Falta de pessoal para reparação deixa comboios da CP parados

À porta das oficinas da EMEF, empresa instrumental da CP, acumulam-se comboios que aguardam reparação. Falta de pessoal é o principal problema.

Foto
Perante a falta de meios, privilegia-se a segurança ao conforto NELSON GARRIDO

De um lado, falta de pessoal, falta de liderança, trabalhadores desmotivados e perda de know-how. Do outro, comboios parados às portas das oficinas à espera de manutenção ou de serem reparados. Este é o estado actual da EMEF – Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário, que pertence à CP, mas que presta também serviços a clientes, agora insatisfeitos, como a Medway (antiga CP Carga) e o Metro do Porto.

O apertado controlo da tutela financeira, que não permite a contratação de pessoal, tem levado a que muitos dos seus passageiros comecem a sentir na degradação do serviço da CP a falta de manutenção dos comboios.

Quem viaja no Alfa Pendular já reparou que frequentemente as casas-de-banho estão avariadas, tal como estão as cortinas eléctricas e as portas automáticas interiores. Isso deve-se à falta de manutenção motivada pelos fracos recursos da EMEF. A segurança, porém, não está em causa: o protocolo de qualidade da empresa diz que, perante a falta de meios, privilegia-se as tarefas que têm a ver com a segurança em detrimento do conforto.

Pelos mesmos motivos muitos passageiros do Alfa para Guimarães já foram obrigados a sair no Porto e a fazerem transbordo para uma vulgar automotora eléctrica porque a composição tem de ficar na Invicta para ir imediatamente às oficinas.

Nos Intercidades, a CP tem tido dificuldade em responder aos picos de procura dos fins-de-semana porque 30% da sua frota de carruagens Corail está encostada à espera de manutenção. O resultado são comboios esgotados, oferta inferior à procura e incapacidade para responder aos pedidos de comboios-charters. Já aconteceu os passageiros do Intercidades para Évora terem de viajar numa UTE (Automotora Tripla Eléctrica) porque não havia locomotiva e carruagens disponíveis para fazer aquele serviço.

Há mais: as próprias UTE, que asseguram o serviço regional nas linhas electrificadas, estão a precisar de uma revisão de meia vida (à semelhança do que está a ser feito agora com o pendular) e a EMEF não tem capacidade para tamanha tarefa. A consequência é que até 2019 metade da frota das UTE pode ficar parada por falta dessa revisão. Os serviços de Lisboa para Entroncamento e Tomar e os suburbanos Figueira da Foz – Coimbra estão em risco.

No material diesel o problema agrava-se pelo facto de a frota ser velha e precisar, por isso, de mais reparação e manutenção. Por esse motivo, em 2017 a CP suprimiu 623 comboios na linha do Oeste, dos quais 428 em todo o seu percurso. E a nem todos foi assegurado transbordo rodoviário de substituição.

O recurso a autocarros por parte da CP também tem sido frequente na linha do Alentejo (Casa Branca – Beja) e no Algarve quando as automotoras avariadas deixam a empresa sem outra alternativa.

Incapaz de satisfazer a oferta regular da empresa-mãe, não surpreende que os serviços especiais também sejam afectados. Em 28 de Fevereiro passado, num jogo para a Taça, cerca de 900 adeptos viajaram das Caldas da Rainha para Vila das Aves em 17 autocarros fretados pela autarquia porque a CP não tinha material disponível para fazer um comboio especial. E também a APAC (Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro) já viu recusado um serviço charter por falta de carruagens.

Pelos mesmos motivos o comboio turístico do Vouga está em risco de não se repetir no próximo Verão – as carruagens precisam de manutenção e as locomotivas (uma a diesel e outra a vapor) que o poderiam rebocar estão avariadas e a sua reparação não é, obviamente, uma prioridade para a EMEF, a braços com o trabalho dos comboios regulares da CP.

Ainda assim, o comboio The Presidential, que também esteve em risco de não vir a realizar-se na próxima época por falta de manutenção, deverá ser assegurado depois de o assunto ter subido ao nível do Governo. Por outro lado, a EMEF também disponibilizou pessoal para o projecto do caminho-de-ferro turístico no Tua, da empresa Douro Azul.

Fora do universo CP, a EMEF tem outros clientes. Uma fonte do Metro do Porto diz que ultimamente “tem havido falhas” na manutenção regular das composições. E a Medway (antiga CP Carga) também se queixa dos excessivos tempos de espera para que os vagões e as locomotivas a diesel sejam reparados. Carlos Vasconcelos, presidente da empresa, disse ao PÚBLICO que a resposta da EMEF é “insatisfatória” e que “a taxa de imobilização do material está acima do que seria desejável”. Se esta fosse mais baixa, a transportadora de mercadorias poderia aumentar a sua capacidade de oferta. O administrador, porém, reconhece que tem havido “um verdadeiro esforço” por parte da empresa para se superar e não duvida que o problema está na falta de pessoal.

Sugerir correcção