Exportadores agro-alimentares temem falta de água

A escassez de água pode fazer desviar o rumo ascendente das exportações alimentares e cria pressão sobre os custos de quem produz. Importações de matéria-prima agrícola são a alternativa para a indústria transformadora

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NFS - Nuno Ferreira Santos

Nos últimos dez anos, o défice das trocas comerciais da categoria de produtos alimentares e bebidas — abrangendo produtos primários e produtos transformados — entre Portugal e o resto do mundo sofreu uma redução, nem sempre contínua, até estabilizar em torno dos três mil milhões de euros. Com anos melhores e piores, entre o começo e o fim desses dez anos as importações de alimentos cresceram em mais de um terço, mas foram acompanhadas por uma quase duplicação das exportações de alimentos.

No último ano, segundo os dados preliminares do Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal vendeu para o resto do mundo produtos alimentares e bebidas no valor de 5,94 mil milhões de euros — entre primários (agrícolas e pesca, no valor de 1,8 mil milhões de euros) e transformados (no valor de 4,1 mil milhões de euros) —, situando o défice total da categoria em 3,13 mil milhões de euros.

Na análise aos dados relativos a 2016, o INE adiantava que “nas trocas comerciais de 'produtos alimentares e bebidas' o défice aumentou 106 milhões de euros, tendo atingido um saldo negativo de 2973 milhões de euros, mantendo-se como o segundo maior défice” do país, por classificação de grandes categorias económicas (CGCE), a seguir aos combustíveis. Adiantava ainda que, “para esta evolução” verificada em 2016 “contribuiu sobretudo o aumento do défice nos 'produtos primários destinados principalmente ao consumo dos particulares'”.

Não deitar por terra o trabalho feito 

Em hortícolas e fruta (pronta a consumir e preparada) as exportações portuguesas ascenderam a cerca de 1400 milhões de euros (que somando os 79 milhões de venda de flores e plantas tiveram um crescimento anual de 12,4%), de acordo com o presidente da Portugal Fresh – Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal. Na área de agricultura onde este sector opera – de regadio - Gonçalo Santos Andrade admite que em 2017 “não foi tão grave, se calhar, como noutros subsectores”, que enfrentaram “um desastre”.

Mas, em declarações ao PÚBLICO, admite que 2018 “começou muito mal” e recorda que no seu sector “normalmente estas situações de seca reflectem-se no ano seguinte” - “a situação é muito preocupante”, porque as “reservas [de água] estão muito em baixo em muitas geografias do país”. “Neste momento não consigo dizer que impacto é que isso pode ter”, mas, reconhece, “pode ser desastroso”.

“Temos que fazer mais barragens ou não?”; “O que vamos negociar no novo quadro comunitário” também para “ir buscar água ao mar” e estudar processos de dessalinização? - são as perguntas que se colocam ao sector. Portugal precisava de um plano “que permitisse encarar o futuro com uma perspectiva risonha e que não deitasse por terra o trabalho feito a nível de marketing e comercial pelas empresas na excelente promoção do que é o nome de Portugal hoje em dia lá fora ao nível dos produtos das frutas, legumes e flores”.

“Assusta-nos”, diz, que “haja um decréscimo de disponibilidade de produto” e que seja assim “afectada a nossa ambição de continuar a crescer as exportações” de frutas, legumes e flores, à medida do plano traçado, de 10,8% ao ano, até atingir os dois mil milhões de euros em 2020.

Mais importações?

“Enquanto cliente da agricultura”, a FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares tem estado “bastante atenta à problemática da seca e ao impacto na cadeia de valor agro-alimentar”, pelas consequências que a falta de água tem “no abastecimento agrícola de proximidade”, afirma Pedro Queiroz, director-geral da organização, em respostas escritas ao PÚBLICO. A FIPA contabiliza as exportações de produtos da indústria agro-alimentar e das bebidas em 4867 milhões de euros, de um volume de negócios total de 15.916 milhões de euros em 2017.

“Pelo facto de haver uma redução da produção”, explica Pedro Queiroz, “a indústria tem de procurar mais as suas matérias-primas nos mercados internacionais para continuar a garantir o abastecimento ao mercado nacional, quer para a alimentação humana, quer para a alimentação animal”.

Os alertas sobre a alimentação dos animais constam das últimas previsões agrícolas do INE. A mais imediata é a falta de água para beberem. Depois, as "baixas temperaturas e a escassa precipitação conduziram a um abrandamento no desenvolvimento” dos “prados, pastagens e culturas forrageiras" e levou a "uma disponibilização de matéria verde" que foi "inferior ao normal", e "obrigando a uma antecipação do consumo de alimentos conservados e concentrados". A falta de precipitação “também atrasou a instalação de forragens” e, segundo o INE, "a grande maioria das explorações agro-pecuárias já esgotou as reservas de palhas e fenos, prevendo-se que tenham de continuar a recorrer a alimentos adquiridos".

"Confrontamo-nos com uma situação alarmante que passa pela falta de pasto nos lameiros. As sementeiras correram muito mal, tudo porque muitas delas nem sequer rebentaram e os produtores estão a recorrer a suplementos alimentares para os animais", confirmou há dias o secretário técnico da Associação de Produtores de Bovinos de Raça Mirandesa (ACRBM), Válter Raposo, à Lusa. “O preço da palha está ao dobro dos preços praticados no ano passado, uma situação que se vai ressentir na economia das explorações pecuárias, já que a margem de lucro é cada vez menor", vincou Válter Raposo.

“Naturalmente que havendo redução da produção será necessário recorrer à importação procurando mercados que garantam os mesmos níveis de qualidade”, explica, por seu turno, Pedro Queiroz. Mas, para a Federação que representa um sector com 11.322 empresas, a “questão mais grave é mesmo o facto de se estar perante sérios riscos de escassez de matéria-prima de origem nacional”, que tem “parâmetros de qualidade bastante reconhecidos e espécies que podem não ser fáceis de encontrar noutras regiões do globo”, conclui.

Contactada também a APED — Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, sobre o impacto da seca no abastecimento de produtos agro-alimentares no mercado doméstico, a organização que reúne os maiores grupos de hiper e supermercados do país não respondeu.

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