Comboios Alfa Pendulares vão à “revisão da meia vida” e ganham nova cara

Processo começa em Março com três anos de atraso. Mudanças nos dez comboios custarão 18 milhões de euros. A cor vermelha das composições dará lugar ao branco e cinzento.

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A cor vermelha dará lugar ao branco e cinzento Daniel Rocha

À falta de novos comboios, a CP vai investir em prolongar a vida útil da frota que já possui. Os Alfa Pendulares já têm 16 anos, mas vão ficar como novos depois de sofrerem a denominada “revisão da meia vida”, que vai custar à empresa 18 milhões de euros. Os dez comboios ficarão irreconhecíveis depois de cada um deles passar cerca de três meses nas oficinas do Entroncamento. A cor vermelha dará lugar ao branco e cinzento e no interior haverá novos assentos com estofos de pele, sistemas de iluminação com lâmpadas LED e bar e casas de banho totalmente remodelados.

O projecto inclui ainda uma melhoria das condições de acesso a uma rede wi-fi de Internet, às redes de comunicação móveis e todos os bancos terão tomadas eléctricas individuais. Uma das maiores transformações será no bar e nas casas de banho, onde os passageiros terão uma percepção de espaço mais amplo, graças ao novo design e à utilização de materiais com acabamentos “naturais”, nos quais se incluem compósitos de cortiça.

Menos perceptível para os clientes da CP será a revisão geral dos motores de tracção e as intervenções em áreas como a mecânica, pneumática, electricidade e electrónica. Afinal é a engenharia que está na base desta revisão da meia vida dos pendulares, dado que era absolutamente necessário desmontar todos os seus componentes, substituir peças e preparar os comboio para continuarem a circular por mais 20 anos.

O resto, a parte visível para os passageiros, veio por acréscimo, por motivos comerciais e porque a CP não tem — nem conta vir a ter — mais comboios de longo curso nos próximos anos para responder a uma procura que tem vindo a crescer , com clientes cada vez mais exigentes.

Os trabalhos de revisão vão decorrer nas oficinas da EMEF (empresa do grupo CP) no Entroncamento e deverão ocupar cerca de 60 trabalhadores durante 30 meses. Mas durante esse tempo a CP fica com menos um comboio para responder aos picos de procura, normalmente aos fins-de-semana, em períodos de férias, “pontes” e nos meses de Verão. A alternativa vai ser o recurso aos comboios de máquina e carruagens, fazendo-se o reforço aos Alfas Pendulares com material dos Intercidades. A situação agravar-se-á, porém, se algum dos pendulares sofrer algum imprevisto e ficar também imobilizado em oficina.

É por isso que a CP pondera alugar comboios de alta velocidade à sua congénere Renfe. Trata-se dos comboios S-120, uma frota que Espanha têm subutilizada e que faz muita falta nos carris portugueses.

Questionada sobre esta intenção, fonte oficial da CP diz que “são hipóteses em estudo, não estando ainda tomada qualquer decisão”. Mas o PÚBLICO sabe que a CP aguarda apenas o aval do Governo — seu accionista — ao qual já entregou um dossier explicando a necessidade de reforçar a oferta de longo curso, não só para colmatar a falta de um pendular durante dois anos e meio, como para alargar a frequência (mais comboios por linha) e o próprio serviço (mais destinos).

Esses comboios são dotados de bi-tensão, o que significa que, quando os espanhóis electrificarem a linha de Salamanca até Vilar Formoso, os S-120 poderão circular sem barreiras técnicas entre Portugal e Espanha. Enquanto isto, a gestão dos Alfa Pendulares será feita com pinças, com uma reduzida margem de manobra para imprevistos.

Os pendulares (assim designados por se inclinarem nas curvas por forma a não terem de reduzir a velocidade), que deveriam ter sido estreados aquando da Expo 98, acabariam por só chegar a Portugal em 1999 — foram importados de Itália e montados na antiga Sorefame na Amadora. Desde então, as dez unidades já percorreram 41 milhões de quilómetros.

Cada composição tem 301 lugares e atinge uma velocidade máxima de 220 quilómetros por hora. Em rigor, poderiam ir aos 250 quilómetros por hora, mas não há linhas em Portugal que suportem tais velocidades. Aliás, são muito poucos os troços onde o pendular dá um ar da sua graça e se lança a mais de 200 à hora. Os comboios são rápidos, mas o ritmo de modernização das linhas portuguesas é que tem sido lento.

Lento foi também o próprio processo de revisão da meia vida, que vai começar em meados de Março com três anos de atraso. Depois de vários adiamentos, a tentativa de privatização da EMEF, levada a cabo em 2015 pelo anterior executivo de Pedro Passos Coelho, levou a que o Tribunal de Contas não aceitasse o contrato feito entre a CP e sua empresa instrumental, dado que ela iria mudar de dono. Só quando o Governo desistiu de privatizar a EMEF é que a CP voltou a ser autorizada a prosseguir com o contrato destinado a levar os pendulares à revisão.