Os dois vencedores das eleições italianas dividem as presidências no Parlamento

Ninguém admite que o acordo alcançado para eleger uma candidata da direita para presidir o Senado e um deputado do M5S para a Câmara seja o prenúncio de um pacto de governo. Mas talvez não haja mesmo alternativa.

Fico e Di Maio durante a votação na Câmara dos Deputados
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Fico e Di Maio durante a votação na Câmara dos Deputados Ettore Ferrari/EPA
Elisabetta Alberti Casellati depois de ser eleita presidente do Senado
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Elisabetta Alberti Casellati depois de ser eleita presidente do Senado Alessandro di Meo/EPA

Não foi ao primeiro, tinha de ser ao segundo dia, com uma quantidade razoável de drama, ou não estivéssemos a falar de Itália. Depois da inauguração oficial da legislatura, na sexta-feira, marcada por votos em branco e fumo negro nas votações para as presidências das duas câmaras do Parlamento, a coligação de direita, liderada pela Liga, de Matteo Salvini, e o Movimento 5 Estrelas, chefiado por Luigi di Maio, lá conseguiram entender-se.

Na verdade, Salvini (o seu partido obteve 17%, a coligação em que foi o mais votado 37%) e Di Maio (o M5S aproximou-se dos 33%) tinham chegado a acordo há alguns dias, o problema foi mesmo Silvio Berlusconi. O antigo primeiro-ministro, ainda a aprender a viver na realidade pós-4 de Março, um mundo novo em que ele já não é o líder da aliança de direita, insistiu que queria a presidir o Senado Paolo Romani, um candidato vetado pela formação de Di Maio por ter no currículo uma condenação por corrupção.

Durante a tarde de sexta-feira, Salvini ordenou aos seus deputados que votassem noutro nome da Força Itália, de Berlusconi. Foi o suficiente para Berlusconi gritar “traição” e o “fim da unidade da direita”, denunciando o “projecto para um governo Liga-M5S”. Nada que uma noite de sono e mais algumas conversas com Salvini não curassem.

Mais um pormenor: para não parecer que só Berlusconi e a direita estavam a recuar, Salvini teve de convencer Di Maio a deixar cair a sua primeira escolha, Ricardo Fraccaro, apontado como candidato à presidência da Câmara desde sexta-feira. E assim foi possível alcançar uma trégua que alguns comentadores já antecipavam impossível, depois da explosão de Berlusconi.

“É um óptimo resultado para nós”, afirmou o ex-chefe de governo depois da eleição de Maria Elisabetta Alberti Casellati para a presidência da câmara alta.

Afinal, Casellati não é só senadora da bancada do seu partido como é desde sempre umas das suas mais leais seguidoras. Advogada e docente universitária, duas vezes secretária de Estado adjunta (Saúde e Justiça) nos seus governos e, acima de tudo, uma das autoras e defensoras de um conjunto de legislação votada pela direita para salvar Berlusconi, tanto dos seus conflitos de interesses como dos processos em que era acusado – as chamadas leggi ad personam.

Primeira mulher

Casellati é também a primeira mulher de sempre a presidir ao Senado italiano, razão pela qual teve direito a um aplauso de pé de todas as bancadas, incluindo a do centro-esquerda do Partido Democrático (grande derrotado nas eleições de 4 de Março, com menos de 19% e o pior resultado da sua história).

Na Câmara dos Deputados, sai uma mulher, Laura Boldrini (ex-porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, eleita em 2013 como independente nas listas do entretanto desaparecido SEL – Esquerda, Ecologia e Liberdade), e entra um dos peso-pesados do M5S, Roberto Fico.

Membro da ala mais à esquerda do movimento fundado por Beppe Grillo, Fico costuma ser descrito como mais “grillista que Grillo” e chegou a ter divergências com o actual líder, Di Maio. Problemas que se terão resolvido nos últimos meses, com a intensa e bem-sucedida campanha eleitoral, culminando no abraço apertado que se seguiu à sua eleição.

“Agradeço-vos a confiança, vou honrar o meu cargo com a máxima imparcialidade e o máximo rigor”, prometeu o napolitano. Na primeira intervenção no palácio de Montecitorio, Fico afirmou que a sua prioridade será cortar os custos da política. “Não permitirei atalhos nem ataques no debate parlamentar”, acrescentou ainda.

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