“Somos um hot spot das alterações climáticas”

Se nada mudar radicalmente, no final do século a área ardida por ano em Portugal pode ser duas a três vezes superior.

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Adriano Miranda

Vai chover menos, as secas serão mais frequentes e mais intensas e isto fará com que o risco de incêndio aumente em Portugal até ao final do século. O cenário só poderá ser menos negro, se algo for mudando em vários aspectos, e mesmo assim pode não ser suficiente.

“Somos um hot spot das alterações climáticas”, disse esta quinta-feira à tarde o professor Filipe Duarte Santos, numa conferência na Gulbenkian sobre “a protecção das comunidades em cenário de incêndio rural”, organizado pela Estrutura de Missão para a Instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, liderada por Tiago Martins Oliveira. Para aquele professor da Faculdade de Ciências, especialista em alterações climáticas, os vários indicadores que contribuem para o risco de incêndios em Portugal mostram um agravamento desde o início do século e a projecção desses dados até ao final do século XXI mostra o seu agravamento, se nada for feito. “Em 2075 as áreas ardidas [por ano] poderão ser duas a três vezes superiores. Isto acontecerá, mas depende da actividade humana, não é uma coisa determinística, pode haver uma série de medidas no sentido de evitar que isso aconteça desta forma”, argumentou.

O ano de 2017 mostrou que o risco existe e que já se concretizou. Mas nem seria preciso o ano passado para passar a ideia de que Portugal tem um problema grave com incêndios: “Entre 2006 e 2015, Portugal teve mais incêndios que a Rússia”. “Além de termos um problema que tem características particularmente agudas, aquilo que se projecta para o futuro é uma tendência para um maior risco de incêndio florestal”.

Um dos problemas tem a ver com a redução da ocupação do espaço com a agricultura, como lembrou mais tarde o professor José Manuel Lima: “Onde há abandono agrícola, há fogos”, disse este especialista em agricultura. Este é um dos pontos-chave para futuro. “Pode acontecer que se torne impossível que se crie valor económicos para as florestas no centro e norte de Portugal, o que significa que até ao final do século poderíamos ter apenas ter uma floresta residual: é preciso dar valor às florestas”, defendeu Filipe Duarte Santos.

Esta evolução do que se passa é visível, por exemplo, no caso da freguesia de Alvares, em Góis. De 1960 a 2010, esta freguesia, que faz parte de um projecto de reflorestação levada a cabo pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), “deixou de ser essencialmente uma área de pastorícia para ser floresta”, contou o professor José Miguel Cardoso, que lidera aquele projecto. Noventa por cento desta freguesia era floresta e 80% eucalipto - a proposta que o ISA faz é que seja reduzida a área florestal para 70% e redizir a 50% o eucaliptal.

Este professor apontou outro ponto importante na floresta em Portugal: uma parte significativa arde mais do que uma vez num curso espaço de tempo: “Um produtor florestal contou-me que tem alguns hectares de eucaliptos há 40 anos. Nunca os cortou verdes”. Quarenta anos significam quatro ciclos de crescimento do eucalipto, oque significa que aquela área ardeu pelo menos quatro vezes em 40 anos.

Sobre estes assunto há números que mostram a calamidade: “Em 28 anos, de 1990 a 2017, em 430 mil hectares, ardeu 117% da área da região do Pinhal Interior. Ou seja, em 28 ano, o Pinhal Interior ardeu completamente mais do que uma vez”. A área do Pinhal Interior engloba municípios como Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pêra ou Góis, afectados pelos incêndios do ano passado.

O que poderá ser feito para futuro não é apenas trabalhar num sector, mas em vários e tem de envolver a comunidade. Foi isso que defendeu o especialista canadiano Kelvin Hirsh, que esteve a apresentar o programa FireSmart. “A pergunta não é se a comunidade [no Canadá] vai ser afectada por um incêndio, mas quando”, pelo que é preciso ter consciência, defendeu que “a fase da supressão tem os seus limites”. Naquele país, que é dos mais afectados por incêndios e sobretudo por incêndios graves, este programa engloba várias vertentes (desde a educação, à legislação ou à gestão florestal) para tornar as comunidades mais seguras.

O especialista canadiano focou-se ainda na protecção das habitações, uma vez que naquele país os incêndios afectam cerca de 20 povoações por ano, que chegam em média às 70 mil pessoas, grande parte delas evacuadas. Para Kelvin Kirsh é possível reduzir a destruição de casas com a escolha do material de construção e também com a envolvência (delimitação de áreas perto das povoações sem árvores), mas apesar disso, não é possível evitar a destruição de casas: “É uma questão de probabilidades (…) o risco de não queimar nunca é zero. Pode ser reduzido, mas nunca é zero”, defendeu.