ARVAI/Reuters

Muito do sucesso que o Fidesz tem alcançado na última década, traduzido em super-maiorias na Assembleia Nacional, deve-se à incapacidade da oposição em oferecer uma alternativa. As eleições deste domingo não parecem ser uma excepção.

A encabeçar a oposição à coligação governamental está o Jobbik, um partido tradicionalmente ainda mais à direita que o Fidesz, conotado com uma agenda profundamente xenófoba e conservadora, mas que está em processo de recalibração. A apropriação do Fidesz do discurso típico deste partido nos últimos anos tem levado a liderança do Jobbik a mudar o seu discurso, apresentando-se agora como uma alternativa “moderada”, com o objectivo de atrair eleitores no centro do espectro político.

O líder do Jobbik, Gabor Vona, disse recentemente que, “ao liderar a campanha anti-Soros, o Fidesz está a tentar alcançar os eleitores de direita” que tradicionalmente votariam no seu partido.

A mudança do partido no poder parece estar relacionada sobretudo com uma jogada de oportunidade. O primeiro-ministro Viktor Orbán “adapta as suas posições políticas de acordo com aquilo que julga que o irá ajudar a obter mais apoio popular”, disse ao Politico o ex-ministro conservador Geza Jeszensky. Uma fonte do Fidesz confirmou ao mesmo site que o primeiro-ministro “receou ser atacado pela direita” quando a crise humanitária dos refugiados se aprofundou, em 2015.

O Jobbik, que aproveitando o descrédito entre a esquerda assolada por casos de corrupção, se tornou no maior partido da oposição, tem procurado responder às mudanças do Fidesz ocupando espaço no centro. Um partido que não há muito tempo propunha a elaboração de uma lista para identificar todos os judeus na Hungria – reminiscente das práticas nazis –, afirma agora que “o islão moderado é um parceiro na luta contra o extremismo”.

A nova face do Jobbik está a dar força a algumas vozes que defendem alianças conjunturais em certos círculos para derrotar o Fidesz. O grande exemplo de sucesso aconteceu nas eleições locais de Hodmezovasarhely, em Fevereiro, quando um candidato independente apoiado por toda a oposição derrotou o seu rival do Fidesz. A cidade no sul da Hungria era considerada um bastião do partido de Orbán, onde o seu poderoso chefe de gabinete, Janos Lazar, é um cacique local.

“A história desta cidade pode ser uma parábola para o país”, disse o novo autarca Peter Marki-Zay, citado pelo Washington Post.

Nos últimos anos, o Governo fez aprovar várias alterações à lei eleitoral de forma a garantir uma vantagem constante para o Fidesz. Nos círculos uninominais a existência de segunda volta entre os dois partidos mais votados – o que poderia permitir a união de apoio por trás de um candidato da oposição – foi eliminada. Os distritos eleitorais também foram redesenhados, especialmente nos centros urbanos, para que áreas tradicionalmente de esquerda sejam divididas, por exemplo.

“Se querem derrotar o Fidesz, então é preciso conseguir o máximo de lugares que for possível nos círculos individuais, e para isso é preciso cooperar de alguma forma com o Jobbik”, disse ao Politico o activista de esquerda Márton Gulyas.

Porém, a relutância em colaborar com um partido onde as visões racistas persistem é ainda elevada. “Não sei qual é a verdadeira cara do Jobbik”, disse ao New York Times o ex-primeiro-ministro e líder da Coligação Democrática de centro-esquerda, Ferenc Gyurcsani. “Será a cara moderada de Vona, ou a do seu vice, que há alguns meses disse que me queria balear na cabeça?”