Opinião

Pode um progressista defender Putin?

Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele descaradamente violada.

Há uma lei informal do jornalismo — conhecida por Lei de Betteridge, a partir do nome do jornalista de tecnologia que primeiro a sugeriu — que diz o seguinte: a resposta a qualquer título de um artigo de jornal que termine com uma pergunta é “não”. “Será esta bebida de espargos a cura para o cancro?” (resposta: não). “Será esta foto a prova de que Elvis está vivo?” (resposta: não). E por aí adiante.

Será que esta suposta lei se pode aplicar sempre infalivelmente? A resposta é: não. Mas funciona muitas vezes. E hoje é um desses casos.

Consideremos o título desta crónica: pode um progressista apoiar Putin? A resposta é não. Não há nada em Putin que possa agradar a um progressista que leve minimamente a sério as ideias progressistas. Putin é um autoritário e liberticida no seu país, que governa graças ao capitalismo mais selvagem e plutocrático; no estrangeiro, Putin tem sido o principal desestabilizador do sistema internacional que ainda nos ia dando alguma paz e previsibilidade nas últimas décadas.

Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele descaradamente violada. Putin diz defender a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras dos Estados? Só se não houver alguém que fale russo algures em algum Estado vizinho da Rússia (o que não é difícil, tendo em conta que são Estados recém-independentes de uma União antes dominada pela Rússia). Putin é pela paz e contra intervenções militares que não sejam aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU? Sim, com exceção de todas as invasões que lhe forem úteis, às claras ou às escondidas, da Geórgia à Ucrânia. Putin alega ser contra a interferência na política interna de outros países? Deixem-nos rir.

Quando alguém que se reivindica de ideias progressistas defende Putin é porque em geral o faz ao arrepio dessas mesmas ideias. Defende Putin como forma de atacar a hipocrisia das ações de outros líderes políticos, em particular ocidentais, hipocrisia essa que certamente existe e em quantidades apreciáveis. Ou defende Putin porque ele irrita as pessoas “certas”. Ou defende Putin porque pensa que ele serve de contrapeso ao “imperialismo”.

São, todas elas, péssimas razões. Dois errados não fazem um certo, a coerência não é uma batata e “irritar os tipos que eu acho irritantes” não é uma boa razão em geopolítica. Putin só é um contrapeso ao imperialismo — nomeadamente americano — na mesma medida em que ele representa a mais clara materialização de uma política imperialista neste século XXI desde a Guerra do Iraque. Imperialismo é achar, como Putin acha, que os países do seu entorno não têm os mesmos direitos de determinar as suas alianças que qualquer país do mundo. Imperialismo especialmente paranóico é achar que, com uma fronteira de mais de 20 mil quilómetros de extensão, são os menos de dois mil quilómetros que partilha com a UE que o “cercam”.

Tudo isto era já verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um ex-espião russo e a sua filha. A questão mais importante, no entanto, começou antes e vai muito para além do atual episódio. Putin tem uma considerável base de opinião a seu favor nas democracias ocidentais, e é importante conhecer-lhe as razões. Que Putin seja adorado por todos os fascistas e etno-nacionalistas identitários que por aí pululam, nada de mais expectável nem natural: afinal, a sua ideologia alinha-se completamente com as deles — e as contas bancárias dele com as dos seus partidos, de Itália à França e por aí afora. A extrema-direita a defender Putin é só mais chuva a cair no molhado.

Mais sério é quando alguém que se reclama do progressismo acha que faz de alguma forma figura de pensador original ou especialmente arguto. Putin é o que as suas ações mostram com clareza: um tirano agressivo. Qualquer progressista que o defenda, mesmo que às arrecuas, fá-lo às custas das vítimas de Putin em casa e fora dela. E às custas, cada vez mais, de nós mesmos — seja da nossa segurança, seja da nossa coerência.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico