Londres promete resposta “robusta”, se se provar envolvimento da Rússia no caso do ex-espião hospitalizado

Kremlin diz-se pronto a cooperar com Londres na “trágica situação” de Serguei Skripal. Imprensa britânica fala em suspeita de envenenamento do ex-agente russo.

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Sergei Skripal, numa imagem não datada fornecida pela Reuters, quando foi detido pelos serviços secretos Reuters/REUTERS TV
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Polícia investiga local onde Sergei Skripal foi encontrado inconsciente
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Polícia investiga local onde Sergei Skripal foi encontrado inconsciente Reuters/TOBY MELVILLE
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Poucas horas depois de o Kremlin ter manifestado disponibilidade para cooperar com o Reino Unido, se lhe for solicitada ajuda na investigação à situação do ex-espião russo encontrado em estado grave no domingo, o Governo de Londres prometeu uma resposta “apropriada e robusta”, se se vier a provar que a Rússia está envolvida no caso. 

O porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov, referiu-se à “situação trágica” e garantiu que “Moscovo está sempre pronto a cooperar”. Por sua vez, no Parlamento, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, qualificou o caso envolvendo o ex-espião russo alegadamente envenenado como “perturbador”.

Embora tenha reconhecido que pode haver especulação e que seria errado tirar ilações antecipadas da investigação em curso, Johnson esclareceu também que se surgirem provas da responsabilidade de um Estado, “o Governo de Sua Majestade dará uma resposta robusta e apropriada”.

Substância desconhecida ou veneno

Uma fotografia alusiva ao caso enche as primeiras páginas da imprensa britânica nesta terça-feira. Quase invariavelmente lê-se que o coronel do Exército foi envenenado, na segunda-feira, quando estava na rua. O Financial Times e o Guardian, mais cautelosos, não dizem que foi envenenado, optando por afirmar que ocorreu “a exposição a uma substância misteriosa” ou “desconhecida”.

Outros jornais ingleses puxam para manchete a suspeita de “envenenamento”. O Daily Telegraph escreve que Skripal terá ido à polícia dizer que temia pela sua vida. As autoridades britânicas envolvidas na investigação do caso referem que não existe, para já, qualquer pista que aponte para crime.

A BBC revelou entretanto a identidade da mulher que acompanhava Skripal e que está também hospitalizada nos cuidados intensivos. Será Iulia Skripal, filha do ex-espião, que vive na Rússia e estava em Inglaterra a visitar o pai. 

O filho mais velho de Skripal terá morrido no ano passado com 43 anos, durante uma visita a São Petersburgo, e a mulher que vivia com Skripal em Inglaterra desde 2010 faleceu em 2012 com uma doença oncológica, refere o jornal The Guardian.

Skripal e a filha foram encontrados num banco de uma zona comercial na cidade de Salisbury a cerca de 140 quilómetros a sudoeste de Londres, no domingo. Estavam ambos inconscientes, de acordo com informações da polícia. 

Perdoado por Medvedev

De acordo com a BBC, Serguei Skripal, um coronel dos serviços secretos militares russos na reserva, foi condenado a 13 anos de prisão, em Agosto de 2006, acusado de espiar a favor de Londres. Foi considerado culpado de “alta traição na forma de espionagem” por um tribunal militar e a Rússia retirou-lhe todos os títulos e condecorações. Os serviços secretos russos alegavam que ele teria começado a trabalhar para o MI6 em 1990 e que teria recebido 100 mil dólares a troco de informações.

Em 2010, foi perdoado pelo então Presidente, Dmitri Medvedev, e o Reino Unido concedeu-lhe asilo depois de uma “troca de espiões” ao mais alto nível entre a Rússia e os Estados Unidos. Foi um dos quatro prisioneiros que Moscovo libertou em troca da libertação de dez espiões então detidos nos Estados Unidos.

Na conferência de imprensa desta manhã, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reagiu com sarcasmo à tese do envenenamento referida pela imprensa britânica, apenas dizendo: “Não precisaram de muito tempo.” E esclareceu que a presidência russa “não tem qualquer informação sobre os motivos e com o que é que [este incidente] pode estar relacionado”. Além disso, refere, o Kremlin “não se sabe o que a pessoa [o ex-espião] andava a fazer”.

Mais tarde, numa declaração tornada pública, a embaixada da Rússia em Londres queixou-se da cobertura jornalística e disse que o caso do ex-espião hospitalizado em Salisbury estava a ser usado para “diabolizar” a Rússia.

“Preocupa-nos seriamente [a cobertura do acontecimento]”, referiu um porta-voz da embaixada, que acusou os órgãos de comunicação social britânicos de estarem “a lançar de forma ligeira uma nova fase” do que designou por “campanha anti-russa”, e pediu para que se ponha fim a essa “diabolização”.

Morte de 2006 sob investigação

Doze anos depois, paira a recordação da morte de Alexander Litvinenko. O antigo membro do KGB, que conseguiu asilo no Reino Unido em 2000, morreu três semanas depois de ser hospitalizado a 1 de Novembro de 2006. O seu estado foi-se agravando de dia para dia, após beber chá com polónio-210, um elemento radioactivo raro e ao qual normalmente só entidades estatais têm acesso

A investigação policial à sua morte nunca foi concluída e continua aberta. As suspeitas de que o seu envenenamento terá sido aprovado pelo presidente Vladimir Putin não foram dissipadas. 

Sobre este novo caso o oficial do contraterrorismo britânico Mark Rowley explicou à BBC: “Estamos a questionar testemunhas e a proceder à investigação toxicológica de amostras recolhidas no local [que está selado], o que nos ajudará a chegar a uma resposta.”

Um elemento dos serviços de emergência do condado de Wiltshire deu entrada no hospital com sintomas ligeiros (como irritação dos olhos) do que poderá ser a exposição à substância desconhecida. Os servicos de saúde não crêem que existam riscos imediatos para a população decorrentes deste incidente. No entanto, aconselham as pessoas a contactar os serviços no caso de se sentirem doentes ou se a sua saúde se deteriorar de forma brusca.

Sobre as suspeitas de envenenamento, e numa referência ao caso de Litvinenko em 2006, disse, também citado pela Reuters: “Não podemos esquecer: os exilados russos não são imortais e pode haver uma tendência para teorias da conspiração. Dito isto, temos de estar despertos para o facto de haver ameaças de Estados.”